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sábado, 22 de setembro de 2012

Visita à Roça Sundy


  Por 50.000 STD (≈2€) pode-se chegar de mota a Sundy a partir da cidade de Santo António - e se regatearem bem, podem ter ida e volta por 80.000 STD. O caminho até lá é muito bonito, com a estrada de terra batida pintada de vermelho e a criançada e as casas e as motas espalhadas por aí; tudo bastante "África".



    A primeira impressão que tive mal cheguei a Sundy foi que o sítio parecia uma espécie de parque de diversões que foi mal planeado, abandonado, e depois, ocupado. Os caminhos não fazem muito sentido, as árvores tapam a vista, e as pessoas estão por todo o lado, claramente habituadas a turistas.

    Não há placas mas a julgar pelo que vi, acima está uma fotografia da antiga cavalariça com as seteiras em tudo semelhantes ao que se encontraria em Portugal.

 Encontrei uma locomotiva abandonada num canto, os carris que a meteram
 no lugar já não existiam e tudo à sua volta parecia estar a cair lentamente aos bocados.
 
Fonte/bebedouro dentro da cavalariça
O relógio já desapareceu e o interior está totalmente abandonado. Disseram-me que há uns anos alguém vivia aqui, mas também essa pessoa desapareceu com o passar do tempo.


Vista das casas onde vivem as pessoas da roça. Segundo um senhor já de uma certa idade que conheci há entrada, dantes haviam perto de três mil trabalhadores (duvido, mas siga) e dormiam três pessoas em cada quarto. O que não tenho dúvidas é que esta comunidade é apenas uma sombra do que foi outrora.


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Na costa do Príncipe

Comunidade pesqueira de Lapa
    Partindo de São Joaquim e descendo o caminho até ao mar (sempre com cuidado para não escorregar na lama!) chegar-se-á eventualmente a um rio que é preciso atravessar usando um enorme tronco caído. Continuando para sul através do caminho antigo, sempre com o mar do lado direito, não tardará a surgir uma pequena comunidade chamada Lapa. As pessoas, como sempre, são extremamente simpáticas e prestáveis por isso ficar simplesmente por lá a falar é uma escolha perfeitamente boa, mas se quiserem continuar, então aconselho a tirarem as botas (caso não venham de chinelos) e atravessarem o rio para continuarem até a Ana Correia.
    O caminho depois de Lapa fica ainda pior porque foi todo pisado por vacas por isso não se admirem se ficarem enterrados em lama quase até ao joelho... e se forem como eu e usarem sandálias, será uma boa altura para as tirarem e andarem descalços porque se não a lama vai chupá-las e terão que continuar descalços de qualquer maneira... Ok, já chega de lama, a paisagem é fantástica, aproveitem! E se tiverem tempo e equipamento, dêem um mergulho e explorem as grutas. Foi assim que vi uma senhora lagosta.

    Montei acampamento na foz de um rio onde almoçei enquanto esperava que as botas e as calças secassem. A paisagem fora de água era fantástica, e dentro de água também não era nada má, embora fosse difícil ver o fundo graças à diferença de salinidade entre a água do rio e a do mar. Recordando as aulas de biologia marinha, a água salgada (mais densa) assenta no fundo e a água doce (menos densa) está por cima, e a transição entre as duas cria uma espécie de "barreira" que distorce a luz e faz com que tudo pareça desfocado. Nunca me tinha acontecido e foi bem fixe ver a barreira a dissipar-se subitamente quando mergulhava.

    Saltando este rio (e os outros que se seguem - já lhes perdi a conta) chegar-se-á a Maria Correia, uma zona que tem apenas uma ou duas casas mas que é muitíssimo bonita por causa do rio que lá passa e das cascatas que esconde nas "traseiras" - peçam com jeitinho a alguém que vos leve até elas.

  Recomendo vivamente a passar por esta zona lá para o final da tarde (apesar da mosquitada implacável) porque esta face da ilha está virada para oeste por isso o sol vai pintar toda a paisagem com umas cores verdadeiramente incríveis. 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Trabalho de campo no Príncipe

    Quando o trabalho de campo exige que se vá para zonas mais inacessíveis e não existe transporte próprio, a ultima alternativa são os motoqueiros. Foi assim que eu e o Simon fomos para São Joaquim para fazer contagem de papagaios e apanhar passarada com as redes.

    São quase sempre as crianças as primeiras a dar-nos as boas vindas. Apesar de muitas vezes serem chatas, faz tudo parte da experiência e não seria a mesma coisa sem termos os petizes todos à nossa volta a observar atentamente cada coisa que fazemos e a comentar sobre isso mesmo como se não os conseguíssemos perceber.
    As paisagens na ilha do Príncipe são uma perfeita loucura e este postal espera qualquer um que vá atrás de uma das casas de São Joaquim.
Campo de batalha
    Foi só por si uma aventura conseguir ferver água para o chá. O processo é demorado e trabalhoso e começa com a selecção de paus e troncos de tamanhos diferentes e o mais secos possível - coisa extremamente difícil para estes lados por isso o normal é ter-se que aproveitar quase só o centro da madeira. Depois de rachar a lenha toda até ter um autêntico degradé de tamanhos, há que montar uma caminha para isolar tudo do chão frio e molhado, e depois monta-se uma espécie de tenda de índio com os pauzinhos e queima-se um pedaço de saco de plástico e deixam-se as gotas incandescentes caírem por cima da madeira. Para quem tem jeito (e sorte) isto é o suficiente para começar uma mini fogueira que depois tem que ser cuidada com muito amor e carinho para não se apagar sem qualquer aviso... Para quem não tem jeito, é preciso soprar até ficar com os olhos vermelhos, o ranho escorrer por todo o lado e a cabeça ficar leve... ou então pode-se sempre usar as barbatanas de mergulho! Como nenhum dos métodos parecia funcionar especialmente bem, acabámos por usar um misto dos dois. Pode ter demorado mais de uma hora, mas tivemos chá quentinho ao jantar e ao pequeno-almoço!

