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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A última página

   Sempre que perguntavam quando me ia embora, eu respondia da mesma forma: "Não sei! Ainda falta muito tempo." E foi com essa certeza que ocupei os meus dias neste ano que foi passando sem me aperceber... até que chegou o dia de hoje e vejo-me forçado a fazer a mala porque amanhã regresso a Portugal. É verdade, a minha bolsa acaba este mês e com ela a minha estadia em São Tomé e Príncipe. Não vale a pena estar a prolongar-me acerca do que senti e vivi durante este ano - é justamente para isso que serviu este blog - por isso só posso deixar um muito obrigado a todos os que ajudaram a tornar a minha história ainda mais interessante.
    Se algum dia precisarem de um guia para vos levar a fazer qualquer um dos passeios que viram neste blog, não hesitem em contactar os meus antigos assistentes de campo:

Nity - 9917665
Gabriel - 9938271
Nelson - 9922748


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Trabalho de campo no Príncipe

    Quando o trabalho de campo exige que se vá para zonas mais inacessíveis e não existe transporte próprio, a ultima alternativa são os motoqueiros. Foi assim que eu e o Simon fomos para São Joaquim para fazer contagem de papagaios e apanhar passarada com as redes.

    São quase sempre as crianças as primeiras a dar-nos as boas vindas. Apesar de muitas vezes serem chatas, faz tudo parte da experiência e não seria a mesma coisa sem termos os petizes todos à nossa volta a observar atentamente cada coisa que fazemos e a comentar sobre isso mesmo como se não os conseguíssemos perceber.
    As paisagens na ilha do Príncipe são uma perfeita loucura e este postal espera qualquer um que vá atrás de uma das casas de São Joaquim.
Campo de batalha
    Foi só por si uma aventura conseguir ferver água para o chá. O processo é demorado e trabalhoso e começa com a selecção de paus e troncos de tamanhos diferentes e o mais secos possível - coisa extremamente difícil para estes lados por isso o normal é ter-se que aproveitar quase só o centro da madeira. Depois de rachar a lenha toda até ter um autêntico degradé de tamanhos, há que montar uma caminha para isolar tudo do chão frio e molhado, e depois monta-se uma espécie de tenda de índio com os pauzinhos e queima-se um pedaço de saco de plástico e deixam-se as gotas incandescentes caírem por cima da madeira. Para quem tem jeito (e sorte) isto é o suficiente para começar uma mini fogueira que depois tem que ser cuidada com muito amor e carinho para não se apagar sem qualquer aviso... Para quem não tem jeito, é preciso soprar até ficar com os olhos vermelhos, o ranho escorrer por todo o lado e a cabeça ficar leve... ou então pode-se sempre usar as barbatanas de mergulho! Como nenhum dos métodos parecia funcionar especialmente bem, acabámos por usar um misto dos dois. Pode ter demorado mais de uma hora, mas tivemos chá quentinho ao jantar e ao pequeno-almoço!

Beija-flor-oliváceo - Cyanomitra olivacea
Simon com as mãos ocupadas

Tchibi-fixa - Horizorhinus dohrnii


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

No rasto das tartarugas

Barco a sair da capitania. Lá ao fundo o barco que
faz o trasfer entre as duas ilhas.
    Partimos cedo da cidade de Santo António. No barco: barbatanas, fatos de mergulho, pesos, espingardas de pesca, e pouco espaço para meter os pés; afinal éramos seis lá dentro.
    O plano do dia seria fazer uma ronda às praias do sul da Ilha do Príncipe para poder estimar a actividade das tartarugas que vêm para depositar os seus ovos.

A Joana a descodificar quatro rastos a cruzarem-se na areia!

   Sempre que víamos um rasto era preciso começar um autêntico trabalho de detective a fim de se perceber o que aconteceu ali. Uma meia-lua na areia traduz-se numa visita de exploração, um carril a terminar na floresta um possível ninho. Através dos rastos pode-se também saber a espécie da tartaruga já que há umas que deixam um rasto simétrico e outras assimétrico.

Tronco na Praia Grande
    As praias do Príncipe são autênticos postais de agências de turismo, tão paradisíacas e imaculadas que o simples acto de tirar uma fotografia parece por em risco a sua beleza.
Ilhéu do Boné de Jóquei
    E depois do trabalho feito, os rapazes foram fazer pesca submarina para ganhar uns dinheiros e nós aproveitámos e fomos fazer snorkeling. A visibilidade é simplesmente de doidos e as rochas gigantescas e cobertas de peixe. Por todo o lado se viam mais e maiores espécies que encontrei já por São Tomé, e no meio daquilo tudo, vimos uma tartaruga! Claro que tinha que ir lá a baixo vê-la e fotografá-la!


    A tartaruga estava muito calminha e foi fantástico vê-la a "voar" para longe com tanta serenidade... se ao menos tivesse mais ar nos pulmões para ir atrás dela!

O barco depois de um dos mergulhos


    Noutra zona encontraram ainda outra tartaruga e desta vez o Lindo disse que ia lá a baixo buscá-la só para eu o filmar. Ele mergulhou sem esforço nenhum (e sem compensar os ouvidos!?), e eu enchi os pulmões até não dar mais e fui lá a baixo ter com ele.

Tartaruga Sada (Eretmochelys imbricata) anilhada.
    Como se não bastasse estar a vê-la de tão perto, ainda tivemos a sorte de já ter sido anilhada e a Joana conseguiu obter mais dados.

sábado, 15 de setembro de 2012

Santo António, a cidade dos figurantes

    A minha estadia no país nunca estaria completa sem fazer uma visita à ilha do Príncipe, por isso no outro dia apanhei uma mota e lá fui a deslizar em direcção ao aeroporto. Na mochila: barbatanas, máquina fotográfica, livro, roupa, amoque e pouco mais. Detesto viajar com tralha.
    À espera no aeroporto estavam já umas poucas pessoas, todas elas bem carregadas com oferendas para família e vizinhos - ainda que o peso máximo para a bagagem sejam 15kg - mas no fim todos superámos o teste da balança e sentámo-nos à espera que as malas fossem carregadas no avião.

O avião é dos mais pequenos onde já viajei e a bagagem é carregada manualmente ali mesmo à nossa frente.

Vista de dentro do avião - uma fila de cada lado e é preciso baixarmo-nos para não batermos com a cabeça no tecto.

    A viagem correu bem, sem muita turbulência, e trinta e cinco minutos depois já estávamos no Príncipe. O aeroporto é minúsculo e à minha espera estava já o Simon, um biólogo que passou os últimos meses a enlouquecer na ilha enquanto estuda o papagaio-cinzento. Depois de uma boleia rápida, estávamos finalmente na cidade de S. António, a maior no Príncipe.
    Desde o instante em que se põe o pé nesta cidade que se nota algo estranho. "Onde está toda a gente?" A cidade é muito pequena mesmo, e não tem quase ninguém. E as poucas pessoas que cruzam a cidade parecem... falsas? Como se fossem actores pagos para darem vida a uma cidade que de outra forma estaria verdadeiramente vazia... é muito estranho... e a alimentar toda esta estranheza está sem dúvida uma empresa Sul-Africana chamada HBD (acreditem ou não, quer dizer Here Be Dragons...!) que decidiu transformar toda a ilha do Príncipe num Eco Resort todo sustentável. 
Tudo arranjado, sem dúvida, mas onde estão as pessoas?
    Eco-Resort? Soa bem, sim, mas as ideias por trás desta gente parecem um pouco irreais. Só para terem uma ideia, painéis solares serão proibidos porque seriam vistos a partir do céu... e no final não se deverá ver nada a partir do céu. Eles querem reabilitar as estruturas antigas da ilha, empregar os locais, trazer brancos de fora, e com eles imenso equipamento e dinheiro. Esta malta tem dinheiro. Muito dinheiro. Enquanto lá estive, chegou um carregamento novo de fogões, frigoríficos, etc., para o pessoal todo que lá vive, mesmo que ninguém se tivesse dado ao trabalho de ver se os fogões e frigoríficos (com tomadas Sul-Africanas) cabiam nas respectivas cozinhas para onde seriam enviados! E ao que parece, na casa onde eu estava, não havia espaço para o fogão, um monstro preto e eléctrico (numa ilha onde a luz falha todos os dias). Como já disse, é muito estranho... e as pessoas que a HBD trouxe parecem também elas muito estranhas, como se emanassem uma aura de loucura que não consigo muito bem explicar. No final do primeiro dia já estava a dar em doido, por isso nem imagino como será viver e trabalhar sempre com as mesmas pessoas, todos os dias da semana, preso naquela cidade minúscula.

