Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Explorando o hospital abandonado

 Deixámos o carro em Ponta Furada, uma das ultimas comunidades que se podem visitar de carro até a estrada acabar e caminhámos todo o caminho até Bindá. O sítio em si não tem muito para ver, apenas uma ou outra relíquia portuguesa pelo caminho, talvez, mas se atravessarem o rio e subirem até lá acima vão ser surpreendidos por um imenso hospital em ruínas que se manterá bem escondido até estarem apenas a alguns metros da entrada!

A ambulância de serviço ainda na garagem?
 Entrei lá por dentro todo armado em Indiana Jones pronto a explorar as ruínas de uma civilização perdida. Para onde quer que me virava só via coisas fantásticas por isso fartei-me de fotografar, tinha que documentar tudo. Lá em baixo o Gabriel e o Nelson gritavam pelo meu nome, mas como podia sair dali sem explorar tudo? Absolutamente impossível!

 Enquanto me perdia pelas várias divisões só conseguia imaginar quantas pessoas já andaram por aqui, as histórias de vida que se desenrolaram entre estas paredes que agora estão cobertas de raízes e trepadeiras. E principalmente, como é que aquela gente imaginava que seria o hospital no futuro.

Certamente que não o imaginavam assim
 No final perguntei-lhes como é que se chamava o hospital e ninguém me soube responder. Acho incrível como é que uma coisa que claramente era importantíssima pode simplesmente desaparecer dentro da floresta com o passar do tempo.



terça-feira, 12 de junho de 2012

Jogando Ouril em Abade



 Estava a conduzir pela floresta com alguma antecipação. A minha cabeça estava já em Abade enquanto me desviava das madeiras caídas no caminho e deixava o carro fazer o que queria dentro dos carris escavados na gravilha.
 Da primeira vez que vi Abade deparei-me com esta casa e isso consolidou bastante a minha opinião de que Abade devia ser das comunidades mais bonitas de São Tomé.






















 O chão está limpo, as pessoas sorriem, há árvores com flores e cães que aceitam festas. As crianças brincam com latas de sumol e jogam ao mata com meias enroladas. Perus pavoneiam-se lá ao fundo, as mulheres lavam a roupa e os homens partem para o mato com ganchos e machins pendurados no cinto. Foi neste ambiente que fiz os inquéritos e comecei a espalhar o xadrez pelas cabeças das pessoas que o absorveram com satisfação.

Quando pergunto se a pessoa comeu carne de pato ou peru a resposta costuma ser algo semelhante a: "Ché! Como? Não tem ele." Pois não, mas as pessoas de Abade têm!

 A certa altura vejo alguém puxar de uma tábua de madeira com catorze copinhos escavados e perguntam se sei jogar.
- Nem sequer sei o que isso é, quanto mais jogar.
 O jogo chama-se Ouril e só posso dizer que vi, joguei, e depois de várias tentativas só comecei a arranhar o básico porque este jogo requer uma atenção do caraças para o número de pedras que existem em cada copo. Não só foi uma surpresa "descobrir" este jogo como foi uma surpresa descobrir que o Nity é um mestre neste mesmo jogo!

 A certa altura aparece um senhor que supostamente era "o mais forte" e depois de se medirem, trocando provocações em forro, as duas forças colidiram.
 Ver dois mestres de ouril a jogar é verdadeiramente impressionante porque cada turno acontece em fracções de segundo, eles jogam um por cima do outro, mexem nas pedras, atiram-nas para os copos com uma habilidade incrível (p. ex. atirar três pedras simultaneamente, fazendo-as passar por entre os dedos). Rara é a vez que têm que contar as pedras num copo porque o normal é irem sempre somando e memorizando quantas estão em cada um dos doze copos!
 O problema de os ver jogar é que é muito bonito mas não há forma de acompanhar o jogo se não tivermos o mesmo grau de perícia.