Beija-flor-oliváceo - Cyanomitra olivacea
Simon com as mãos ocupadas

Tchibi-fixa - Horizorhinus dohrnii


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

No rasto das tartarugas

Barco a sair da capitania. Lá ao fundo o barco que
faz o trasfer entre as duas ilhas.
    Partimos cedo da cidade de Santo António. No barco: barbatanas, fatos de mergulho, pesos, espingardas de pesca, e pouco espaço para meter os pés; afinal éramos seis lá dentro.
    O plano do dia seria fazer uma ronda às praias do sul da Ilha do Príncipe para poder estimar a actividade das tartarugas que vêm para depositar os seus ovos.

A Joana a descodificar quatro rastos a cruzarem-se na areia!

   Sempre que víamos um rasto era preciso começar um autêntico trabalho de detective a fim de se perceber o que aconteceu ali. Uma meia-lua na areia traduz-se numa visita de exploração, um carril a terminar na floresta um possível ninho. Através dos rastos pode-se também saber a espécie da tartaruga já que há umas que deixam um rasto simétrico e outras assimétrico.

Tronco na Praia Grande
    As praias do Príncipe são autênticos postais de agências de turismo, tão paradisíacas e imaculadas que o simples acto de tirar uma fotografia parece por em risco a sua beleza.
Ilhéu do Boné de Jóquei
    E depois do trabalho feito, os rapazes foram fazer pesca submarina para ganhar uns dinheiros e nós aproveitámos e fomos fazer snorkeling. A visibilidade é simplesmente de doidos e as rochas gigantescas e cobertas de peixe. Por todo o lado se viam mais e maiores espécies que encontrei já por São Tomé, e no meio daquilo tudo, vimos uma tartaruga! Claro que tinha que ir lá a baixo vê-la e fotografá-la!


    A tartaruga estava muito calminha e foi fantástico vê-la a "voar" para longe com tanta serenidade... se ao menos tivesse mais ar nos pulmões para ir atrás dela!

O barco depois de um dos mergulhos


    Noutra zona encontraram ainda outra tartaruga e desta vez o Lindo disse que ia lá a baixo buscá-la só para eu o filmar. Ele mergulhou sem esforço nenhum (e sem compensar os ouvidos!?), e eu enchi os pulmões até não dar mais e fui lá a baixo ter com ele.

Tartaruga Sada (Eretmochelys imbricata) anilhada.
    Como se não bastasse estar a vê-la de tão perto, ainda tivemos a sorte de já ter sido anilhada e a Joana conseguiu obter mais dados.

sábado, 15 de setembro de 2012

Santo António, a cidade dos figurantes

    A minha estadia no país nunca estaria completa sem fazer uma visita à ilha do Príncipe, por isso no outro dia apanhei uma mota e lá fui a deslizar em direcção ao aeroporto. Na mochila: barbatanas, máquina fotográfica, livro, roupa, amoque e pouco mais. Detesto viajar com tralha.
    À espera no aeroporto estavam já umas poucas pessoas, todas elas bem carregadas com oferendas para família e vizinhos - ainda que o peso máximo para a bagagem sejam 15kg - mas no fim todos superámos o teste da balança e sentámo-nos à espera que as malas fossem carregadas no avião.

O avião é dos mais pequenos onde já viajei e a bagagem é carregada manualmente ali mesmo à nossa frente.

Vista de dentro do avião - uma fila de cada lado e é preciso baixarmo-nos para não batermos com a cabeça no tecto.

    A viagem correu bem, sem muita turbulência, e trinta e cinco minutos depois já estávamos no Príncipe. O aeroporto é minúsculo e à minha espera estava já o Simon, um biólogo que passou os últimos meses a enlouquecer na ilha enquanto estuda o papagaio-cinzento. Depois de uma boleia rápida, estávamos finalmente na cidade de S. António, a maior no Príncipe.
    Desde o instante em que se põe o pé nesta cidade que se nota algo estranho. "Onde está toda a gente?" A cidade é muito pequena mesmo, e não tem quase ninguém. E as poucas pessoas que cruzam a cidade parecem... falsas? Como se fossem actores pagos para darem vida a uma cidade que de outra forma estaria verdadeiramente vazia... é muito estranho... e a alimentar toda esta estranheza está sem dúvida uma empresa Sul-Africana chamada HBD (acreditem ou não, quer dizer Here Be Dragons...!) que decidiu transformar toda a ilha do Príncipe num Eco Resort todo sustentável. 
Tudo arranjado, sem dúvida, mas onde estão as pessoas?
    Eco-Resort? Soa bem, sim, mas as ideias por trás desta gente parecem um pouco irreais. Só para terem uma ideia, painéis solares serão proibidos porque seriam vistos a partir do céu... e no final não se deverá ver nada a partir do céu. Eles querem reabilitar as estruturas antigas da ilha, empregar os locais, trazer brancos de fora, e com eles imenso equipamento e dinheiro. Esta malta tem dinheiro. Muito dinheiro. Enquanto lá estive, chegou um carregamento novo de fogões, frigoríficos, etc., para o pessoal todo que lá vive, mesmo que ninguém se tivesse dado ao trabalho de ver se os fogões e frigoríficos (com tomadas Sul-Africanas) cabiam nas respectivas cozinhas para onde seriam enviados! E ao que parece, na casa onde eu estava, não havia espaço para o fogão, um monstro preto e eléctrico (numa ilha onde a luz falha todos os dias). Como já disse, é muito estranho... e as pessoas que a HBD trouxe parecem também elas muito estranhas, como se emanassem uma aura de loucura que não consigo muito bem explicar. No final do primeiro dia já estava a dar em doido, por isso nem imagino como será viver e trabalhar sempre com as mesmas pessoas, todos os dias da semana, preso naquela cidade minúscula.