Toda a cidade parece-me um cenário de um filme, onde os figurantes se passeiam pelas ruas.
    Para completar esta minha fantasia de que toda a cidade é uma espécie de Truman Show, os locais ignoram os brancos (talvez por a HBD ter trazido tantos), todo o mercado da cidade é composto por meia dúzia de mesas todas a vender a mesma coisa, ninguém tem troco (para onde raio vão as moedas e as notas pequenas?!) e existe apenas um taxi em toda a cidade... vê-lo é como ver um extraterrestre...



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Machismo racista

    Estou numa comunidade qualquer. À minha volta estão uma data de miúdos excitados a aprender xadrez (entre eles contam-se algumas meninas). Chega alguém mais velho (homem ou mulher, não interessa) e ralha: "Que estás a fazer? Shou! Vai, sai, sai, vai fazer qualquer coisa, vai lavar prato!" As miúdas afastam-se e voltam para casa, os rapazes ignoram ou gozam, e eu tento aguentar-me para não dizer que essa não é a maneira correcta de eles educarem os filhos...!
    Existe um machismo revoltante em São Tomé e isso vê-se claramente em todo o lado. As mulheres trabalham dia e noite, na comunidade lavam, limpam, cozinham, cuidam dos filhos; no campo, apanham búzio, lavam a roupa no rio quando não há tanque, tratam do lote, e basta estar uma a descansar um minuto que qualquer gajo lhe pode pedir para se levantar e ir-lhe buscar qualquer coisa. Ou para ir ver os filhos, ou para lhes ir fazer sei lá o quê! Elas não param e o que me mete mais impressão é que elas próprias são machistas com os próprios filhos e até umas com as outras... até pessoas extremamente simpáticas e que eu gosto imenso são machistas com as próprias mulheres, que são mais criadas que companheiras.
    Além de machista, o povo Santomense é extremamente racista, mas de uma forma totalmente oposta ao que se esperaria ao ler a afirmação. Certamente devido à sua história, as pessoas tendem a ver brancos como alguém com mais dinheiro que eles, alguém mais inteligente, alguém melhor, digamos. Já perdi a conta das vezes que estava nas comunidades e vem alguém (geralmente mais velho) a dizer que "no tempo de branco é que era..." e que "negro (dito a beliscar a própria pele) só quer roubar, não sabe aproveitar, só vem estragar," etc... É muito triste ouvir isto vindo dos próprios Santomenses e sempre que lhes tento mostrar o contrário, eles rapidamente me atiram com os feitos da classe política à cara. "Só querem é meter ao bolso..." É uma pena...
    O que motivou realmente este post foi que hoje cruzei-me com uma personagem que reunia estas duas qualidades (para não dizer defeitos) numa única cabecinha com alguns cabelos brancos. Estávamos num dos restaurantes do parque e aparece do nada este homem a dizer que "nós gostamos muito de branco" e que "branco é que nos deu a língua portuguesa" e num revirar que me ultrapassou, já estava a pedir dinheiro para uma cerveja. Até aqui tudo bem, não temos, não dá, mas o homem não se ia embora e quanto mais tempo lá ficava, mais se revelava, e lá de dentro só saia porcaria... "branco é a cor de Jesus, não é preto" e "nós preto não prestamos", etc... mas a coisa atingiu níveis mesmo maus quando veio a empregada, uma senhora nova extremamente simpática que lhe disse muito educadamente para se ir embora porque estava a incomodar o cliente. Bem, o homem começa a cuspir para ali umas palavras venenosas do pior "estão aqui machos a falar e tu não tens que te meter, feia, preta"... Ele disse muito mais porcaria mas acho que a mensagem passou. Felizmente que nunca vi nem ouvi nada assim desde os onze meses que cá estou mas se este post servir para chocar alguém, tanto melhor. A ideia é mesmo essa.
    São Tomé e Príncipe, ficarei à espera que evoluas mais um pouco, leve-leve, porque em pleno século XXI, isto é tão ridículo como inaceitável.



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fotografias de grupo



    Os tempos passados nas comunidades foram das coisas que mais me marcaram em São Tomé por isso agora que a minha estadia se aproxima do final, tenho tentado gravar parte desse sentimento sob a forma de fotografias de grupo.
    Elas começam sempre da mesma forma, com uma decisão louca mas simples de visitar todas as casas e reunir toda a gente num único local. “Vamos tirar uma fotografia todos juntos, quer vir?”
    Às vezes respondem-me apenas com um sorriso envergonhado, outras vezes dizem simplesmente que não querem, não sabem, desculpam-se como podem… Há também os que dizem que são feios, estão sujos, que estão ocupados ou que estão já a sair, e claro está, há os que largam imediatamente o que estão a fazer e começam eles próprios a reunir pessoal.
    Tiro a máquina da mochila e ponho-a algures apontada para um fundo bonito que as crianças começam imediatamente a tapar. Elas são sempre as primeiras. As pessoas vão chegando, algumas ajeitam-se, usam lenços, alisam a roupa, outras vão tal e qual como as apanhei, com a roupa da luta, como às vezes dizem. 
    “Têm que se apertar mais se não não vai dar...” Grito eu, apontando para uns quantos do lado esquerdo.
    Num instante já estão todos reunidos, riem-se e comentam. O nervosismo é palpável no ar. Mexo na máquina, ligo o temporizador para os 10 segundos, foco uma última vez, só para ter a certeza, e explico o que se vai passar como quem está prestes a fazer um truque de magia ou lançar um foguete. “Vou carregar no botão e só passado um bocado é que a máquina tira, ok? Eu vou meter-me aí ao teu lado, ok?” Alguns acenam, confusos.
    Carrego no botão, vejo aquilo a piscar, corro para um sítio qualquer, geralmente agachado na fila da frente, e sorrio. A luzinha a piscar, a espera interminável, tento contar uns segundos mas perco-me, ainda há pessoas a falar, até que se vê um flash mudo e eu salto do meu lugar sem aviso enquanto grito: “Esperem! Ninguém se mexe! Deixem ver se ficou bem!” Pego na máquina à procura de caras desfocadas. Saiu bem. Pronto, dou o sinal de Ok para toda a gente que está ali parada a olhar-me com antecipação.
    Esta é de longe a melhor parte de tirar uma fotografia de grupo. Quando toda aquela montanha de gente corre na minha direcção e me atropela e envolve completamente. Todos os miúdos a rir e a puxar, “a Edna já viu duas vezes”; os mais velhos a comentarem a cara deste ou daquele, tudo quer ver de perto, pegar na câmara (que eu não largo nem por nada), ninguém consegue ser indiferente.
    É esta parte da experiência que me convence que tirar a fotografia é muito mais do que premir um botão para congelar um instante no tempo. A fotografia aproxima as pessoas.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Batucada em Amparo

 Estava em Amparo e era de noite. No céu as nuvens negras encobriam a Lua e não se via o caminho por baixo dos meus pés. Atrás seguiam os garotos que me tinham ajudado a montar o amoque e ouvia-se música na comunidade mais à frente.

 Quando cheguei deparei-me com três ou quatro sujeitos semi-ocultados pela escuridão a soltar todo o seu ritmo e criatividade através de bidões de plástico e latas de tinta velhas. O ritmo era simplesmente contagiante e num instante estavam já todas as crianças da comunidade a ver. Enquanto umas saltavam e dançavam à batida da música, havia outra que tentava acompanhar os mais velhos com o seu mini garrafão. Não posso dizer que a pequena tivesse ritmo, mas energia e vontade não lhe faltava até porque a certa altura apareceu um adulto a fazer algo que me meteu bastante impressão (e que já estou cansado de ver…). Em vez de a encorajar a tocar, tirou-lhe o garrafão, atirou-o para longe e mandou-a embora. Mas acham que ela se foi embora? Em vez de tocar com o garrafão, sentou-se ali ao lado dos músicos e começou a bater numa tábua com uma pedra! E quando lhe tiraram a pedra pôs-se a dançar! Assim é que é!

Eles tocaram várias músicas mas eu só consegui gravar a que se segue. Para ouvirem terão que carregar no link que se segue e fazer download por isso espero que funcione!