 Não expliquei aqui as regras porque ia ser uma granda seca mas para os mais curiosos podem ir aqui


domingo, 10 de junho de 2012

Entre música alta e uma bananeira pesada


 Saídos de Amparo passámos por Colónia Açoriana, sempre acenando e sorrindo a quem passava pelas bermas, ouvindo uns quantos “brrranco e doce doce” pelo caminho, até que chegámos à estrada nacional que teríamos que descer para poder voltar a subir pouco depois e regressar às profundezas da floresta. A próxima comunidade esperava-nos.

 Mendes da Silva é das minhas comunidades favoritas por causa das pessoas que são excepcionalmente simpáticas e atenciosas. Isto acaba por reflectir-se na comunidade em si. Por enquanto é a única que visitei que tem as casas pintadas e os caminhos limpos.
 Seguindo as regras da boa educação, fomos cumprimentar toda a gente quando chegámos e enquanto apertava a mão ao Tá, ele disse-me que a “bananeira onde eu tinha dormido estava toda parida” ao que eu respondi que “então acho que as bananas devem ser minhas filhas.”

 Da última vez que lá fui fiz uma apresentação com o objectivo de sensibilizar o pessoal para as questões ambientais e no meio de tantas caras houve alguém que se destacou e ficou bem entranhado na minha memória. O senhor chama-se Nené e autoentitula-se o Dono da Floresta! Mas atenção que ele diz isto com um grande sorriso na cara, completamente na brincadeira, totalmente diferente dos poucos que já apanhei por aí e que pintam o mesmo título com uma tinta muito amarga e irresponsável. O Nené não é nada assim.
 Mal o vi comecei logo a picá-lo e ele reagiu:
 - Quanto estiveres na floresta grita pelo meu nome, que eu estarei lá!
 Achei a frase imensamente potente, verdade seja dita.

 Da última vez que estive lá houve também uma senhora que me pediu uma placa para meter no quiosque dela.
- Com uma frase bonita. - Pediu ela por entre um sorriso.
 Eu escapei-me muito agilmente ao pedido com as técnicas do costume mas depois ela fez um xeque-mate bem habilidoso.
- Então escreve só uma frase bonita p’ra mim.
 Uma frase bonita, pensei eu, isso não custa dinheiro e parece um desafio dirigido ao meu bixinho escritor. Lá acabei por aceitar!
 Mas que má ideia… o que raio se escreve para um senhora sobre o qual sabemos pouco ou nada!? Uma frase para decorar um quiosque que nem sequer existe e também não sabemos o que irá vender, se óleo de fritar ou bebidas. A verdade é que fiquei a moer o assunto até anteontem, o dia em que voltei encará-la. Felizmente que quando entrei na comunidade vi que o quiosque já estava montado e bem apetrechado com imensa coisa (leite Mimosa!?) e já estava decorado com uns pechisbeques de plástico. A senhora não me voltou a pedir mais nada e eu agradeci silenciosamente a sua decisão.
Aula de xadrez
  À noite, depois de entrevistar o último senhor à luz das velas (e do frontal – não se via nada) descemos até às casas da comunidade que estão mais a baixo, junto à escola. A música já se ouvia muito antes de vermos a casa e quando nos aproximámos começámos a ouvir o ruído do gerador, também ele bastante impressionante. Entrámos dentro da casa onde seria o jantar e fomos recebidos com uma barulheira absolutamente destruidora. A sala era de madeira, acolhedora e pequenina, mas estava apinhada de gente e tinha uma televisão a passar o jogo entre a Rússia e a Republica Checa, mas o que realmente chamava atenção eram as duas colunas gigantescas com luzes de discoteca! O volume era ridículo e quando me sentei um rapaz que estava mais perto das colunas ainda teve a péssima ideia de se pôr de pé para rodar o volume até não dar mais. Estavam agora no máximo. Só posso dizer que comer esparguete super picante enquanto somos esbofeteados por um barulho tão ensurdecedor que temos que gritar para a pessoa que está ao nosso lado é uma experiência verdadeiramente atordoadora. A única altura em que podíamos respirar era quando uma música acabava, as luzes da casa aumentavam subitamente (por causa da súbita disponibilidade de potência vinda do gerador) e a próxima música começava. Os meus ouvidos já estavam a apitar, o jogo de futebol não fazia sentido nenhum e estava cheio de sono por isso fiz um pouco de linguagem gestual a assinalar a minha decisão de ir dormir, e assim fui.
 O amoque tinha sido montado entre duas bananeiras o que nunca é uma decisão sensata porque aquelas coisas são tão resistentes como ervas gigantes e não têm um tronco duro mas como já tinha feito a mesma aposta infeliz da outra vez e não tinha acontecido nada de mal, voltei a montá-lo no mesmo sítio. Apaguei a luz do frontal, meti os tampões nos ouvidos, sentei-me primeiro para testar, nada de muito alarmante, elas dobraram-se um pouco, era o esperado, descalcei-me, arranjei o saco-cama, mas quando me deitei para trás só senti as costas a baterem no chão com um som abafado e uma bananeira enorme a cair-me em cima! Várias asneiras passaram-me pela cabeça enquanto tentava a todo o custo serpentear para fora do amoque e recuperar a minha dignidade.
 A porta da casa do Tá bateu uma segunda vez e quando entrei tive que elaborar mais linguagem gestual para expressar o acto ou efeito de levar com uma bananeira em cima da cabeça. Não foi fácil mas depois de a mensagem chegar, todos se riram e levantaram-se para ir ver o palco de destruição onde tudo se tinha passado. Como o dono da bananeira não parecia muito chateado e disse que iam já aproveitar as bananas eu fiquei mais descansado e com a ajuda do Nity lá voltámos a montar o amoque, desta vez, entre uma bananeira e uma árvore que estava no quintal do lado.

