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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Bemposta

A senhora Basilia pede-me sempre coisas mas até hoje tenho-me
 conseguido escapar com umas graçolas.
 "Não tenho arroz mas venho carregado de boa disposição." Disse-lhe
 eu. Sempre que a senhora se ri, eu sinto que já ganhei o dia.
 O regresso às dez comunidades começou hoje com a visita à Bemposta. Estava um tempo terrível, com chuva e frio como eu já me tinha esquecido mas isso só fez as pessoas estarem mais unidas e acolhedoras.
 Visitar uma comunidade é algo que eu recomendo vivamente mas é preciso ter atenção a um facto muito importante: Entrar numa comunidade em São Tomé é o mesmo que entrar directamente na sala quando uma família muito grande está presente. Deve ser feito com respeito e consideração.
 Felizmente que como já fiz isto umas quantas vezes já me habituei a todos os olhares que gritam "quem é o branco...?" mas lembro-me perfeitamente que da primeira vez só sentia que não era bem vindo e que me devia era ir embora e depressa!
 Acho que as regras de conduta são as mesmas que em qualquer lugar. Sejam bem-educados, falem abertamente com a primeira pessoa que virem à frente, nem que seja apenas para cumprimentar. Mandem abaixo aquela barreira desconfortável com um sonoro "Olá, tudo fixe?" e um grande sorriso e pronto, é tudo o que é preciso para serem bem recebidos em qualquer lado.

Zu, a mulher do Nity, um dos assistentes do projecto. Está à porta da cozinha e ao lado está o galinheiro.
  As comunidades em São Tomé oferecem algo que sinto que se está a perder completamente no nosso mundo. Não é uma coisa palpável certamente, nem sequer uma experiência excitante. É algo extremamente simples e profundo. Uma espécie de sensação de pertença que só senti no Egipto mas para isso tive que lá viver quatro meses. Basta sentar-nos ao lado de alguém, com o rabo no cimento sujo e molhado que isto a que me refiro começará a surgir aos poucos - mas é preciso estarem bem atentos... Se só virem sujidade e "miséria" isto de que estou a falar vai passar-vos completamente ao lado... Eles brincam uns com os outros, gozam, provocam-se, conhecem-se tão bem como irmãos... e muitos são mesmo família... acho que a coisa a que me refiro é a facilidade de aceitar um estranho no seu meio. Acho que é isso que verdadeiramente distingue estas pessoas.

Calacha Vs Jiló
 Eu venho carregado de boa disposição mas também trago um tabuleiro de xadrez! Desde a segunda volta às comunidades que tenho dedicado boa parte do meu tempo a ensinar toda a gente (especialmente os mais novos) a jogar xadrez. Faço isto porque acredito que é a melhor forma de evitar que os miúdos queimem o seu tempo a caçar os vizinhos passaritos ao mesmo tempo que os ajuda a puxarem pela cabeça e a formarem planos.




 Não venham a São Tomé sem visitar umas quantas comunidades e quando as visitarem, saiam do carro e falem com as pessoas. Sentem-se um pouco no chão, aceitem um pouco de vinho de palma, sem pressa, leve-leve, sintam o que vos rodeia que prometo que vão aprender alguma coisa e no final vão-se sentir realmente bem com a vossa decisão.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Corte de cabelo São Tomé style


 Hoje acabámos por não ir para o campo por isso o dia transformou-se num longo peddy-paper pela cidade. As tarefas eram tão variadas como encontrar um isqueiro (muito mais difícil do que parece!) ou ir pôr os recibos ao correio e no final a lista dizia que era dia de cortar o cabelo por isso assim fiz.







 O sítio escolhido foi este fantástico contentor na Avenida Água Grande. No interior já haviam duas pessoas a cortar o cabelo e umas quantas sentadas mas eles lá me arranjaram lugar nas traseiras (como se fosse muito grande!). 