Foi aqui que se passou o concerto da noite anterior

[Nota: Como se calhar já repararam, mudei o nome e o endereço do blog para algo que acho ser mais apropriado para o seu conteúdo.]




domingo, 26 de agosto de 2012

De prau até às baleias

 Ontem fomos novamente "às baleias", mas desta vez a saída teria lugar no Sul da ilha, mais precisamente em Porto Alegre. Como de manhã há uma tendência maior para o mar estar mais calmo (o que facilita o avistamento dos bichos), tivemos que acordar às 4:30 para descer a costa nas calmas e chegar às 8:00 ao ponto de encontro, a loja do senhor Vado onde se encontra também a recepção do Jalé Ecolodge. O número do senhor é o 9917802.
 Foi aí que esperámos pelo o pescador que nos levaria até às baleias. Quando ele chegou pagámos-lhe 300.000 STD (12€) para comprar gasolina e depois de gastar mais um pouco para comprar um almoço rápido ao Vado, lá fomos nós!
 O barco do senhor é um prau, uma canoa sólida com um "acrescento de lado". Tomei a posição da frente, barbatanas de mergulho aos pés (não fosse raspar uma baleia junto ao barco e podermos nadar com ela!) e a mochila por cima disso tudo. E claro que mal saímos da segurança de Porto Alegre, a primeira onda molhou logo a mochila que tinha uma série de coisas que não gostam lá muito de água por isso tive que a passar para as traseiras. À frente ficaram só coisas à prova de água: as barbatanas, a outra máquina fotográfica, e eu.
 Mais uma vez foi uma indicação de um pescador que nos colocou na direcção certa e não foi preciso esperar muito até vermos as primeiras baleias saltitonas no horizonte. Elas atiravam-se de cabeça, batiam com as barbatanas, saltavam totalmente fora de água, mas estavam tão longe... tínhamos que chegar mais perto... e assim o pequeno barco aproximava-se mais e mais. As ondas batiam na proa, as minha t-shirt já estava toda colada ao corpo, mas estávamos cada vez mais perto.

 Esta foi a minha melhor fotografia da saída. A malandra apareceu subitamente à frente do prau, só para desaparecer instantes depois. Quem tinha a máquina pronta apanhou. Quem não tinha, paciência! Ainda houve um salto bastante perto do barco mas julgo que ninguém o conseguiu apanhar... ainda assim foi absolutamente brutal! E estar a ver tudo aquilo a partir de um prau minúsculo só melhorou a experiência.

 No final cada um de nós deu 100.000 (+-4€) ao pescador que nos transportou por isso toda a aventura ficou especialmente barata em comparação com a alternativa oferecida pela Marapa.
 Preço por pessoa: Prau do pescador - 8€ Vs 30€ - Marapa.
 Claro que a aventura também foi mais molhada - se a minha máquina não fosse à prova de água não me parece que teria sobrevivido. E não havia coletes salva-vidas. E o barco abanava muito mais por isso quem sofre seriamente com os enjoos deverá considerar também este factor.

sábado, 25 de agosto de 2012

Apresentação na Fundação da Criança

 Numa das nossas raras deambulações pela cidade cruzámo-nos com o pessoal da Fundação da Criança que, resumindo muito a história, acabou por me convidar para fazer uma apresentação às crianças da Roça Diogo Vaz. Como eu já tinha uma apresentação ensaiada nas muitas comunidades do projecto, aceitei sem problemas.
 Enquanto conduzia em direcção à Roça juro que não sabia o que esperar. Pensava apenas que se fossem muitas crianças, não ia ter feijões suficientes para fazer o segundo jogo da apresentação, e que ainda tinha que ler um pouco as cábulas, mas quando cheguei e fui calorosamente recebido pelos miúdos, todas as preocupações simplesmente desapareceram. Já me chamavam pelo nome antes de sair do carro, apertos de mão, perguntas, todos muito curiosos e a tocar e a mexer, senti-me logo parte do grupo.

Eu a falar muito rapidamente da origem vulcânica da ilha.
 A apresentação correu bastante bem e acho que eles também gostaram, ainda que tenha notado que algumas mensagens possam não ter passado tão bem quanto eu queria... é que eles eram apenas 11 mas pareciam 50!

Eles vivem num hospital reabilitado por isso tudo é extremamente espaçoso e tem imenso potencial.

Um dos muitos desenho na parede. A casa ainda estava a ser decorado por isso só posso imaginar como ficará daqui a uns tempos.

Todo o espaço está equipado com livros, cassetes de video, brinquedos e tudo o que se poderia esperar numa casa dedicada a acolher crianças.

Vista a partir da rua

 No final da apresentação ainda ficámos lá a brincar com eles. Ensinámos o jogo da sardinha, da luta de polegares, jogámos ao ninja, aprendemos apertos de mão; adorei aquilo tudo. Não queria mesmo vir-me embora e notava-se que eles também não. "Vai dormir aqui?" Perguntavam eles. "Quando volta?"
 Não foi fácil vir-me embora quando me sentia tão bem lá, ainda que houvesse a confusão típica de uma escola de primeiro ciclo. Mas é que estar lá a ensiná-los e a brincar fez-me sentir realmente bem; como se aquilo fosse a coisa certa a fazer, não era preciso ter mais duvidas e inseguranças quanto ao futuro.
 Confesso que não me vejo a trabalhar num projecto assim mas se acontecer, sei que me faria muito feliz.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tatuagens Santomenses

 Estava eu por Dona Augusta a olhar para o amanhã, sem fazer nada, as cabras passavam, uma até mastigava um pedaço de plástico com bastante prazer, e eu admirava aquilo tudo. Chegavam pessoas, outras partiam. Uns cumprimentos, uns acenos... Até que chegaram estes putos e se puseram a espetar agulhas uns aos outros mesmo à minha frente!
Mas que raio?!
 Aquelas tatuagens são tão permanentes como as verdadeiras e fazem-se da mesma forma. Uma agulha com tinta fura a pele continuamente para que o pigmento possa ficar. Segundo eles, não dói, mas tenho que desconfiar ao ver o inchaço causado...
 Quando o rapaz da foto acabou de ser tatuado, até houve outro puto que se pôs a tatuar um coração no próprio braço, todo cheio de vontade e velocidade. Claro que ficou tudo torto  porque foi feito a partir da sua própria perspectiva... mas ao menos agora são todos muita cool!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Whale watching em São Tomé

 No outro dia chegaram cá a casa uns convidados muito especiais que vieram por duas semanas. A missão que os trouxe a São Tomé é complexa mas para resumir a coisa, vieram através da Escola de Mar para trabalhar com baleias e golfinhos. E para fazer isso é essencial fazerem saídas de mar.
 Nós estávamos disponíveis. Eles convidaram. Lá fomos nós!
 Acordámos especialmente cedo para estar na sede da Marapa às horas combinadas e antes de subirmos para o barco as expectativas já estavam altas. Afinal de contas, esta é a melhor altura do ano para se verem as baleias-de-bossa.
 O dia estava meio nublado o que dificultava o avistamento dos bichos, mas depois de passarmos o ilhéu das cabras e seguirmos a indicação de um pescador na sua canoa, não tardámos em ver um sopro a rasgar o horizonte.

 Passámos o tempo todo de volta de duas baleias que tudo levava a crer serem mãe e filha; apesar de às vezes parecer que havia uma terceira (possível macho).
 Muita fotografia se tirou aos sopros e às costas destas duas, até que subitamente, assim do nada, sem qualquer aviso, aconteceu isto!


 Vi a cena a desenrolar-se em câmara lenta. Num instante estava ali na proa, em pé, com a máquina preparada. No outro vejo pelo canto do olho o Chico a gritar e a apontar sei lá para onde! Uma chuva de disparos seguiram-se: Tchik, tchik, tchik, thick! A baleia a girar sobre si própria. As barbatanas, o branco, os desenhos, e um splash enorme! Que imensa brutalidade! Sorri até não dar mais, adorei mesmo. Não só por ter tido o privilégio de ver um bicho daqueles a saltar, como de o ter conseguido registar.  

domingo, 12 de agosto de 2012

Destruindo Património Santomense

 O post de hoje é um pouco diferente. Não fala de aventuras, nem dá conselhos de turismo. Tal como o post da Agripalma, procura apenas expor uma realidade injusta. E o pedido de socorro desta vez não parte de mim mas sim de um dos nossos assistentes de campo, o Gabriel, e com ele todos os moradores de Nova Moca. Deixem-me só tecer um enquadramento rápido para que tudo o resto possa fazer algum sentido.

 O Gabriel vive em Nova Moca, a comunidade que está no fim da estrada que liga a capital a Monte Café. Ao contrário de algumas comunidades que vão encolhendo à medida que mais e mais gente se muda para as cidades junto da costa, Nova Moca permanece forte e a crescer. Localizando-se entre a cidade e o Jardim Botânico do Bom Sucesso, e contando com a cascata de São Nicolau ali ao lado, tem todo o potencial para ser um importante foco turístico. Mas não é assim que as coisas se passam.