Toda a cidade parece-me um cenário de um filme, onde os figurantes se passeiam pelas ruas.
    Para completar esta minha fantasia de que toda a cidade é uma espécie de Truman Show, os locais ignoram os brancos (talvez por a HBD ter trazido tantos), todo o mercado da cidade é composto por meia dúzia de mesas todas a vender a mesma coisa, ninguém tem troco (para onde raio vão as moedas e as notas pequenas?!) e existe apenas um taxi em toda a cidade... vê-lo é como ver um extraterrestre...



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fotografias de grupo



    Os tempos passados nas comunidades foram das coisas que mais me marcaram em São Tomé por isso agora que a minha estadia se aproxima do final, tenho tentado gravar parte desse sentimento sob a forma de fotografias de grupo.
    Elas começam sempre da mesma forma, com uma decisão louca mas simples de visitar todas as casas e reunir toda a gente num único local. “Vamos tirar uma fotografia todos juntos, quer vir?”
    Às vezes respondem-me apenas com um sorriso envergonhado, outras vezes dizem simplesmente que não querem, não sabem, desculpam-se como podem… Há também os que dizem que são feios, estão sujos, que estão ocupados ou que estão já a sair, e claro está, há os que largam imediatamente o que estão a fazer e começam eles próprios a reunir pessoal.
    Tiro a máquina da mochila e ponho-a algures apontada para um fundo bonito que as crianças começam imediatamente a tapar. Elas são sempre as primeiras. As pessoas vão chegando, algumas ajeitam-se, usam lenços, alisam a roupa, outras vão tal e qual como as apanhei, com a roupa da luta, como às vezes dizem. 
    “Têm que se apertar mais se não não vai dar...” Grito eu, apontando para uns quantos do lado esquerdo.
    Num instante já estão todos reunidos, riem-se e comentam. O nervosismo é palpável no ar. Mexo na máquina, ligo o temporizador para os 10 segundos, foco uma última vez, só para ter a certeza, e explico o que se vai passar como quem está prestes a fazer um truque de magia ou lançar um foguete. “Vou carregar no botão e só passado um bocado é que a máquina tira, ok? Eu vou meter-me aí ao teu lado, ok?” Alguns acenam, confusos.
    Carrego no botão, vejo aquilo a piscar, corro para um sítio qualquer, geralmente agachado na fila da frente, e sorrio. A luzinha a piscar, a espera interminável, tento contar uns segundos mas perco-me, ainda há pessoas a falar, até que se vê um flash mudo e eu salto do meu lugar sem aviso enquanto grito: “Esperem! Ninguém se mexe! Deixem ver se ficou bem!” Pego na máquina à procura de caras desfocadas. Saiu bem. Pronto, dou o sinal de Ok para toda a gente que está ali parada a olhar-me com antecipação.
    Esta é de longe a melhor parte de tirar uma fotografia de grupo. Quando toda aquela montanha de gente corre na minha direcção e me atropela e envolve completamente. Todos os miúdos a rir e a puxar, “a Edna já viu duas vezes”; os mais velhos a comentarem a cara deste ou daquele, tudo quer ver de perto, pegar na câmara (que eu não largo nem por nada), ninguém consegue ser indiferente.
    É esta parte da experiência que me convence que tirar a fotografia é muito mais do que premir um botão para congelar um instante no tempo. A fotografia aproxima as pessoas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

No barco afundado

 A decisão foi tomada mal o Chico viu um dos muitos barcos encalhados - Tínhamos que tirar um dia para ir mergulhar num deles, desse lá por onde desse! Saídas de mar seguiram-se e os dias foram passando com a data do voo de regresso deles cada vez mais próxima. E nada de barco afundado. Ontem eles tinham que fazer observações a partir do Ilhéu das Cabras mas uma corrente improvável de acontecimentos levou-nos até Micolo onde “apanhámos” a canoa do senhor Hilário (9869339) por uns simpáticos 350.000 STD (+-14€ incluindo gasolina). Num instante estávamos a empurrar a canoa debaixo do olhar curioso de toda a gente naquela praia movimentada, no instante seguinte estávamos a molhar os pés na água do ilhéu. A contagem foi fraquita mas o mesmo não pode ser dito do que se passou debaixo das ondas. Os peixes eram mais, maiores, e mais variados, havia mais esponjas, mais corais, e mais saudáveis, um túnel escavado nas rochas aqui e ali, tudo muito vivo e colorido, mas foi quando fizemos uma curta paragem num dos muitos barcos afundados que as coisas ficaram realmente interessantes! Toda a estrutura está revestida de vida marinha e é realmente espectacular voar por entre todos aqueles cabos e cordas, mergulhar debaixo da proa encalhada na areia branca, passar junto ao casco com todos os peixes a nadar indiferentes à minha presença. Adorei, e nem sei porque é que não tinha feito isto antes! Pelo dinheiro que se pagou, vale bem a pena! Até imagino que o senhor não se importasse de fazer a viagem directa até ao barco afundado por 200.000 STD (já que 125.000/150.000 era o preço da gasolina até ao ilhéu – que obriga a uma viagem maior.)

 E deixo aqui uma das filmagens feitas por lá. Quando a internet o permitir hei-de meter algo com melhor qualidade!)