 Lá dentro estava calor mas como as ventoinhas estavam ligadas nem se notava muito. Em cima das várias bancadas estava tanta tralha que era incrível eles conseguirem encontrar o que precisavam. Ainda assim, no meio daquilo tudo não consegui ver uma tesoura, só máquinas de cortar cabelo penduradas.

 - Pode ser corte com máquina? Pente quatro? - Perguntei, e o rapaz disse que sim e foi pedir ao companheiro a pecinha de plástico que lhe faltava.
  
 Passei mais tempo a tentar descobrir as diferenças entre os cortes de cabelo do poster do que a supervisionar o trabalho do rapaz mas no final até ficou bem. Aí perguntei-lhe quanto era e ele disse 50000 com um sorriso na cara. Eu disse que da ultima vez foi 30000 e ele baixou para 40000 mas eu continuei sisudo e consegui pagar só 30000 o que convertido dá pouco mais de 1€. Quando precisarem já sabem onde cortar o cabelo!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

- Bem-vindo Christoph!

 O despertador empurrou-me para fora da cama eram 5h15. Arrastei-me descoordenado e reconheci o bebé da Miriam no meu andar.
 Quando finalmente abri os olhos estava escuro, tinha uma tigela de Chocapic à frente e vinha uma colher na minha direcção. Apaguei-me outra vez e quando recuperei a consciência estava a conduzir pela baía Ana Chaves a uma velocidade responsável dado o meu estado. Hoje era dia de ir buscar o Christoph, o professor que vem cá ajudar com a parte de dispersão de sementes do projecto.

 O Aeroporto Internacional de São Tomé e Príncipe... um rectângulo cinzento inacabado... dantes havia alcatrão à frente mas como agora decidiram construir um toldo à frente do letreiro, transformaram tudo num enorme monte de pedras e buracos.
 Sento-me por aí, está tudo em pé com as expectativas e os nervos. Acho que era suposto estar como eles mas estou com demasiado sono para isso.

 Um ruído assusta os falcões que estavam na pista a apanhar sol. Olho para cima, para lá do Sol e vejo o avião a passar, enorme e branco, como uma nave espacial vinda de outro mundo muito diferente deste.
 A fila de brancos que já estava ali à frente espera fica nervosa e começa a empurrar-se até desaparecer  toda de uma vez.
 Quando o ruído regressa já está tudo agarrado às grades para ver a nave aterrar mas eu continuo a escrever no telemóvel usando uma parte do cérebro que certamente não controlo.

 Lá ao fundo o gang de freiras encosta-se à parede enquanto vê os vendedores atirarem-se com unhas e dentes à ultima oportunidade de vender alguma coisa aos turistas que estão de partida. Trazem cestos de vime, colares de sementes brancas, cinzentas, pretas e vermelhas e ainda bouquets de rosas de porcelana.

 Os troleys de metal são arrastados pelo meio das pedras e buracos, coisinhas tão tortas que até dão pena, as rodas todas lixadas de muitos anos de serviço. Eles bem se queixam, qualquer um consegue ouvir a barulheira, mas acho que só eu é que me importo.

 Mais pessoas vão chegando e subitamente reparo que ninguém está a fumar. Deve ser do leve-leve... mas ah! Falei cedo demais... está ali um tipo mascarado de Zezé Camarinha a fumar.
 Acho que vir buscar pessoas ao aeroporto é a melhor forma de sentir que já cá estou há bastante tempo. Os outros vão, mas eu fico. Olha! Já há pessoal a sair pela porta das Chegadas... toca de levantar, sacudir o pó e as formigas e ir guardar lugar na fila.

 ...Enquanto estou aqui em pé a apreciar o ar confuso e inseguro dos brancos relembro o dia em que eu e a Ana passámos por aquelas mesmas portas. Tantos olhos, o calor, os cheiros... olha! Aí vem ele!