 Nova Moca foi concedida pelo Governo da República de São Tomé e Príncipe à Sociedade Agrícola Santomense gerida por Claudio Corallo. Sim, o mesmo Claudio Corallo dos chocolates super famosos.
 Na minha mão tenho a cópia da minuta do contrato que foi assinado e ao lê-la deparei-me com bastantes pontos revoltantes. Primeiro, Nova Moca é considerada uma "parcela de terra agrícola" que ele tem que "explorar" - como se não vivessem lá já para cima de cem pessoas. Depois, todo o terreno (uma área de 102,5 hectares), todas as instalações, plantações e equipamentos, tudo foi concedido exclusivamente a Claudio Corallo para exploração livre de quaisquer hipotecas, dívidas ou encargos de qualquer outra natureza. A única coisa que ele tem que fazer é, e passo a citar:

"4.1 - Realizar a exploração agrícola de Nova Moca, com vista a sua reabilitação plena, no que refere à produção agrícola e possivelmente o desenvolvimento da pecuária, da indústria e turismo;
4.2 - Explorar a média empresa [Nova Moca], utilizando-a onde seja possível e rentável sob padrões agrícolas tecnicamente recomendáveis, através da sua força de trabalho e eventualmente, de terceiros;
4.3 - Não permitir a terceiros a ocupação ou apossamento da média empresa;
4.4 - Conservar as terras, preservar o meio ambiente e não proceder ao abate de árvores sem autorização legal;
4.5 - Manter os acessos e as fronteiras da média empresa, limpos e conservados;
4.6 - Pagar regularmente os encargos legais decorrentes deste contrato e da exploração da média mpresa;"4.7 - Manter boa convivência comunitária;
"4.8 - Empregar maioritariamente trabalhadores Santomenses, criando postos de trabalho e favorecendo a política levada a cabo pelo Governo no quadro da reinserção social;"

Claudio Corallo terá também que pagar anualmente uma remuneração de 820 dólares...

 Portanto, lá para o final das obrigações (no ponto 4.7) encontramos a primeira menção aos habitantes de Nova Moca que viram subitamente as suas casas serem tomadas por uma empresa externa sem que tivessem voto na matéria. E o problema é que é justamente neste ponto que Corallo falha. Em vez de respeitar e desenvolver a comunidade através da implementação de obras sociais, parece ver a comunidade apenas como uma fonte de dinheiro rápida e livre de obrigações.
 Por causa do contracto que foi feito, as pessoas de Noca Moca não têm espaço para construir casas novas porque o terreno está todo ocupado. “Assim não há desenvolvimento na comunidade nem há boa relação entre o proprietário e a comunidade.” Diz o Gabriel, que acrescenta que "têm que trabalhar para ele porque se não trabalham, ele ameaça e diz que despeja as pessoas das próprias casas."

 E as coisas assim estão, com conflitos entre ele e as pessoas da comunidade. Já ouvi tantas queixas, (algumas raspando perto demais da escravatura...), que se começasse a enumerá-las nunca mais parava, mas agora que já expus o que se passa na comunidade, vou saltar finalmente para o que motivou este post.

 Em Nova Moca há uma casa absolutamente fantástica. A casa do feitor de Nova Moca:

 Esta casa é um monumento histórico importantíssimo na cultura Sãotomense e se não fosse o esforço do Gabriel com o apoio da associação de moradores de Nova Moca (os Esperançados) ela já tinha sido demolida há muito tempo por ordem de Claudio Corallo.


 Mas o problema é que a casa pertence ao governo e por isso não pode ser demolida sem uma boa razão, mas numa decisão que parece ser apenas mais uma forma de exercer controlo sob a população, Claudio Corallo serviu-se de um documento passado em 2009 pelo anterior Ministro da Agricultura para começar a demolir a casa.
Ambas as fotografias foram tiradas em Outubro de 2011, quando cá cheguei. A cozinha (edifício branco) já caiu e no seu lugar está apenas entulho.
 Há umas duas semanas começaram avisar que iam começar a demolição mas apesar das pessoas da comunidade se revoltarem, a demolição ia avançar.
 Foi aí que o Gabriel se dirigiu à câmara do distrito de Mé-zochi e emitiram imediatamente um mandato para parar a demolição e as coisas acalmaram um pouco... até que começou alguém a dizer depois (sem documento, sem nada) que afinal a câmara autorizava e por isso começaram a destruir a casa como se nada fosse, começando pelo telhado!
 Novamente o Gabriel e a associação de moradores desceu até à cidade (9/8/12) e conseguiu falar com o Ministro do Plano e Desenvolvimento para saber se ele tinha conhecimento da demolição da casa. O Gabriel falou também com a directora da Direcção de Turismo e ela disse que a demolição da casa nunca poderia ser feita assim. Disse que primeiro seria preciso apresentar um projecto porque a casa é uma casa histórica e constitui um património nacional importante que não pode ser destruído por ordem de uma só pessoa. Disse que tem que haver discussão e apresentação de um projecto.
 Ao que parece, o Ministro não sabia e quando tomou conhecimento emitiu o mandato para parar a destruição até ordem do contrário, ou seja, até Claudio Corallo apresentar uma proposta racional que agrade às pessoas que residem em Nova Moca.

 Com isto a demolição parou, por enquanto, mas o mal já foi feito (e ninguém parece assumir a responsabilidade). Parte do telhado já foi destruído e com a época das chuvas que se avizinha, é bem possível que a casa caia sozinha apenas por estar num avançado estado de degradação...

 Toda a informação deste post, incluindo a cópia do contrato, foi-me gentilmente cedida pelo Gabriel por isso só tenho que lhe agradecer por me dar a conhecer tudo isto. Deixo também um obrigado à Associação dos Moradores de Nova Moca: Os Esperançados, porque a esperança é a última a morrer.

sábado, 11 de agosto de 2012

Contemplando Água Sampaio

 Ontem tive a sorte de me apanhar num daqueles momentos fantásticos que parecem acontecer tão frequentemente neste país. O Sol estava a pôr-se, as nuvens laranja riscavam o céu e já se viam alguns morcegos a passar ao longe. Estava sentado ali no muro, não tinha mais graçolas para dizer, e toda a gente já tinha perdido o interesse em mim. Estava simplesmente ali, um gajo feliz contemplativo e invisível. E à minha volta acontecia tudo ao mesmo tempo. Miúdos saltavam e gritavam e jogavam ao mata com uma bola mole de trapos. Nos tanques as mulheres cantavam musicas ensaiada na igreja. Cumprimento quem vai chegando do trabalho. "Então, tudo?" E eles respondem com um sorriso. "Ya." Os miúdos provocam-se, gritam, correm, sacanas nem sabem a sorte que têm. Poderem brincar na rua, à porta de casa, e todo este verde, amarelo, e o laranja do Sol também já está por todo o lado, pinta o próprio ar que respiro, vai das nuvens até às casas, desce pelos troncos das árvores, aquece a cara dos que regressam a casa.

 Ao ver a fotografia abaixo só consigo pensar:
 "Como é possível habituar-me novamente a Portugal, cinzento, impessoal, frio, se ainda não saí e já sinto tanta falta disto..."

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Nova luz sob Boa Esperança

 Regressámos pela quarta vez a Boa Esperança. Como um dos meus botins pegou fogo em S. Miguel e ainda não comprei uns novos, saltei o rio descalço - coisa perfeitamente praticável visto que estamos na gravana e o rio está bem baixo.
 Na entrada da comunidade estavam já as mesmas caras conhecidas que nos receberam tão bem com um grande sorriso. "Está tudo bem, e por aqui?" "Como vai a família?" "Está tudo, né?" E fomos deixar as coisas em casa do Alexandre, o presidente da associação que nos oferece sempre um tecto.
 Os inquéritos começaram num instante, já sei as perguntas de cor: (...) comeu porco? E macaco? Comeu lagaia? Morcego? E pombo? (...) E quando as coisas acalmaram, o mítico xadrez entrou em cena.
Eu contra o Titi (fotografia do Christoph)
 O xadrez tem sempre imenso sucesso e adoro ver os frutos de um esforço que não é esforço nenhum. Basta ensinar duas pessoas, que enquanto elas jogam pela primeira vez, outros estão a seguir o jogo e pouco depois serão esses a jogar e os primeiros transformam-se nos novos professores. É nessa altura que eu dou um passo atrás e observo com um grande sorriso a proliferação e evolução daquilo que ensinei. A torre transforma-se em torro, o bispo converte-se em bicho ou pispo, mas claro que também ocorrem mutações menos boas como as peças ganharem "habilidades" umas das outras. "Não. O peão anda sempre em frente e come assim e assim." É nessas alturas que tenho que esticar o braço no meio da cara de toda a gente e parar a coisa antes que ela seja assimilada como uma jogava válida.
 Algures depois do almoço as coisas acalmam bastante. As mulheres ficam ali a entrançar o cabelo aos filhos e a falar mal do preço disto ou daquilo, ou deste ou daquele. Os bebés choram, as galinhas ladronas entram nas casas, os cães ganem, olho para o céu, as nuvens parecem mais reais, o vento mais pesado. Há pessoas que regressam ao campo, outros vão dormir uma sesta. Quem não pára um segundo são os miúdos, que agora estão todos na comunidade por serem as férias grandes.