 No dia seguinte o despertador acordou às 5:00 e enquanto eu me contorcia para conseguir sair do ninho e dessa forma accionava o alarme dos cães todos das redondezas, os outros também se levantavam e preparavam para o trabalho.
 A contagem de aves correu bem mas notei um decréscimo estranho nos números. Simplesmente não se ouvia tantas espécies como seriam esperadas...
Ocá - É destas árvores que são feitas as canoas que se vêem na costa

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ponta Baleia

 Mais uns dias a entrevistar simpáticas senhoras sem vergonha nem roupa interior ou com vergonha mas sem sapatos, ou a dar de mamar ao bebé ou a cortar o búzio ou a escolher o peixe. (Também entrevisto homens.) Desta vez descemos até Ponta Baleia onde nos esperava a Ina e a sua família adorável que nos recebe sempre tão bem. Lembro-me de ter dito que Santa Jeny era das comunidades mais porcas mas retiro o que disse. Em Ponta Baleia, sempre que meto o pé na poça, penso em tacanhas e parasitas. E com tanta lama, isso acontece com alguma frequência.
 Desta vez não houve as tradicionais "danças" para dar a volta às senhoras que pedem arroz furiosamente, nem apareceu o batalhão de criancinhas que me ajuda a montar o amoque. Estava frio e chuva, e isso muda  toda a comunidade. As pessoas estão mais abrigadas, mais caladas, mais acolhedoras. Fiquei tanto tempo simplesmente ali, sentado, a olhar com um sorriso idiota para tudo o que me passava à frente.


 A antena desenrascada com pedaços de metal, a cozinha de madeira com as galinhas por baixo, o senhor a escolher os grão de cacau, as mulheres a cantarem enquanto lavam a roupa, a menina do outro lado a olhar para mim.