domingo, 26 de agosto de 2012

De prau até às baleias

 Ontem fomos novamente "às baleias", mas desta vez a saída teria lugar no Sul da ilha, mais precisamente em Porto Alegre. Como de manhã há uma tendência maior para o mar estar mais calmo (o que facilita o avistamento dos bichos), tivemos que acordar às 4:30 para descer a costa nas calmas e chegar às 8:00 ao ponto de encontro, a loja do senhor Vado onde se encontra também a recepção do Jalé Ecolodge. O número do senhor é o 9917802.
 Foi aí que esperámos pelo o pescador que nos levaria até às baleias. Quando ele chegou pagámos-lhe 300.000 STD (12€) para comprar gasolina e depois de gastar mais um pouco para comprar um almoço rápido ao Vado, lá fomos nós!
 O barco do senhor é um prau, uma canoa sólida com um "acrescento de lado". Tomei a posição da frente, barbatanas de mergulho aos pés (não fosse raspar uma baleia junto ao barco e podermos nadar com ela!) e a mochila por cima disso tudo. E claro que mal saímos da segurança de Porto Alegre, a primeira onda molhou logo a mochila que tinha uma série de coisas que não gostam lá muito de água por isso tive que a passar para as traseiras. À frente ficaram só coisas à prova de água: as barbatanas, a outra máquina fotográfica, e eu.
 Mais uma vez foi uma indicação de um pescador que nos colocou na direcção certa e não foi preciso esperar muito até vermos as primeiras baleias saltitonas no horizonte. Elas atiravam-se de cabeça, batiam com as barbatanas, saltavam totalmente fora de água, mas estavam tão longe... tínhamos que chegar mais perto... e assim o pequeno barco aproximava-se mais e mais. As ondas batiam na proa, as minha t-shirt já estava toda colada ao corpo, mas estávamos cada vez mais perto.

 Esta foi a minha melhor fotografia da saída. A malandra apareceu subitamente à frente do prau, só para desaparecer instantes depois. Quem tinha a máquina pronta apanhou. Quem não tinha, paciência! Ainda houve um salto bastante perto do barco mas julgo que ninguém o conseguiu apanhar... ainda assim foi absolutamente brutal! E estar a ver tudo aquilo a partir de um prau minúsculo só melhorou a experiência.

 No final cada um de nós deu 100.000 (+-4€) ao pescador que nos transportou por isso toda a aventura ficou especialmente barata em comparação com a alternativa oferecida pela Marapa.
 Preço por pessoa: Prau do pescador - 8€ Vs 30€ - Marapa.
 Claro que a aventura também foi mais molhada - se a minha máquina não fosse à prova de água não me parece que teria sobrevivido. E não havia coletes salva-vidas. E o barco abanava muito mais por isso quem sofre seriamente com os enjoos deverá considerar também este factor.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tatuagens Santomenses

 Estava eu por Dona Augusta a olhar para o amanhã, sem fazer nada, as cabras passavam, uma até mastigava um pedaço de plástico com bastante prazer, e eu admirava aquilo tudo. Chegavam pessoas, outras partiam. Uns cumprimentos, uns acenos... Até que chegaram estes putos e se puseram a espetar agulhas uns aos outros mesmo à minha frente!
Mas que raio?!
 Aquelas tatuagens são tão permanentes como as verdadeiras e fazem-se da mesma forma. Uma agulha com tinta fura a pele continuamente para que o pigmento possa ficar. Segundo eles, não dói, mas tenho que desconfiar ao ver o inchaço causado...
 Quando o rapaz da foto acabou de ser tatuado, até houve outro puto que se pôs a tatuar um coração no próprio braço, todo cheio de vontade e velocidade. Claro que ficou tudo torto  porque foi feito a partir da sua própria perspectiva... mas ao menos agora são todos muita cool!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Whale watching em São Tomé

 No outro dia chegaram cá a casa uns convidados muito especiais que vieram por duas semanas. A missão que os trouxe a São Tomé é complexa mas para resumir a coisa, vieram através da Escola de Mar para trabalhar com baleias e golfinhos. E para fazer isso é essencial fazerem saídas de mar.
 Nós estávamos disponíveis. Eles convidaram. Lá fomos nós!
 Acordámos especialmente cedo para estar na sede da Marapa às horas combinadas e antes de subirmos para o barco as expectativas já estavam altas. Afinal de contas, esta é a melhor altura do ano para se verem as baleias-de-bossa.
 O dia estava meio nublado o que dificultava o avistamento dos bichos, mas depois de passarmos o ilhéu das cabras e seguirmos a indicação de um pescador na sua canoa, não tardámos em ver um sopro a rasgar o horizonte.

 Passámos o tempo todo de volta de duas baleias que tudo levava a crer serem mãe e filha; apesar de às vezes parecer que havia uma terceira (possível macho).
 Muita fotografia se tirou aos sopros e às costas destas duas, até que subitamente, assim do nada, sem qualquer aviso, aconteceu isto!


 Vi a cena a desenrolar-se em câmara lenta. Num instante estava ali na proa, em pé, com a máquina preparada. No outro vejo pelo canto do olho o Chico a gritar e a apontar sei lá para onde! Uma chuva de disparos seguiram-se: Tchik, tchik, tchik, thick! A baleia a girar sobre si própria. As barbatanas, o branco, os desenhos, e um splash enorme! Que imensa brutalidade! Sorri até não dar mais, adorei mesmo. Não só por ter tido o privilégio de ver um bicho daqueles a saltar, como de o ter conseguido registar.  

domingo, 12 de agosto de 2012

Destruindo Património Santomense

 O post de hoje é um pouco diferente. Não fala de aventuras, nem dá conselhos de turismo. Tal como o post da Agripalma, procura apenas expor uma realidade injusta. E o pedido de socorro desta vez não parte de mim mas sim de um dos nossos assistentes de campo, o Gabriel, e com ele todos os moradores de Nova Moca. Deixem-me só tecer um enquadramento rápido para que tudo o resto possa fazer algum sentido.

 O Gabriel vive em Nova Moca, a comunidade que está no fim da estrada que liga a capital a Monte Café. Ao contrário de algumas comunidades que vão encolhendo à medida que mais e mais gente se muda para as cidades junto da costa, Nova Moca permanece forte e a crescer. Localizando-se entre a cidade e o Jardim Botânico do Bom Sucesso, e contando com a cascata de São Nicolau ali ao lado, tem todo o potencial para ser um importante foco turístico. Mas não é assim que as coisas se passam.