Tudo feito à mão com machim super afiado ou serrote. A chapa de metal furada que ele tem na mão serve tanto para martelar como para arrancar pregos.
  Adorei ficar ali simplesmente parado a contemplar o trabalho daqueles dois miúdos. Na altura da fotografia eles ainda estavam a concertar uma avaria qualquer mas lá para o final já tinham metido uns pedais e um assento desenrascados ali na hora! Não dá para ver mas a mota até tem travão de mão do outro lado (uma alavanca que prende a roda do meio!) Acho que gostei tanto de vê-los a solucionar os problemas à medida que eles surgiam como eles gostaram dos comentários sérios eu lhes ia dando. Pela cara deles parecia que não estavam habituados a ouvir um adulto (ou um branco?) a sugerir que metam um encosto ou duas rodas no meio em vez de apenas uma.

 Dantes, quando o Sol se afundava no horizonte e os morcegos saiam da floresta, a única coisa que havia para fazer era ir para casa porque é lá que estão os candeeiros pequeninos oferecidos por Taiwan. Isso mudou. Agora quase todas as comunidades receberam estes fantásticos candeeiros de rua alimentados por painéis solares que carregam uma bateria durante o dia e ficam ligados a noite inteira.
 É muito estranho ver aquelas coisas alienígenas ali, todas brancas e futuristas, brotando do chão degradado mas o impacto positivo que elas causam é imediato! A comunidade está mais acolhedora, as pessoas socializam mais, falam mais, o xadrez ficou até tão tarde que até apareceu um segundo tabuleiro de damas que estava para lá esquecido e toda a comunidade ficou ali a ver os jogadores enfrentarem-se. Claro que se toda a gente se deita mais tarde, também acorda mais tarde, mas isso é outra história.



  Não havia maneira de ter tirado a fotografia acima sem que toda a gente me visse, ou seja, num segundo estava a fotografar candeeiros frios e sem graça, no segundo seguinte estava a fotografar autênticos modelos  cheios de energia! Toda a gente a gritar pelo meu nome e a pedir uma fotografia, e como eu também não dizia que não, a sessão continuou apesar de eu dizer que de dia seria melhor. Ainda bem que tirei bastantes fotografias naquela noite porque no dia seguinte acabei por não fotografar coisa nenhuma, as pessoas estavam quase todas fora e quem estava no quintal não me pareceu que queria ser fotografado. Deve ser efeito da noite. As pessoas perdem a vergonha.
 A quarta ronda das comunidades assinala o fim da minha estadia aqui por São Tomé por isso foi com alguma tristeza e estranheza que sai sem dizer adeus. "Até qualquer dia..." Disse por fim, enquanto me afastava sem olhar para trás. Dantes, há muito tempo, quando me perguntavam quando regressaria a Portugal eu dizia sempre que ainda faltava, lá para Outubro, ainda tenho muito tempo. Parece que essa data, seja ela qual for, está já a aproximar-se a passos largos...


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Volta à Ilha - Dia 3

E estamos quase na recta final da volta à ilha!


Dia 3

 Estava eu dentro do amoque em S. Miguel e acordei lá para as 5h00, hora normal para se acordar no campo. Os rapazes que me acolheram já estavam lá fora a comentar qualquer coisa há bastante tempo e a certa altura houve um que me disse que tinham que ir andando para o campo. Como eu ainda estava deitado a ganhar coragem para iniciar o complicado processo que é arrumar tudo, calçar as meias, e depois os botins, disse apenas para irem andando que eu já saía. Mas eles queriam dizer qualquer coisa, e queriam que eu saísse do meu ninho alienígena, por isso lá rastejei para fora e veio um rapaz dar-me o botim sem o cano e uma meia comprida. Tinham tratado de tudo e eu nem tive que pedir nada!

 Mil obrigados depois, lá me arrastei até à canoa para me ir calçar mas os pés (e as feridas) estavam cheios de areia por isso tinha mesmo que ir lavar tudo no rio mais próximo antes de me calçar. A praia tinha calhaus rolados mauzinhos e dolorosos e dar um passo que fosse era insuportavelmente doloroso por isso um dos dois rapazes que ficou para trás teve a amabilidade de ir encher um cantil com água do rio e trazer-me de propósito só para eu poder lavar os pés ali no meio do chão e assim vestir as meias e os botins por cima daquilo tudo. Num pé um botim normal, no outro um couto queimado e derretido do tamanho de um  sapato de casamento. Por cima vesti as calças e estava pronto para partir à aventura, mas não sem antes agradecer-lhes da única forma que podia. O rapaz recebeu 50.000 e um sincero muito obrigado em troca da meia e o outro rapaz recebeu uma lata de atum, um sorriso e um até à próxima em troca do charoco do jantar da noite anterior.

 Mas a simpatia deles não ficou por aí e ainda me conduziram pelo caminho até chegar a um sítio onde me garantiram que não haveria mais problemas e era sempre em frente, sempre por caminho liso e fácil. 

Descobrir isto no meio da floresta ao fim de
andar várias horas a roçar mato é uma visão
 fantástica!
 Nunca mais voltei a ver o Takashi e claro que me perdi na primeira derrocada que vi à frente. O caminho antigo existe, mas não se pode encará-lo como uma linha contínua. Em vez disso é um conjunto de trechos separados por floresta densa. Quando se descobre o caminho (normalmente assinalado por um caos de pedras espalhadas numa ordem mais ou menos linear) convém segui-lo até ele acabar e depois há que inventar. E foi justamente isso que fiz quando o trilho desapareceu e me forçou a subir a encosta. Por essa altura a técnica com o machin já estava bem apurada. Já sabia o ângulo preciso para cortar uma folha de palmeira de uma só vez, já conhecia aqueles fetos espinhosos que se cortam como manteiga, e já identificava quais a lianas que não valia a pena tentar cortar porque parecem cabos de aço.









 Mais uma paragem para beber um leitinho à moda do rio e logo a seguir reencontrei o caminho, ou assim eu pensava. Naquela zona os trilhos dos porcos e das pessoas misturam-se bem demais, as pegadas duns sobrepõem-se às dos outros e era preciso confiar cada vez mais nas pistas que o caminho me oferecia. Um feto cortado com a ponta seca, um resto de uma pegada na lama, um arranhão numa raiz saliente, tudo servia para me dar confiança que estava no caminho certo. Continuei assim até que voltei a pisar o caminho antigo e este terminou bruscamente numa levou até a uma ponte caída.

 Estava ali à minha frente o rio que, a julgar pelo mapa, devia ser o Rio Mussacavú, um rio largo demais para atravessar sem molhar os pés. Andei ali às voltas indeciso. Não me apetecia mesmo nada repetir o ritual de tirar os botins e as meias e as calças só para entrar na água e sair do outro lado cheio de areia. Mas não havia escolha por isso enfiei-me por um trilho de porcos e lá teve que ser.
 Enquanto atravessava o rio fui completamente bombardeado por tafões (umas moscas de gado - formato XXL) que poisavam no cabelo e na cara e nas orelhas e no nariz e em todo o lado. Como segurava a mochila pesadíssima em cima da cabeça não havia muito a fazer além de me sacudir que nem um gnu e atravessar o rio o mais rápido possível.
 Chegado à outra margem, começou a vingança. Enquanto estava sentado a secar (porque é que não trouxe uma toalha?) os tafões não paravam de vir, só que aqueles bichos são tão gordos que têm uma inércia enorme a descolar por isso são fáceis de apanhar se formos rápidos o suficiente. Fui picado várias vezes mas também matei tantos que lhes perdi a conta mas posso assegurar que o número tinha dois dígitos. 