 E no fim do trabalho é altura de partir para a próxima. Da ultima vez houve alguém (ainda estou para perceber quem foi o percursor daquela ideia genial) que me perguntou se eu não me importava de ajudar a levar os garrafões de água até ao rio ao que eu muito educadamente respondi que não, até ao rio não haveria problema nenhum. Claro que passado vinte minutos ainda ali estava especado enquanto contemplava mais e mais senhoras a aproveitar a boleia até que toda a nossa bagagem teve que sair do próprio carro e ele foi transformado num camião cisterna cheio de garrafas de vidro e plástico e embalagens de detergente e bidões e baldes e basicamente tudo o que pudesse ser usado para transportar água.

 Numa passagem pelo rio aproveitei para explorar um pouco as profundezas desconhecidas. Nunca tinha ido tão fundo e fiquei bem impressionado com o que encontrei. Uma cascata toda fotogénica rodeada por margens imaculadas cobertas de musgos debaixo de lianas compunham a vista daquele lugar mágico. E ele continuava, eu ouvia o som da água rugir na distância. Da próxima vou ainda mais longe.

Adorei os tons azuis cristalinos desta água.

   E antes de voltarmos a casa passámos por Dona Augusta mas essa terá que ficar para o próximo post.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Caminhando pela Savana

 A Norte da capital, passando por Guadalupe e mantendo um olho na estrada e outro na paisagem, poder-se-á encontrar um novo habitat. A Savana não é muito vasta mas é o suficiente para começar a pensar em leões, girafas e elefantes... que não existem.

Os exploradores.



 O objectivo do dia de hoje era o de encontrar e marcar no GPS um percurso circular que começa-se e acaba-se na Roça da Praia das Conchas (que eu desconhecia mas é enorme e perfeitamente digna de visita!) e passá-se pela Lagoa Azul e pela zona de savana. Como o caminho na zona de savana não existia, tivemos que "inventar" um pouco.
 À parte de todas as flores e sementes pegajosas que insistiam em subir pelos calções acima, correu tudo bem.
 Quando o percurso for aprovado, deverá ser alvo de umas poucas melhorias para prevenir a erosão e para garantir a travessia segura de turistas acompanhados por guias.











Não tem elefantes mas tem abelhas enormes!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Santa Teresa


Neves lá ao fundo. É sempre a subir até Santa Teresa.
 Santa Teresa é uma comunidade que fica ao lado de Neves (a uns 15min a Norte da capital) só que para lá chegar há duas opções. Subir de carro por um caminho verdadeiramente escorregadio, daqueles com lama alisada pela chuva e pintada de verde pelas algas. Aquela lama que adora atirar carros pelo penhasco a baixo, basicamente. A vista por este caminho é a melhor, mas também existe uma segunda opção que é ir a pé. 

Canoa a ser talhada a partir de um tronco de Ocá.
 O caminho ao início é bem bonito e até pode ser que encontrem coisas invulgares só que a certa altura a inclinação dispara e o suor começa a escorrer. Como uma cascata escorre. Quem escolher este caminho pode muito bem preparar-se que no final estará tão seco como se tivesse caído numa piscina, mas tudo valerá a pena porque lá em cima espera-vos esta bela comunidade.  



Vista do pico vulcânico que sombreia a comunidade ao pôr do Sol.
 Eu sei que já me estou a tornar repetitivo mas Santa Teresa está cheia de gente simpática a começar logo pelo presidente da associação que é das pessoas mais preocupadas e atenciosas que se podem encontrar por aqui. Ele simplesmente não descansa enquanto nós não tivermos o nosso trabalho terminado.
 Como em todas as comunidades (e provavelmente tudo nesta vida) nós recebemos o que damos e quanto mais sorrio para estas pessoas e brinco com elas, mais elas se abrem comigo e me aceitam - e os miúdos mexem no meu cabelo. Acho que esta proximidade resultou numa das minhas maiores vitórias até hoje: Consegui que uma senhora jogasse xadrez. Na verdade a dificuldade não é ensinar, ela aprendeu tão ou mais depressa que qualquer homem. O verdadeiro desafio é fazê-la sentir-se à vontade o tempo suficiente para explicar as regras do jogo e depois convencê-la a aplicar o que aprendeu em frente a toda a gente. Ah granda Mana, muitos parabéns!