 Nova Moca foi concedida pelo Governo da República de São Tomé e Príncipe à Sociedade Agrícola Santomense gerida por Claudio Corallo. Sim, o mesmo Claudio Corallo dos chocolates super famosos.
 Na minha mão tenho a cópia da minuta do contrato que foi assinado e ao lê-la deparei-me com bastantes pontos revoltantes. Primeiro, Nova Moca é considerada uma "parcela de terra agrícola" que ele tem que "explorar" - como se não vivessem lá já para cima de cem pessoas. Depois, todo o terreno (uma área de 102,5 hectares), todas as instalações, plantações e equipamentos, tudo foi concedido exclusivamente a Claudio Corallo para exploração livre de quaisquer hipotecas, dívidas ou encargos de qualquer outra natureza. A única coisa que ele tem que fazer é, e passo a citar:

"4.1 - Realizar a exploração agrícola de Nova Moca, com vista a sua reabilitação plena, no que refere à produção agrícola e possivelmente o desenvolvimento da pecuária, da indústria e turismo;
4.2 - Explorar a média empresa [Nova Moca], utilizando-a onde seja possível e rentável sob padrões agrícolas tecnicamente recomendáveis, através da sua força de trabalho e eventualmente, de terceiros;
4.3 - Não permitir a terceiros a ocupação ou apossamento da média empresa;
4.4 - Conservar as terras, preservar o meio ambiente e não proceder ao abate de árvores sem autorização legal;
4.5 - Manter os acessos e as fronteiras da média empresa, limpos e conservados;
4.6 - Pagar regularmente os encargos legais decorrentes deste contrato e da exploração da média mpresa;"4.7 - Manter boa convivência comunitária;
"4.8 - Empregar maioritariamente trabalhadores Santomenses, criando postos de trabalho e favorecendo a política levada a cabo pelo Governo no quadro da reinserção social;"

Claudio Corallo terá também que pagar anualmente uma remuneração de 820 dólares...

 Portanto, lá para o final das obrigações (no ponto 4.7) encontramos a primeira menção aos habitantes de Nova Moca que viram subitamente as suas casas serem tomadas por uma empresa externa sem que tivessem voto na matéria. E o problema é que é justamente neste ponto que Corallo falha. Em vez de respeitar e desenvolver a comunidade através da implementação de obras sociais, parece ver a comunidade apenas como uma fonte de dinheiro rápida e livre de obrigações.
 Por causa do contracto que foi feito, as pessoas de Noca Moca não têm espaço para construir casas novas porque o terreno está todo ocupado. “Assim não há desenvolvimento na comunidade nem há boa relação entre o proprietário e a comunidade.” Diz o Gabriel, que acrescenta que "têm que trabalhar para ele porque se não trabalham, ele ameaça e diz que despeja as pessoas das próprias casas."

 E as coisas assim estão, com conflitos entre ele e as pessoas da comunidade. Já ouvi tantas queixas, (algumas raspando perto demais da escravatura...), que se começasse a enumerá-las nunca mais parava, mas agora que já expus o que se passa na comunidade, vou saltar finalmente para o que motivou este post.

 Em Nova Moca há uma casa absolutamente fantástica. A casa do feitor de Nova Moca:

 Esta casa é um monumento histórico importantíssimo na cultura Sãotomense e se não fosse o esforço do Gabriel com o apoio da associação de moradores de Nova Moca (os Esperançados) ela já tinha sido demolida há muito tempo por ordem de Claudio Corallo.


 Mas o problema é que a casa pertence ao governo e por isso não pode ser demolida sem uma boa razão, mas numa decisão que parece ser apenas mais uma forma de exercer controlo sob a população, Claudio Corallo serviu-se de um documento passado em 2009 pelo anterior Ministro da Agricultura para começar a demolir a casa.
Ambas as fotografias foram tiradas em Outubro de 2011, quando cá cheguei. A cozinha (edifício branco) já caiu e no seu lugar está apenas entulho.
 Há umas duas semanas começaram avisar que iam começar a demolição mas apesar das pessoas da comunidade se revoltarem, a demolição ia avançar.
 Foi aí que o Gabriel se dirigiu à câmara do distrito de Mé-zochi e emitiram imediatamente um mandato para parar a demolição e as coisas acalmaram um pouco... até que começou alguém a dizer depois (sem documento, sem nada) que afinal a câmara autorizava e por isso começaram a destruir a casa como se nada fosse, começando pelo telhado!
 Novamente o Gabriel e a associação de moradores desceu até à cidade (9/8/12) e conseguiu falar com o Ministro do Plano e Desenvolvimento para saber se ele tinha conhecimento da demolição da casa. O Gabriel falou também com a directora da Direcção de Turismo e ela disse que a demolição da casa nunca poderia ser feita assim. Disse que primeiro seria preciso apresentar um projecto porque a casa é uma casa histórica e constitui um património nacional importante que não pode ser destruído por ordem de uma só pessoa. Disse que tem que haver discussão e apresentação de um projecto.
 Ao que parece, o Ministro não sabia e quando tomou conhecimento emitiu o mandato para parar a destruição até ordem do contrário, ou seja, até Claudio Corallo apresentar uma proposta racional que agrade às pessoas que residem em Nova Moca.

 Com isto a demolição parou, por enquanto, mas o mal já foi feito (e ninguém parece assumir a responsabilidade). Parte do telhado já foi destruído e com a época das chuvas que se avizinha, é bem possível que a casa caia sozinha apenas por estar num avançado estado de degradação...