 Meias calçadas, calças vestidas, botins enfiados, e lá fui eu, com todo o peso da mochila enterrado fundo nos ombros. Por aquela altura a t-shirt molhada já raspava nas costas há tanto tempo que parecia estar a fazer ferida, mas paciência, o caminho continuou.
Todos os rios são locais de paragem obrigatória para descansar, beber água e encher o cantil.
 A julgar pelo mapa, a estrada antiga devia continuar para dentro mas a verdade é que seguia em frente. Mas o mapa devia ter razão, por isso acabei por me embrenhar fundo num pântano cheio de porcos assilvestrados que me encaravam com desconfiança. E eu encarava com desconfiança aquele caminho... Aquilo não parecia um trilho usado por pessoas por isso voltei tudo atrás e seguindo o GPS e os meus instintos abri o caminho até à praia com a ajuda do infalível machin. 
 Os calhaus rolados já tinham ficado para trás e só havia areia escura e as reconfortantes pegadas de cães, porcos e pessoas que segui até chegar a Santo António. Aí encontrei uma casa jeitosa, com uma data de bananeiras e demasiados cães soltos para o meu gosto. Quando o primeiro soltou o alarme, começaram a chegar mais e mais vindos da floresta, e tal como uma alcateia que rodeia a presa, cercaram-me, por isso tive que me baixar e pegar em pedras para lhes enviar uma mensagem que percebessem (não acertei em nenhum claro, é só para os desencorajar).
 Com toda aquela barulheira claro que apareceu alguém e mais uma vez, colocou-me no caminho certo. Só que desta vez eu fiz-lhe a seguinte pergunta: 

- Quanto tempo demora para chegar a Porto Alegre?

 E ele responde-me que com passo rápido chega-se lá em duas horas! Os pés estavam todos destruídos, as feridas nas pernas insuportáveis, as alças da mochila cravadas fundo nos músculos dos ombros; não aguentava mais uma noite a dormir no mato por isso meti na cabeça que ia chegar naquele mesmo dia a Porto Alegre e assim foi! As indicações que me deram em Santo António foram as primeiras a bater certo: Continuar sempre pelo caminho e quando se chegar lá acima, junto à fruteira, não se vira à esquerda, continua-se em frente, sempre pelo mesmo caminho. “Parece simples… mas todos as outras indicações também tinham sido…”
 A subida era fácil e o caminho bom, nada comparado com o caos de pedras e cocos que já tinha atravessado, por isso liguei o piloto automático e atravessei aquilo tudo a uma velocidade impressionante. Pelo caminho vi macacos incrivelmente perto e recomecei a ouvir as amigas Céssias que tinham estado ausentes durante todo o caminho!
 A empurrar-me para a frente estavam só pensamentos idiotas como comer pizza no Jasmim ou beber um Sumol qualquer e não sei se foi disso mas quando dei por mim estava em Malanza, a comunidade antes de Ponta Furada! Era o fim da aventura, liguei ao Fábio e ele veio todo o caminho desde a cidade para me socorrer. Mas a coisa não acabou aí porque tive a grande sorte de encontrar o grupo dos Leigos para o Desenvolvimento que está baseado ali mesmo em Malanza. Depois de me fazer de difícil lá aceitei o convite deles e subi para a casa onde nos ficámos a conhecer um pouco melhor enquanto as velas ardiam, a noite caía, e esperávamos que o Fábio chegasse.

E pronto, espero que tenham gostado!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Volta à Ilha - Dia 2

 E continuam as peripécias da volta à ilha começadas no post anterior!


Dia 2 

 Acordei tantas vezes durante a noite que lhes perdi a conta, ou era com frio, ou por causa de algum barulho estranho, ou por nenhum motivo que me recorde. De manhã, enrolado dentro do saco-cama, não foi fácil encontrar a vontade para sair e enfiar os pés feridos nas meias frias molhadas e enlameadas, mas tinha que ser. E o que tem que ser tem muita força, por isso esvaziei a almofada, sai do ninho, dobrei o saco-cama, arrumei o amoque e arrastei-me até à zona onde tinha feito a fogueira na noite anterior.
 Queria aquecer o leite e secar as meias e as calças mas quando peguei no isqueiro, vi uma racha minúscula de lado por onde ele estava a perder o gás todo! Sem isqueiro, tudo aquilo que tinha planeado, a panela, o arroz, o sal, tudo seria perfeitamente inútil, por isso era preciso arranjar uma solução e depressa. Tinha que haver alguma coisa, pensei em cola, talvez, qualquer coisa que pudesse usar para tapar o buraco, mas enquanto pensava, o gás escapava-se e no final não consegui nada. Mas havia ainda gás suficiente para aquela única vez por isso tentei queimar os plásticos mas o isqueiro pegou fogo e tive que o atirar ao chão para não me queimar. Foi a primeira e a última tentativa.
 Sem fogo não haveria maneira de secar a roupa por isso voltei a meter pensos novos nas bolhas, calcei as meias lentamente e com muito cuidadinho e enfiei tudo para dentro dos botins frios e molhados. Como não me apetecia mesmo nada vestir as calças que também estavam molhadas, vesti os calções de banho e segui viagem. 

 A praia estendia-se ao largo, com um belo ilhéu exótico mesmo em frente. Continuei até não dar mais até que cheguei a uma parede pouco acolhedora que me separava do resto da ilha, mas como lá ao fundo continuava a haver caminho, fui avançado pelos calhaus rolados. Péssima ideia. A parede só foi ficando mais íngreme e a praia acabou subitamente numa curva. Com as bolhas nos pés, todos os passos preciosos estavam contados por isso não me apetecia nada voltar para trás. Em vez disso pus-me a subir uma encosta mais agressiva. Por baixo estavam as ondas e da parede brotavam apenas raízes sólidas por isso pus-me a escalar aquilo com a ajuda do machin que usava para cravar na madeira e puxar-me aos poucos, metro a metro, em direcção ao topo. Felizmente que correu tudo bem e as pedras debaixo dos meus pés e as raízes a que me segurava permaneceram solidamente presas à parede.

 Lá em cima já não havia trilho à vista por isso foi preciso usar e abusar do machin mais uma vez para trilhar o meu próprio caminho pela floresta. Na paragem seguinte aproveitei para descansar enquanto via o estado do isqueiro e como ele já estava vazio, todo o gás espalhado pela floresta, misturei o leite em pó e o açúcar com a água fria do rio que corria aos meus pés. Três colheres de sopa bem cheias de pó branco com uma de açúcar e temos uma caneca de potência açucarada! Como o isqueiro já era, era escusado continuar a passear o arroz por isso deixei-o ficar noutra cabana abandonada que encontrei ali à frente. "Espero que venha a ser útil para alguém!"
 Todos os rios largos são bons para reencontrar o caminho e para isso é apenas preciso percorrer as margens em busca de pegadas na lama ou folhas pisadas ou raízes cortadas. Foi assim que dei com o caminho novamente, por isso segui-o até ser subitamente interrompido por uma voz a gritar “Amigo!”
 Parei logo, e olhei em volta. Só floresta, palmeiras e trepadeiras e pássaros… “Será que ouvi mal?” Mas a resposta chegou depressa. “Amigo, espera!” Era um vinhateiro a chamar-me do topo da sua palmeira!
 O senhor chamava-se José Arlindo e vive ali, naquele barraco onde deixei os sacos de arroz! Ao que parece tem para lá umas galinhas escondidas e tira vinho de palma e caça e é feliz assim, longe de tudo e todos. Como eu devia parecer meio perdido ele ofereceu-me vinho e levou-me até Burnay onde garantia haver um homem que era guia e me podia levar todo o caminho até Porto Alegre. Disse que se fosse com ele, demoraria um dia apenas mas eu disse-lhe que não era preciso porque não tinha pressa! O José era alto e tinha uma passada larga, por isso vi-me à rasca para o acompanhar com as feridas nos pés. À medida que passávamos pelos penhascos ele só se lembrava de histórias de pessoas que tinham morrido lá. Uma de um feitor branco que caiu num cavalo, outra de um branco que não aceitou ajuda e foi sozinho. Tudo acabava morto.