 Da segunda vez que vim a esta comunidade estávamos nós em Fevereiro e eu reuni o pessoal todo e fiz uma curta apresentação onde um dos temas era a origem vulcânica das ilhas de São Tomé e Príncipe. A certa altura na explicação eu estou a desenhar  uns bonecos num flip-chart com a intenção de explicar o que é um vulcão mas como vi que a mensagem não estava a chegar, parei, virei-me para trás, e apontei para isto: 
Vulcão bebé que está ao fundo de Santa Teresa.
  Amanhã espera-me mais uma madrugada passada sobretudo encostado numa das colunas do Aeroporto enquanto corro o seguinte programa básico no meu cérebro:

1- É branco? S/N
2- S: Já o vi antes? S/N
3- S: É o Fábio? S/N
4- S: Grunhe um chamamento primitivo que te destaque do meio da multidão.

 É por isto que hoje não fiquei a dormir na comunidade e desci o percurso todo acompanhado destes três bravos. Se a subida é íngreme, a descida não poderia ser muito diferente e enquanto eu ia rebolando encosta a baixo umas quantas vezes, estes três tipos fizeram o percurso todo num passo que muitos considerariam de corrida e ainda por cima com as sacas de carvão na cabeça!


sábado, 26 de maio de 2012

São Nicolau

 Provavelmente a cascata mais conhecida de São Tomé é a Cascata de São Nicolau. Para lá chegar é só preciso subir, passar a cidade da Trindade, continuar em frente, Batepá, mais um pouco, Monte Café, a estrada é má, eu sei, mas só mais um esforço, Nova Moka e pronto, é ali ao virar da esquina. Não é a maior cascata mas é a maior que está mais perto da cidade e por isso é a que quase toda a gente visita. 

 Há uns bons meses nasceu uma placa ao lado da cascata como um cogumelo que prometia remodelações moderníssimas. Começou-se a fortalecer a ponte que está em frente, meteu-se uma mini barragem lá em baixo para travar as águas, as ideias eram realmente muito optimistas mas qualquer pessoa que vá lá hoje em dia vai encontrar tudo abandonado e pronto a cair novamente. Disseram-me que acabou o dinheiro do projecto e pronto, assim ficou. Só sei que sempre que lá passo vejo peças a desaparecerem e imagino que se aquilo não continuar brevemente, a estação das chuvas ainda vai mandar a ponte ao chão... o que seria uma pena porque assim não haveria forma rápida de se chegar a uma comunidade maravilhosa que está pouco acima e que ninguém conhece!

 Qualquer caminhante irá ser bem recebido pela casa do patrão (acima) antes de chegar a São Nicolau. Como quase todas as casas coloniais de São Tomé, esta também foi ocupada. Digo ocupada porque as pessoas usam a casa sem viverem lá, se é que me faço entender.

 São Nicolau está cheio de gente imensamente simpática por isso entrem e cumprimentem-nas que elas não mordem (e os cães também não, aquilo é só conversa). Num dos corredores há este belo jardinzinho que num raro dia de sol, brilha mesmo com fantásticas cores.



 Num belo dia há bastantes meses atrás bebi água saída desta mesma torneira. "É boa", diziam eles e perante a minha desconfiança beberam primeiro que eu. Quando enchi o cantil vi que tinha lá umas coisinhas flutuantes mas pronto, não podia ser assim tão mau porque afinal estávamos no topo das montanhas e toda a gente da comunidade bebia daquela água e ali estavam eles, rijos e cheios de força. Bebi e fiquei com diarreia durante uma semana.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Até à próxima, Christoph!