 Toda a informação deste post, incluindo a cópia do contrato, foi-me gentilmente cedida pelo Gabriel por isso só tenho que lhe agradecer por me dar a conhecer tudo isto. Deixo também um obrigado à Associação dos Moradores de Nova Moca: Os Esperançados, porque a esperança é a última a morrer.

sábado, 11 de agosto de 2012

Contemplando Água Sampaio

 Ontem tive a sorte de me apanhar num daqueles momentos fantásticos que parecem acontecer tão frequentemente neste país. O Sol estava a pôr-se, as nuvens laranja riscavam o céu e já se viam alguns morcegos a passar ao longe. Estava sentado ali no muro, não tinha mais graçolas para dizer, e toda a gente já tinha perdido o interesse em mim. Estava simplesmente ali, um gajo feliz contemplativo e invisível. E à minha volta acontecia tudo ao mesmo tempo. Miúdos saltavam e gritavam e jogavam ao mata com uma bola mole de trapos. Nos tanques as mulheres cantavam musicas ensaiada na igreja. Cumprimento quem vai chegando do trabalho. "Então, tudo?" E eles respondem com um sorriso. "Ya." Os miúdos provocam-se, gritam, correm, sacanas nem sabem a sorte que têm. Poderem brincar na rua, à porta de casa, e todo este verde, amarelo, e o laranja do Sol também já está por todo o lado, pinta o próprio ar que respiro, vai das nuvens até às casas, desce pelos troncos das árvores, aquece a cara dos que regressam a casa.

 Ao ver a fotografia abaixo só consigo pensar:
 "Como é possível habituar-me novamente a Portugal, cinzento, impessoal, frio, se ainda não saí e já sinto tanta falta disto..."

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Volta à Ilha - Dia 3

E estamos quase na recta final da volta à ilha!


Dia 3

 Estava eu dentro do amoque em S. Miguel e acordei lá para as 5h00, hora normal para se acordar no campo. Os rapazes que me acolheram já estavam lá fora a comentar qualquer coisa há bastante tempo e a certa altura houve um que me disse que tinham que ir andando para o campo. Como eu ainda estava deitado a ganhar coragem para iniciar o complicado processo que é arrumar tudo, calçar as meias, e depois os botins, disse apenas para irem andando que eu já saía. Mas eles queriam dizer qualquer coisa, e queriam que eu saísse do meu ninho alienígena, por isso lá rastejei para fora e veio um rapaz dar-me o botim sem o cano e uma meia comprida. Tinham tratado de tudo e eu nem tive que pedir nada!

 Mil obrigados depois, lá me arrastei até à canoa para me ir calçar mas os pés (e as feridas) estavam cheios de areia por isso tinha mesmo que ir lavar tudo no rio mais próximo antes de me calçar. A praia tinha calhaus rolados mauzinhos e dolorosos e dar um passo que fosse era insuportavelmente doloroso por isso um dos dois rapazes que ficou para trás teve a amabilidade de ir encher um cantil com água do rio e trazer-me de propósito só para eu poder lavar os pés ali no meio do chão e assim vestir as meias e os botins por cima daquilo tudo. Num pé um botim normal, no outro um couto queimado e derretido do tamanho de um  sapato de casamento. Por cima vesti as calças e estava pronto para partir à aventura, mas não sem antes agradecer-lhes da única forma que podia. O rapaz recebeu 50.000 e um sincero muito obrigado em troca da meia e o outro rapaz recebeu uma lata de atum, um sorriso e um até à próxima em troca do charoco do jantar da noite anterior.

 Mas a simpatia deles não ficou por aí e ainda me conduziram pelo caminho até chegar a um sítio onde me garantiram que não haveria mais problemas e era sempre em frente, sempre por caminho liso e fácil. 

Descobrir isto no meio da floresta ao fim de
andar várias horas a roçar mato é uma visão
 fantástica!
 Nunca mais voltei a ver o Takashi e claro que me perdi na primeira derrocada que vi à frente. O caminho antigo existe, mas não se pode encará-lo como uma linha contínua. Em vez disso é um conjunto de trechos separados por floresta densa. Quando se descobre o caminho (normalmente assinalado por um caos de pedras espalhadas numa ordem mais ou menos linear) convém segui-lo até ele acabar e depois há que inventar. E foi justamente isso que fiz quando o trilho desapareceu e me forçou a subir a encosta. Por essa altura a técnica com o machin já estava bem apurada. Já sabia o ângulo preciso para cortar uma folha de palmeira de uma só vez, já conhecia aqueles fetos espinhosos que se cortam como manteiga, e já identificava quais a lianas que não valia a pena tentar cortar porque parecem cabos de aço.









 Mais uma paragem para beber um leitinho à moda do rio e logo a seguir reencontrei o caminho, ou assim eu pensava. Naquela zona os trilhos dos porcos e das pessoas misturam-se bem demais, as pegadas duns sobrepõem-se às dos outros e era preciso confiar cada vez mais nas pistas que o caminho me oferecia. Um feto cortado com a ponta seca, um resto de uma pegada na lama, um arranhão numa raiz saliente, tudo servia para me dar confiança que estava no caminho certo. Continuei assim até que voltei a pisar o caminho antigo e este terminou bruscamente numa levou até a uma ponte caída.

 Estava ali à minha frente o rio que, a julgar pelo mapa, devia ser o Rio Mussacavú, um rio largo demais para atravessar sem molhar os pés. Andei ali às voltas indeciso. Não me apetecia mesmo nada repetir o ritual de tirar os botins e as meias e as calças só para entrar na água e sair do outro lado cheio de areia. Mas não havia escolha por isso enfiei-me por um trilho de porcos e lá teve que ser.
 Enquanto atravessava o rio fui completamente bombardeado por tafões (umas moscas de gado - formato XXL) que poisavam no cabelo e na cara e nas orelhas e no nariz e em todo o lado. Como segurava a mochila pesadíssima em cima da cabeça não havia muito a fazer além de me sacudir que nem um gnu e atravessar o rio o mais rápido possível.
 Chegado à outra margem, começou a vingança. Enquanto estava sentado a secar (porque é que não trouxe uma toalha?) os tafões não paravam de vir, só que aqueles bichos são tão gordos que têm uma inércia enorme a descolar por isso são fáceis de apanhar se formos rápidos o suficiente. Fui picado várias vezes mas também matei tantos que lhes perdi a conta mas posso assegurar que o número tinha dois dígitos. 