 - Oi! Sim! Bem-vindo!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Conduzindo pela noite a dentro

 Ontem foi mais uma noite de caça aos sapos, desta vez na zona de Java. Eu e a Rayna partimos sem grandes indicações - procurar e apanhar sapos a 500m de altitude - mas quando chegámos ao sítio só havia estrelas, grilos e casas com a luz apagada. Como não queríamos estar a acordar ninguém com um pedido tão ridículo como "onde é que está o rio? Temos que ir apanhar sapos..." acabámos por ter que procurar sozinhos.
 Conduzindo lentamente, com a cabeça fora da janela, avançávamos pela noite a dentro. Passei mais tempo a olhar para cima do que para a estrada... estava um céu estrelado completamente fora deste mundo e o vento fresco e húmido trazia-me um sorriso que dava que pensar: "quem me dera que fosse sempre assim, simples, receber um convite e ir para o campo à procura de sapos".
 O jipe avançava ruidosamente, pisando as pedras debaixo dos pneus, abocanhando as borboletas atraídas pela luz, curva e contracurva, assim foi dançando pela noite a dentro.
 No final não conseguimos apanhar rigorosamente nada (imagino que os sapos não se importem) mas deixo-vos esta fotografia pensada por mim e concretizada pela Rayna mais o seu frontal absurdamente potente.


domingo, 15 de abril de 2012

- "Shut up and take my blood!"


 Eram 3:20 quando tudo começou, um zumbido irritante tão perto da minha cara que lhe sentia a agitação no ar. Face punch! …nada… o zumbido continuou e separou-se em dois… Punch! Punch…! PUNCH!!!

 Nada… *suspiro* ok… tinha que me levantar, ir buscar o frontal e dar início à caçada!

Gotta Kill 'Em All!!!

…Mas, tal como no Pokemon, a missão parecia impossível… havia os mais fáceis de matar, os que se escondiam e só se mostravam quando estava escuro, os que precisavam de técnicas para os fazer sair debaixo da cama e de dentro do armário… não sei dizer quantos matei mas o zumbido garantia-me que não tinha sido o suficiente…

 Eram 3:50 quando as pilhas do frontal começaram a fraquejar… a escuridão começava a cercar-me e como monstros espicaçados pelo meu próprio medo, eles rastejaram para fora das reentrâncias… O zumbido conjunto de um milhão de asas aproximava-se, cada vez mais perto… Em pânico agarro na única arma que tinha!

- Não se aproximem ou eu juro que encho esta merda toda de repelente!!

Mas as minhas palavras não tiveram efeito, a sede cegava-lhes a razão, por isso continuaram a aproximar-se... Só me restava fazer uma coisa!

 Eram 4:00 quando a luz morreu e a minha esperança foi-se com ela.

- Shut up and take my blood! – Gritei, desesperado, ao senti-los por todo o lado, sedentos, mas sem poderem poisar devido à maldição que invoquei sobre mim!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O preço do conhecimento