 O Christoph foi-se embora hoje. Ao vê-lo arrumar as coisas parecia que também eu ia viajar um pouco e sair daqui. Porque no fundo o que é viajar se não uma mudança na nossa vida. Ele foi-se embora e certamente que houve uma mudança. Se alguma coisa pode ser dita, a casa parece bem mais vazia e triste do que eu me lembrava. Esteve cá apenas um mês mas parece que foi tão mais... o que me vale é que daqui a uma semana vão chegar dois novos house-mates.
 Para não encher um post apenas com isto, fui escavar um pouco e desenterrei estas fotografias! Basicamente são seres que encontrei numa única ida a S. João dos Angolares.


Fêmea de Tomé-gagá (Tersiphone atrochalybeia) sentadinha no ninho. Como tinha ovo e estava a chover, ficou lá a aturar-me muito mais do que seria normal. 

Um Búzio de Obô (Archachatina bicarinatacomo o da fotografia pode ficar tão grande como um punho fechado. É endémico e tudo leva a crer que está a desaparecer com uma granda pinta.

Um cogumelo que tinha tanto de espectacular como de mal-cheiroso.

Estávamos já a regressar quando vi estes pequenotes ali mesmo,  a descansar tranquilamente em cima de uma pedra. Para quem não sabe são Saltitões do lodo, uns peixinhos fascinantes que passam grande parte do tempo fora de água. Só tive mesmo pena que os malandros me vissem tão bem com aqueles olhos gigantes e por isso não me deixaram aproximar mais!



quinta-feira, 17 de maio de 2012

Santa Jenny

  Das dez comunidades que seguimos, Santa Jeny parece-me ser a mais porca. Facto facilmente compreensível se tomarmos em consideração a quantidade animalesca de porcos soltos que por lá andam. E cães também. E já agora gatos. Ah, e já disse que também tem patos e galinhas? Estava eu sentado num tronco tosco a ver uma senhora a varrer toda a porcaria e a pensar que o Zoo provavelmente caga aquilo a uma velocidade maior que a que ela consegue limpar. E o resultado estava ali à frente dos meus olhos, e do meu nariz.
Gabriel à espera que cheguem mais pessoas para fazer o inquérito.

 Apesar dessa particularidade, a comunidade está cheia de pequenas personalidades que se não existissem teriam certamente que ser inventadas. Pelo bem ou pelo mal. Existe uma senhora velhota que faz voz grossa para parecer má e está sempre a ameaçar as crianças de morte. “Eu mato você.” Relembra a senhora, sempre que tem oportunidade. Depois existe um homem especialmente agressivo e violento que parece estar também sempre chateado com tudo e todos mas que quando bebe é só amizade e generosidade. Claro que da última vez que lá estive este mesmo senhor andou a brincar com o machin para cima do vizinho por isso não sei bem o que pensar dele… Depois há o Sérgio, sempre com um sorriso contagiante, e o Admin a provocar-me para confrontos de xadrez, e o Jaime a fazer-se passar por mau e a dizer que lhe prometi cinco contos para bebermos grogue os dois (o que lá acabou por acontecer – a maldita coisa sabe mesmo mal). Existe também um rapazinho que está sempre no mesmo lugar, sempre deitado no chão, sempre torto e infeliz. Ele nasceu com uma deficiência que não sei nomear mas basicamente é muito magrinho e as pernas não dobram para onde deviam. Queria fotografá-lo, ou apenas o olhar dele, como se isso o pudesse fazer voar um pouco para fora daquele chão… mas nunca tive coragem para isso. Trago-o na minha memória e na vossa imaginação.

 Ao jantar houve ambá, ou seja, cada um trouxe o que tinha e comemos todos juntos, uns por cima dos outros. Maldito peixe fumado absurdamente picante… mas ao menos a fruta pão até era docinha… quando regressei ao amoque encontrei o malandro a meter água que nem um barco mal feito. E o chato é que só reparei nisto quando já estava descalço e bem deitado. “Saio… não saio… não saio…saio...olha que bonito, recomeçou a chover… saio… sim, saio!” Uns quantos nós molhados e feitos às cegas depois já estava eu de volta ao meu ninho baloiçante.