 Meias calçadas, calças vestidas, botins enfiados, e lá fui eu, com todo o peso da mochila enterrado fundo nos ombros. Por aquela altura a t-shirt molhada já raspava nas costas há tanto tempo que parecia estar a fazer ferida, mas paciência, o caminho continuou.
Todos os rios são locais de paragem obrigatória para descansar, beber água e encher o cantil.
 A julgar pelo mapa, a estrada antiga devia continuar para dentro mas a verdade é que seguia em frente. Mas o mapa devia ter razão, por isso acabei por me embrenhar fundo num pântano cheio de porcos assilvestrados que me encaravam com desconfiança. E eu encarava com desconfiança aquele caminho... Aquilo não parecia um trilho usado por pessoas por isso voltei tudo atrás e seguindo o GPS e os meus instintos abri o caminho até à praia com a ajuda do infalível machin. 
 Os calhaus rolados já tinham ficado para trás e só havia areia escura e as reconfortantes pegadas de cães, porcos e pessoas que segui até chegar a Santo António. Aí encontrei uma casa jeitosa, com uma data de bananeiras e demasiados cães soltos para o meu gosto. Quando o primeiro soltou o alarme, começaram a chegar mais e mais vindos da floresta, e tal como uma alcateia que rodeia a presa, cercaram-me, por isso tive que me baixar e pegar em pedras para lhes enviar uma mensagem que percebessem (não acertei em nenhum claro, é só para os desencorajar).
 Com toda aquela barulheira claro que apareceu alguém e mais uma vez, colocou-me no caminho certo. Só que desta vez eu fiz-lhe a seguinte pergunta: 

- Quanto tempo demora para chegar a Porto Alegre?

 E ele responde-me que com passo rápido chega-se lá em duas horas! Os pés estavam todos destruídos, as feridas nas pernas insuportáveis, as alças da mochila cravadas fundo nos músculos dos ombros; não aguentava mais uma noite a dormir no mato por isso meti na cabeça que ia chegar naquele mesmo dia a Porto Alegre e assim foi! As indicações que me deram em Santo António foram as primeiras a bater certo: Continuar sempre pelo caminho e quando se chegar lá acima, junto à fruteira, não se vira à esquerda, continua-se em frente, sempre pelo mesmo caminho. “Parece simples… mas todos as outras indicações também tinham sido…”
 A subida era fácil e o caminho bom, nada comparado com o caos de pedras e cocos que já tinha atravessado, por isso liguei o piloto automático e atravessei aquilo tudo a uma velocidade impressionante. Pelo caminho vi macacos incrivelmente perto e recomecei a ouvir as amigas Céssias que tinham estado ausentes durante todo o caminho!
 A empurrar-me para a frente estavam só pensamentos idiotas como comer pizza no Jasmim ou beber um Sumol qualquer e não sei se foi disso mas quando dei por mim estava em Malanza, a comunidade antes de Ponta Furada! Era o fim da aventura, liguei ao Fábio e ele veio todo o caminho desde a cidade para me socorrer. Mas a coisa não acabou aí porque tive a grande sorte de encontrar o grupo dos Leigos para o Desenvolvimento que está baseado ali mesmo em Malanza. Depois de me fazer de difícil lá aceitei o convite deles e subi para a casa onde nos ficámos a conhecer um pouco melhor enquanto as velas ardiam, a noite caía, e esperávamos que o Fábio chegasse.

E pronto, espero que tenham gostado!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Volta à Ilha - Dia 2

 E continuam as peripécias da volta à ilha começadas no post anterior!


Dia 2 

 Acordei tantas vezes durante a noite que lhes perdi a conta, ou era com frio, ou por causa de algum barulho estranho, ou por nenhum motivo que me recorde. De manhã, enrolado dentro do saco-cama, não foi fácil encontrar a vontade para sair e enfiar os pés feridos nas meias frias molhadas e enlameadas, mas tinha que ser. E o que tem que ser tem muita força, por isso esvaziei a almofada, sai do ninho, dobrei o saco-cama, arrumei o amoque e arrastei-me até à zona onde tinha feito a fogueira na noite anterior.
 Queria aquecer o leite e secar as meias e as calças mas quando peguei no isqueiro, vi uma racha minúscula de lado por onde ele estava a perder o gás todo! Sem isqueiro, tudo aquilo que tinha planeado, a panela, o arroz, o sal, tudo seria perfeitamente inútil, por isso era preciso arranjar uma solução e depressa. Tinha que haver alguma coisa, pensei em cola, talvez, qualquer coisa que pudesse usar para tapar o buraco, mas enquanto pensava, o gás escapava-se e no final não consegui nada. Mas havia ainda gás suficiente para aquela única vez por isso tentei queimar os plásticos mas o isqueiro pegou fogo e tive que o atirar ao chão para não me queimar. Foi a primeira e a última tentativa.
 Sem fogo não haveria maneira de secar a roupa por isso voltei a meter pensos novos nas bolhas, calcei as meias lentamente e com muito cuidadinho e enfiei tudo para dentro dos botins frios e molhados. Como não me apetecia mesmo nada vestir as calças que também estavam molhadas, vesti os calções de banho e segui viagem. 

 A praia estendia-se ao largo, com um belo ilhéu exótico mesmo em frente. Continuei até não dar mais até que cheguei a uma parede pouco acolhedora que me separava do resto da ilha, mas como lá ao fundo continuava a haver caminho, fui avançado pelos calhaus rolados. Péssima ideia. A parede só foi ficando mais íngreme e a praia acabou subitamente numa curva. Com as bolhas nos pés, todos os passos preciosos estavam contados por isso não me apetecia nada voltar para trás. Em vez disso pus-me a subir uma encosta mais agressiva. Por baixo estavam as ondas e da parede brotavam apenas raízes sólidas por isso pus-me a escalar aquilo com a ajuda do machin que usava para cravar na madeira e puxar-me aos poucos, metro a metro, em direcção ao topo. Felizmente que correu tudo bem e as pedras debaixo dos meus pés e as raízes a que me segurava permaneceram solidamente presas à parede.