 Burnay também tinha um par de cabanas de madeira construídas ao pé da praia mas desta vez havia cães e porcos. O tal guia é que não estava lá por isso eu rejeitei educadamente a oferta e fiquei-me apenas com umas indicações: “Vai até ao fundo da praia, salta rio, e quando chegar à rocha, sobe só.” E assim fui. Por aquela altura as feridas nos pés só pioravam e a humidade e fricção acumuladas entre os botins e a pele já começava a fazer novas feridas de lado nas pernas. A subida que se seguiu foi brutal e não ajudou nada mas também não havia muito que pudesse fazer porque quando o botim começa a “roer” a pele já não há muito que se possa fazer, qualquer coisa que se meta ali ou sai, ou abre mais a ferida. Só podia suportar. E quando olhei para trás, vi que estava a ser seguido por um dos cães do caçador! O bicho já era velhinho e estava esquelético, como todos os cães de caça costumam estar. Por mais que eu subisse, por mais rios que atravessa-se, por entre todas as encostas fundas onde eu me perdia, o cãozito aparecia sempre algures. Ficou comigo tanto tempo que lhe dei um nome e comecei a falar com ele por tudo e por nada. Ficou o meu Takashi.
Takashi - O cão que adoptei (ou ele é que me adoptou) por um dia.
- Oh Takashi, estás a mostrar-me o caminho ou a fazer com que eu me perca ainda mais? – Disse eu, tantas vezes.

 O que sei é que a certa altura tropecei noutro trecho do caminho antigo e segui-o por entre os bambus e as palmeiras, ao lado de blocos de rocha enormes, até a um rio largo onde estava um senhor a pescar. Ele assegurou-me que tinha chegado a S. Miguel, mais uma zona com um par de cabanas habitadas por gente simpática e sorridente. O dia estava a acabar. As feridas nas pernas ardiam no seu auge, tão más como as dos pés, por isso a primeira coisa que fiz quando vi o mar avancei em silêncio, pronto para tirar os botins. Nada mais importava. Tinha que ir molhar os pés na água salgada para desinfectar e limpar toda aquela lama e suor. Claro que isso foi imensamente estúpido porque não só fez com que todas as feridas ardessem numa esplendorosa cacofonia de dor, como deixou que areia preta e fina entrasse para dentro das bolhas abertas em carne vive.

Panorâmica da praia de S. Miguel
 Ainda assim, forcei-me a ignorar a dor e deixei os botins e as meias a secar junto à fogueira. Depois fui montar o amoque numas goiabeiras e sentei-me com o pessoal em cima de uma das canoas. Como estavam já a terminar de fazer um petisco qualquer e eu só tinha vegetais e umas latas, cortei uma cenoura, uma cebola e um alho e inventou-se para lá uma salada que comemos todos com o charoco que eles tinham pescado acompanhado com fruta assada e banana cozida. Alto petisco, devo dizer! Nunca tinha provado aquele peixoto pequeno e feioso mas com azeite de palma fica realmente bom! Quando estava ali a comer à luz do frontal comecei subitamente a cheirar qualquer coisa estranha. Algo parecido com pneu queimado... Até que ouvi os gritos! Um dos meus botins estava a arder! Um rapaz ainda correu para o salvar mas a borracha derreteu num instante e nem a meia se salvou! Acho que o culpado deve ter sido um dos mil porcos que vive para lá...

“Boa…” pensei eu “…sem botim nem meia e com os pés todos estragados não sei como vai ser…” mas felizmente que um dos rapazes disse imediatamente que me oferecia uma meia enquanto o outro disse que não havia problema e ainda se podia aproveitar o botim cortando o cano queimado. Claro que aceitei a meia e assim ficou. Fui-me deitar feliz mas com as pernas todas a arder e as feridas abertas a colar ao saco-cama.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Volta à Ilha - Dia 1


 Pode-se dizer que em São Tomé existem dois percursos maiores e mais arriscados que toda a gente fala e só alguns gostavam de fazer. A subida ao Pico é um percurso conhecido que se faz com guias e envolve pelo menos uma dormida no mato sob condições extremas de temperatura. Mas depois há o outro, aquele que está lá, à vista de todos, mas que ninguém ousa falar. Como se fosse um filho mal comportado que a família tenta esconder, o percurso da volta à ilha aguarda silenciosamente pelos mais aventureiros.
 O mapa das estradas não mente: há uma fatia enorme da ilha que não tem estradas; nem comunidades. Um sítio onde existe apenas floresta e rios e pântanos. Tinha que o ir explorar!

A verde o percurso que fiz a pé. A cinzento o mapa das estradas nacionais.

 Como o post que escrevi sobre a subida ao Pico teve uma aceitação muito boa vou repetir o formato e dividir este post em informações turísticas e peripécias da aventura.


Turismo

Perguntas

Quanto tempo demora?

 Eu demorei 3 dias (e 2 noites) mas fui sem guia e não conhecia o caminho. Imagino que com guia o percurso seja mais rápido e seguro mas também é verdade que fiz para lá atalhos (cansativos e não aconselháveis) que ainda assim me devem ter poupado algum tempo, por isso a minha resposta final é:
 A andar bastante bem e com poucas paragens, sem mergulhos nem muita exploração - 3 dias (2 noites).
 Se for para ir nas calmas com direito a um mergulho na praia de S. Miguel - 4 dias (3 noites).

É difícil?
 Sim, muito difícil. Todo o caminho é uma sequência interminável de: subir ao topo da cresta, descer até ao rio no fundo do vale, subir o monte seguinte, descer até à praia, etc, etc.




É perigoso?

 Sim. Se forem sem guia diria que é até demais porque o mais provável é perderem-se e depois terem que decidir entre escalar aquela parede pendurados nas raízes ou voltar tudo para trás. Mas sempre que encontrei o caminho, ele era (relativamente) simples, embora houvessem imensas pedras e cocos caídos no meio do caminho que dificultavam o avanço. Tal como no pico, também há crestas e caminhos estreitos só que aqui uma pessoa não cai e rebola encosta abaixo. Naqueles sítios, quem cai vai dar de comer aos peixinhos.


Vale a pena?

 Sim, vale! Mas não esperem uma floresta mágica de musgos envoltos na neblina (como no Pico). O que vão ver são imensas praias de calhaus rolados que espreitam entre picos escarpados cobertos de vegetação densa e tropical. Lá mais para baixo haverão praias de areia com mangal, e mais rios. Há muitos rios mesmo e quando o Sol espreita, todas as cores da floresta ganham subitamente vida e os pássaros cantam e os macacos roncam.

Quando devo ir?

 Sem  duvida nenhuma, na época mais seca - Gravana (Junho a Setembro). O caminho já é difícil o suficiente sem chuva a encharcar as calças, as meias, os pés, a pele, os ossos. Quando chove bem, não há capa nem botim que proteja tempo suficiente.

É preciso guia?

 Sim, é. Tal como no Pico, se acontecer alguma coisa, não convém ficar para lá caído num buraco com o pé partido porque não haverá rede de telemóvel nem ninguém para te vir buscar. E neste caso diria que a necessidade ainda é maior porque a meio do percurso está-se a um dia ou dois de caminhada de qualquer comunidade, por isso o melhor é não contar muito com isso. Com guia também se tem a vantagem de  fazer o caminho verdadeiro, sem descidas perigosas nem pântanos enlameados nem mato fechado.

Por onde se vai?

 Tendo em consideração a dificuldade do percurso, eu sugeria que se fizesse Ponta Furada - Porto Alegre. A parte inicial é mais difícil que o final por isso quando as encostas íngremes surgirem será quando vão estar menos cansados para as enfrentar.


Equipamento obrigatório?

 Se forem sozinhos:

  • Mapa dentro de uma mica - para evitar subir picos mais altos e ter uma vaga noção onde ficou o caminho.
  • GPS com 2 pilhas extra - para saber para que direcção fica o Sul.
  • Almofada, amoque/tenda e saco-cama
  • Lanterna frontal - para cozinhar às escuras ou ler um livrito ao deitar.
  • Machin (catana) - para civilizar as plantas. 
  • Panela - para fazer arroz, esparguete, ou aquecer o leitinho de manhã.
  • Comida - eu levei:
    2 pacotes bolachas - muito boa ideia mesmo
    3 cenouras
    2 pimentos
    3 bananas
    2 goiabas - talvez pesadas demais
    4 dentes de alho
    4 latas de atum
    2 chouriços
    0,25kg de leite em pó
    0,1kg açúcar
    0,1kg sal
  • Mas talvez pão tivesse sido mais seguro que o arroz porque ao contrário deste, não precisa de fogo, panela, ou água para desenrascar.
  • Pasta e escova de dentes
  • Pensos rápidos - é inevitável que hajam cortes e arranhões com todas aquelas palmeiras, mas os pensos são para aquelas feridas que estão realmente a estragar a experiência.
  • Isqueiro e petróleo - para começar o fogo numa floresta tropical encharcada.
  • Máquina fotográfica leve(!) e resistente (nada de canhões, porque depois mal a tiram com o cansaço)
  • Cantil
  • Impermeável
  • Roupa básica em duplicado (meias confortáveis(!), calças, t-shirts, essas coisas, calções só para tomar banho)
  • Botim (Galochas)
  • Sandálias - para deixar os pés respirar no fim do dia.
  • Dinheiro - pode ser preciso para agradecer a generosidade de alguém.
  • Telemóvel com a bateria toda carregada - o primeiro sítio com rede será mesmo no final, já em Malanza, mas ainda assim pode dar jeito nessa altura
  • Canivete - essencial para tudo.
  • Mochila resistente (de preferência com alças para distribuir o peso para a cintura)


 Se forem com guia imagino que seja tudo bastante parecido mas o machin (catana) e o mapa podem ficar em casa.