De manhã houve mais contagem de passarada por entre bocejos e também alguma patinagem artística na lama. Acho que ainda está para nascer quem me vença nessa modalidade.


 E depois da passarada vem o mata-bicho onde é preciso aquecer água para juntar leite em pó. Há qualquer coisa que se perdeu quando metemos gás em nossas casas mas que de certa forma pode ser recuperado nas lareiras que alguns têm na sala. Refiro-me ao prazer de acender fogo, de merecer o calor e a luz que ele nos dá. Soprar e levantar as cinzas todas pelo ar, pequenos flocos brancos contra o tecto preto e chamuscado, os olhos a arder do fumo e rir por ter acontecido o mesmo à outra pessoa, usar o que estiver à mão para tentar atear nem que seja uma chama, as brasas a brilhar e a roer a madeira, soprar mais um pouco, um crepitar confortante… e … sim… mais um pouco, e… está quase...pronto. Fez-se fogo. Na altura disse ao Sérgio que não há este sentimento de vitória quando se acende o fogão lá de casa mas provavelmente ele trocaria esse sentimento por um pouco de gás natural em qualquer dia da semana.


Criançada a ir para a escola

terça-feira, 15 de maio de 2012

Encontra o teu caminho

 Regressámos inteiros de mais uma comunidade, desta vez de Água Sampaio. A comunidade fica longe mas vale a pena pela beleza do sítio e das pessoas que lá vivem e mais uma vez o xadrez voou para fora do saco directamente para dentro das cabeças de quem por mim passava. Ninguém escapava, até se chegou a jogar no assento de uma mota mais incauta.

Tirada através do vidro do carro. Choveu o dia inteiro.

 Da última vez que lá estivemos eu lembro-me perfeitamente de não ter dormido nada por causa de uma missa dos Adventistas do Sétimo Dia e de uma hiace que se fartou de buzinar para chamar e levar as pessoas para o mercado na cidade. Ambas as coisas aconteceram ainda de noite e bem perto das minhas orelhas. Mas desta vez dormi que nem uma rocha, um tronco, algo verdadeiramente inabalável. Não sei se foi do vinho de pacote que estivemos a beber à luz da vela ou se foi por estar todo enrolado no saco-cama estilo casulo mas não houve nada que me acordasse antes do despertador.
 A contagem de aves seguiu-se e aconteceu um par de coisas que me pareceu comporem uma boa metáfora para a vida:

   No início ainda via o Nity a apontar-me os perigos que ele encontrava pelo caminho mas à medida que eu ia vendo coisas que me prendiam o olhar fui ficando para trás para as fotografar.

Matemática elementar:
Bananeira + Nascer do Sol = Fotografia fácil. 

Quem é a jita mais linda, quem é? 
A pequena portou-se tão bem que até consegui
 mudar a objectiva e as definições todas
 com a outra mão.




























 Ele foi-se afastando e quando o primeiro cruzamento veio tive que recorrer às minhas skills para lhe encontrar o rasto.
 Caminho 1: Inclinado, super escorregadio mas parecia ter sido remexido.
 Comecei a subir mas como achei difícil de mais e ainda me restava tentar o outro caminho, desisti e voltei para trás.
 Caminho 2: Plano e relativamente fácil mas a certa altura deparei-me com uma teia de aranha enorme mesmo a meio. Se ele tivesse passado por lá, certamente que não a teria visto e tinha-a destruído.
 Regressado ao cruzamento vi que havia ainda uma terceira hipótese… ok, está na hora de soltar o meu uivo de Tarzan.
 – OI!!
.
.
.
 – … oi!! – Respondeu uma voz distante, pouco depois. Vinha de cima, do caminho mais difícil.
 – OI!? – (É mesmo por aqui?)
 – …Oi! – (Sim, podes vir.)
 E pronto, lá subi e emporcalhei-me todo mas encontrei o Nity no final.