 Lá em cima já não havia trilho à vista por isso foi preciso usar e abusar do machin mais uma vez para trilhar o meu próprio caminho pela floresta. Na paragem seguinte aproveitei para descansar enquanto via o estado do isqueiro e como ele já estava vazio, todo o gás espalhado pela floresta, misturei o leite em pó e o açúcar com a água fria do rio que corria aos meus pés. Três colheres de sopa bem cheias de pó branco com uma de açúcar e temos uma caneca de potência açucarada! Como o isqueiro já era, era escusado continuar a passear o arroz por isso deixei-o ficar noutra cabana abandonada que encontrei ali à frente. "Espero que venha a ser útil para alguém!"
 Todos os rios largos são bons para reencontrar o caminho e para isso é apenas preciso percorrer as margens em busca de pegadas na lama ou folhas pisadas ou raízes cortadas. Foi assim que dei com o caminho novamente, por isso segui-o até ser subitamente interrompido por uma voz a gritar “Amigo!”
 Parei logo, e olhei em volta. Só floresta, palmeiras e trepadeiras e pássaros… “Será que ouvi mal?” Mas a resposta chegou depressa. “Amigo, espera!” Era um vinhateiro a chamar-me do topo da sua palmeira!
 O senhor chamava-se José Arlindo e vive ali, naquele barraco onde deixei os sacos de arroz! Ao que parece tem para lá umas galinhas escondidas e tira vinho de palma e caça e é feliz assim, longe de tudo e todos. Como eu devia parecer meio perdido ele ofereceu-me vinho e levou-me até Burnay onde garantia haver um homem que era guia e me podia levar todo o caminho até Porto Alegre. Disse que se fosse com ele, demoraria um dia apenas mas eu disse-lhe que não era preciso porque não tinha pressa! O José era alto e tinha uma passada larga, por isso vi-me à rasca para o acompanhar com as feridas nos pés. À medida que passávamos pelos penhascos ele só se lembrava de histórias de pessoas que tinham morrido lá. Uma de um feitor branco que caiu num cavalo, outra de um branco que não aceitou ajuda e foi sozinho. Tudo acabava morto.

 Burnay também tinha um par de cabanas de madeira construídas ao pé da praia mas desta vez havia cães e porcos. O tal guia é que não estava lá por isso eu rejeitei educadamente a oferta e fiquei-me apenas com umas indicações: “Vai até ao fundo da praia, salta rio, e quando chegar à rocha, sobe só.” E assim fui. Por aquela altura as feridas nos pés só pioravam e a humidade e fricção acumuladas entre os botins e a pele já começava a fazer novas feridas de lado nas pernas. A subida que se seguiu foi brutal e não ajudou nada mas também não havia muito que pudesse fazer porque quando o botim começa a “roer” a pele já não há muito que se possa fazer, qualquer coisa que se meta ali ou sai, ou abre mais a ferida. Só podia suportar. E quando olhei para trás, vi que estava a ser seguido por um dos cães do caçador! O bicho já era velhinho e estava esquelético, como todos os cães de caça costumam estar. Por mais que eu subisse, por mais rios que atravessa-se, por entre todas as encostas fundas onde eu me perdia, o cãozito aparecia sempre algures. Ficou comigo tanto tempo que lhe dei um nome e comecei a falar com ele por tudo e por nada. Ficou o meu Takashi.
Takashi - O cão que adoptei (ou ele é que me adoptou) por um dia.
- Oh Takashi, estás a mostrar-me o caminho ou a fazer com que eu me perca ainda mais? – Disse eu, tantas vezes.

 O que sei é que a certa altura tropecei noutro trecho do caminho antigo e segui-o por entre os bambus e as palmeiras, ao lado de blocos de rocha enormes, até a um rio largo onde estava um senhor a pescar. Ele assegurou-me que tinha chegado a S. Miguel, mais uma zona com um par de cabanas habitadas por gente simpática e sorridente. O dia estava a acabar. As feridas nas pernas ardiam no seu auge, tão más como as dos pés, por isso a primeira coisa que fiz quando vi o mar avancei em silêncio, pronto para tirar os botins. Nada mais importava. Tinha que ir molhar os pés na água salgada para desinfectar e limpar toda aquela lama e suor. Claro que isso foi imensamente estúpido porque não só fez com que todas as feridas ardessem numa esplendorosa cacofonia de dor, como deixou que areia preta e fina entrasse para dentro das bolhas abertas em carne vive.

Panorâmica da praia de S. Miguel
 Ainda assim, forcei-me a ignorar a dor e deixei os botins e as meias a secar junto à fogueira. Depois fui montar o amoque numas goiabeiras e sentei-me com o pessoal em cima de uma das canoas. Como estavam já a terminar de fazer um petisco qualquer e eu só tinha vegetais e umas latas, cortei uma cenoura, uma cebola e um alho e inventou-se para lá uma salada que comemos todos com o charoco que eles tinham pescado acompanhado com fruta assada e banana cozida. Alto petisco, devo dizer! Nunca tinha provado aquele peixoto pequeno e feioso mas com azeite de palma fica realmente bom! Quando estava ali a comer à luz do frontal comecei subitamente a cheirar qualquer coisa estranha. Algo parecido com pneu queimado... Até que ouvi os gritos! Um dos meus botins estava a arder! Um rapaz ainda correu para o salvar mas a borracha derreteu num instante e nem a meia se salvou! Acho que o culpado deve ter sido um dos mil porcos que vive para lá...

“Boa…” pensei eu “…sem botim nem meia e com os pés todos estragados não sei como vai ser…” mas felizmente que um dos rapazes disse imediatamente que me oferecia uma meia enquanto o outro disse que não havia problema e ainda se podia aproveitar o botim cortando o cano queimado. Claro que aceitei a meia e assim ficou. Fui-me deitar feliz mas com as pernas todas a arder e as feridas abertas a colar ao saco-cama.