História

  Estive a escrever detalhadamente o que se passou em cada um dos três dias e como no final ficou gigantesco e massudo, achei melhor separar esta parte em três posts que publicarei um por dia. Assim sendo, que comece a aventura!


Dia 1 

 A aventura começou lentamente. Saí de casa todo carregado, botim calçado, machim escondido e parti na direcção do mercado. Encontrei a Andreia (professora da Helpo) pelo caminho e ela lá me apontou para o sítio onde se apanham as hiaces para Santa Catarina. Eram umas 8h20 quando me sentei no meu cantinho, lá atrás, junto à janela que não queria abrir, e foram preciso passarem mais quarenta minutos até que a maldita coisa arranca-se, a rebentar de gente pelas costuras. O normal por aqui é enfiar pelo menos cinco pessoas em cada fileira de três assentos por isso dois dos passageiros terão que ir todos chegados para a frente e quase de joelhos porque não é fisicamente possível enfiar cinco costas naqueles bancos. Uma dessas pessoas fui eu, e durante a hora e meia que demora a chegar a Santa Catarina tive o tempo todo a evitar as cabeçadas da senhora da frente que não conseguia aguentar a cabeça no lugar tal devia ser o sono.

 Quando saí na minha paragem já não havia mais ninguém além do condutor e o rapaz que o ajuda com a bagagem, um miúdo entroncado usando um inapropriado gorro de neve. A viagem custou uns míseros 25.000 (1€), muito menos que os 85.000 (ou lá o que é) que se tem que pagar até Ponta Furada – é que a distância não é assim tão diferente.

 Estava fora da hiace, com a mochila às costas, liguei o GPS e comecei a atravessar a ponte sob o rio Lembá, já minha conhecida por causa das contagens de frutos que fazemos no projecto. Subindo pelo caminho em direcção a Ponta Furada ia ouvindo as pessoas que desciam a comentar que eu ia fazer a volta à ilha. Isso fez-me perceber que o caminho não devia ser tão inexplorado como eu pensava. No percurso até Bindá comecei a sentir umas dores nos pés, assim algo com feitio de bolhas na sola do pé, mas devia ser só impressão porque ainda agora tinha começado a caminhar e eu nunca tinha tido bolhas por andar com os botins. Estas mesmas bolhas transformaram-se mais tarde num pesadelo, mas essa parte da história fica para depois. Atravessei o hospital de Bindá, e depois desci até à antiga estrada (do tempo colonial) que um vinhateiro nos tinha mostrado da última vez que lá estivemos. Era altura de puxar do machin (100.000 [4€] pelo machin, 30.000 [1,2€] para afiar). O que o Nity me arranjou é da marca Crocodile e estava bem afiado de ambos os lados por isso comecei a civilizar aquelas plantas desgovernadas e assim fui abrindo o caminho até tropeçar no trilho que me deveria levar até Juliana de Sousa.

De longe o maior caranguejo terrestre que já vi!
 Acho que foi logo aí que as coisas começaram a correr mal porque perdi-me do caminho e como a praia estava tão perto, com os calhaus rolados bastante chamativos, decidi escorregar encosta abaixo e no processo perdi o parasol (aquela coisa preta saliente que protege a lente de quedas e raios do sol) da objectiva da máquina de fotografar. Ainda voltei atrás para ver se o encontrava mas descobrir uma coisa redonda e preta no meio de uma praia de calhaus pretos e redondos é como achar uma agulha num palheiro, não ia acontecer, por isso foi com alguma tristeza que o deixei para trás – se alguém o encontrar, que o trate com muito amor e carinho! 
 Continuei pela praia fora com os caranguejos eremitas a rebolar à minha passagem. Eram tantos que ao caírem faziam um som parecido com chuva. Avancei, saltando uns quantos rochedos aqui e ali, até que vi ao longe uma pequena ruína e o esqueleto de uma ponte erguida sobre o mar. 

 Quando me aproximei mais vi uma baía lindíssima com um túnel onde as ondas entravam e rebentavam por isso era o local mais do que indicado para fazer uma pausa e comer uma goiaba – as malditas coisas parece que pesam 3kg por isso naquela altura já estava desejoso de me livrar delas. Foi também aí que aproveitei para tirar os botins para examinar o que se passava lá por baixo e vi que não era uma mas sim duas bolhas enormes em cada pé. Para a coisa não ficar muito pior, cobri aquilo com dois pensos dos grandes, voltei a tapar a dor com as meias e os botins e quando me preparava para levantar passou um homem cheio de pressa num caminho mais acima! Fiquei tão admirado de ver ali alguém que nem disse nada, e como ele não me viu, também passou sem nada dizer.



 Continuei pelo trilho por onde o homem tinha vindo mas mais uma vez foi só uma questão de tempo até me perder. Por aqueles lados o trilho é tão estreito que basta uma derrocada ou uma bifurcação para estragar tudo e perdi-me novamente. A única coisa que sabia é que tinha que descer para Sul, e para isso o som das ondas tinha que vir do lado direito. Tudo o resto é conversa, por isso pus-me a subir encostas e a descer vales e como a água do cantil já tinha acabado há bastante tempo, estava um bocado à rasca. A floresta continuava, densa, palmeiras, lianas e mais outras que depressa conheciam o meu machin de perto. Foi assim até que comecei a ouvir o som de um riacho lá em baixo por isso deslizei até ao seu encontro.

 Lá em baixo vi um passaroco novo! Coisa raríssima nos dias que correm porque me posso gabar de já ter visto quase toda a avifauna da ilha. Chamam-lhe Sui-sui-de-obô (Amaurocichla bocagei) e é um gajinho assim pequenino e atrevido, com um chamamento assobiado simples. O riacho era estreito e via-se que ia dar ao mar pouco depois por isso segui-o com toda a agilidade que as minhas bolhas me permitiam e fui até á praia apreciar o pôr do Sol enquanto roía o interior de um coco. Como a capital de São Tomé está virada assim para Este não é frequente ver-se o Sol a pôr-se por cima do mar (como em Portugal) por isso foi uma visão bastante agradável.


 Entretanto começou a ficar tarde por isso voltei a mergulhar na floresta, montei o amoque entre dois coqueiros e pus-me a coleccionar troncos e raminhos, dos mais finos aos mais grossos, só que como estava quase tudo molhado, a selecção não podia ser muito criteriosa. O plano era fazer um jantar quente, com arroz, cenoura, cebola, alho e atum. Mas o que realmente aconteceu foi que tentei atear fogo àquela porcaria de todas as formas e nada, nem com petróleo, nem com papel, nem com musgo, nem com palha, nada servia! Tudo ardia depressa demais e morria pouco depois… até que me lembrei de ter visto uma barraca abandonada lá ao fundo junto à praia. Fui lá e arrebanhei tudo o que eram plásticos e transportei-os para junto da lenha e num piscar de olhos já tinha uma pilha de paus intercalada por sacos de plástico e garrafas e sei lá mais o quê. Escusado será dizer que num piscar de olhos também já tinha uma bela fogueira.

 Ignorando o cheiro, pus-me a cortar as coisas na tampa do tupperware e começaram a aparecer uns grilos com umas antenas gigantes que não me deixavam em paz! Malditas coisinhas saltavam para dentro de tudo sem medo nenhum! Até para dentro do arroz eles saltavam e depois tinha que os tirar todos mortos e molhados e cozidos. No final o arroz não ficou nada de especial porque ficou muito aguado.



 A primeira noite foi um pouco estranha, os pés doíam e o barulho do rio estava perto demais para o meu gosto. Também se ouvia um ou outro kitoli (uma corujinha endémica) que tem um assobio bastante triste. Como a comida estava toda lá fora acho que passei a noite em estado de alerta não fossem os porcos descobri-la e comê-la primeiro que eu...





 E pronto, amanhã (se a net o permitir) haverá a continuação!