 Pensamento: Devemos seguir sempre o nosso próprio caminho com os olhos bem abertos para as pistas que vão aparecendo. Se nos enganámos, não tem mal voltar para trás e tomar um novo caminho. Deste ponto de vista, o que é desistir? E no fim se estivermos perdidos devemos ter a coragem para mandar um grito de ajuda. Alguém por perto irá certamente ouvir, mas a resposta que virá não nos mostra o caminho, apenas pode apontar na direcção certa.





terça-feira, 8 de maio de 2012

Boa Esperança

 Passei o dia a fazer inquéritos e a ensinar o pessoal a jogar xadrez e como sabia que no dia seguinte era para começar a "batucada" (é o que se diz) bem cedo, não fiquei para a night e fui-me deitar no amoque (uma espécie de cama de rede mais tropical). O dito estava montado ali numas armações onde eles secam a roupa, por isso até estava perto das casas. Como já sei o que a casa gasta levei tampões para os ouvidos e lá adormeci... para acordar às 2h30!? Que frio pah! Não é normal! Pelo menos já não sabia o que era isso e fiquei muito indignado! Tinha os pés gelados, a cara também, mas algures entre os dois havia calor. As pernas ao léu também estavam geladas, percebi que o rádio do vizinho ainda estava ligado e o pior é que eu conhecia as músicas (não sei se isto é uma deficiência minha mas quando oiço uma música conhecida, ela começa a "tocar" sozinha na minha cabeça e eu preencho inconscientemente os bocados que não ouvi ou a letra que não se percebia... nada bom quando se está a tentar dormir!). Depois a maldita da torneira estava sempre a deitar água, os galos começaram a cantar, o saco de cama era curto de mais para eu me esconder todo lá dentro, enrolado não dava jeito e o amoque não parava de abanar, a almofada estava torta, as calças faziam um alto por baixo das costas, quanto mais me mexo e ajeito mais o sono foge... ah, olha, que engraçado, o despertador....  Já são 5h00!?

 Foi uma noite péssima mas não importou porque acordei para este espectáculo:

Boa Esperança, uma das comunidades contempladas no estudo.
 Diz-se que a luz do nascer do sol é a melhor para fotografar e eu tenho que concordar. Pinta tudo com uns tons quentes mas ao contrário do pôr-do-sol, tem uma luz mais limpa... se é que isto faz algum sentido.
 Acordamos tão cedo porque é preciso fazer contagens de passarada e isto faz com que vejamos sempre vezes as pessoas a irem para o trabalho.


Foto pelas costas - "mesmo à sacana.... mas por outro lado se lhe
 pedisse permissão também não tinha resultado. Sim, boa desculpa."

 Este rapaz vai tirar vinho de palma. A actividade consiste em subir a uma palmeira (frequentemente) altíssima, abrir um buraco junto à base das folhas, espetar lá um garrafão, e esperar. Repete-se o processo quantas vezes forem necessárias.









Casa do Alexandre, o Presidente da Associação e um
senhor extremamente simpático e sorridente que nos ajuda sempre
que lá vamos.
  Adoro a frente desta casa - talvez porque normalmente elas não estão pintadas. Há qualquer coisa nas casas das comunidades que me atrai em termos de beleza. Acho que deve ser por parecer que foram simplesmente "invadidas" pelas pessoas e depois elas foram acrescentando bocados de madeira ao exterior, sem nunca mexer na "tecnologia" antiga que existia quando a encontraram.
Fiquei verdadeiramente maravilhado com este achado. Não via uma coisa destas há tanto tempo e para quem não sabe, é um ferro de engomar alimentado a brasas em vez de electricidade. Disse ao Gabriel que aquilo que ali estava era uma relíquia do tempo dos Afonsinhos (mas acho que exagerei) ao que ele  respondeu que é assim que as pessoas que não têm electricidade fazem.