 A maioria das vezes que um biólogo retira amostras, fá-lo à custa do ser vivo que está a estudar. "Não tem mal" dizemos nós, "o conhecimento beneficiará a conservação da espécie..." ou ainda, "o conhecimento beneficiará o ser humano." Mas quem se lixa é certamente o bicho que ficou sem um bocado da cauda, da barbatana, sem um dedo, ou pior, sem a vida.
 Há uns meses atrás acompanhei uma pequena equipa de investigadores numa saída de campo. O seu método de recolha de amostras envolvia contratar um ou vários caçadores, providenciá-los com cartuchos de espingarda e depois segui-los de perto pela floresta enquanto esperavam que eles caçassem macacos (espécie invasora na ilha). Claro que a experiência foi tão aterradora como enriquecedora.
 Aterradora porque para alguém como eu que sente nos ossos o sofrimento animal, ver um macaquito a levar com uma chumbada nas costas, cair de uma altura de dez metros em cima das pedras mais pontiagudas que a mãe-Terra tem para oferecer - e sobreviver, só para depois levar com uma pedrada na cabeça e ainda assim tentar arrastar-se para longe dali foi algo verdadeiramente destrutivo tanto física como emocionalmente...
 Enriquecedora porque me deixou a pensar bastante na injustiça revoltante que é ser-se um bicho invasor. Sim! Ninguém faria isto a macacos endémicos de certeza, mas aqui... nem as mães com os bebés eram poupadas.
 Um aviso sincero para todos os animais ditos invasores que acompanham este blog:
 Se nasceste fora da tua terra natal oh pah... foge, mas foge para longe porque os biólogos vão arranjar maneira de te lixar a vida!
 E tanto sofrimento para quê? Vi uma familia inteira de macacos a atirar-se de um penhasco só para fugir aos caçadores... e para quê? A justificação que permitia os investigadores dormirem à noite era que tudo aquilo servia para compreender melhor o comportamento do vírus da SIDA e assim talvez, algum dia, com bastante sorte, poderia apontar na direcção de uma cura. O irónico é que eles próprios diziam que a melhor forma de combater o virus já se conhecia e era fazendo sensibilização junto das comunidades mais pobres e facultar preservativos gratuitos. Barato, simples e fácil. Mas dar coisas grátis nunca rendeu milhões a ninguém, por isso os macacos têm que sofrer.
 Estou aqui a escrever isto e sinto-me tão hipócrita como eles se devem ter sentido porque afinal de contas tenho aqui um sapinho que apanhei para os investigadores norte-americanos usarem nos seus estudos. Só espero que os americanos não exijam tanto dele como os outros exigiram dos macacos...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Na cidade

 Motas, taxis e hiaces tão sobre-lotados como apressados e pessoas a correr à frente deles enquanto tentam atravessar a estrada cheia de poças e buracos.
 Cheiro a fumos e poluição em todas as suas vertentes mais variadas.
 As pessoas falam muito e muito alto, todas extremamente expressivas dentro e fora dos carros, onde têm que se cumprimentar com as buzinas.
 Mulheres desfilam nas ruas enroladas em tecidos coloridos, carregando na cabeça alguidares de fruta e nas costas, embrulhados em mais tecido, bebés gordinhos de pernas abertas e cabeça pendurada.
 – Psss, branco, branco! – Chamam os motoqueiros.
 – Não obrigado.
 – Branco. Branco. – Chamam as mulheres da fruta.
 A t-shirt toda colada nas costas e sarapintada com manchas de suor no peito. As mãos sentem-se, humedecidas. “Preciso de outro duche.”
 Os passeios todos rebentados e com pequenas selvas a brotar nos lugares mais incríveis. Cabras a passar ao lado do Palácio do Governador e cães totalmente esqueléticos a tentar saltar para dentro dos contentores do lixo.
 Passarinhos minúsculos azuis, vermelhos e castanhos que nos prendem o olhar e levam-nos a atenção quando levantam voo. 
 Centenas de miúdos a vir da escola todos de uniforme, brincando uns com os outros, pegando nas réguas como se fossem machins, enquanto uns poucos ficam por aí a fazer tempo enquanto puxam charocos do canal conspurcado da cidade.
 À noite, galos e cães que parecem revezar-se para poderem fazer barulho sem nunca pararem  e as formigas que entram e saem do teclado do portátil enquanto escrevo isto.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sol e simplicidade

 Acordei sobressaltado, a chuva batia forte nas portadas fechadas da janela e o telemóvel esqueceu-se que  me devia ter acordado há uma hora atrás. Hoje era dia de campo... telefono ao Gabriel e pela gritaria percebo que na zona dele (onde iam ser as contagens) está bem pior por causa do vento... "ok, paciência, isto tem dias assim."
 A ideia que fez nascer o post de hoje é simples. E por isso espero conseguir colocá-la simplesmente assim:

 Há um ano atrás estava eu no deserto do Sinai a fazer trabalho de campo e num dia gélido e seco como os outros o Huarib (um beduíno que me ajudava) convidou-me para almoçar com ele e a família. Isto não foi nada de mais, já tinha acontecido antes. Mas o que me marcou profundamente foi quando nos sentámos lá fora em frente à casa dele. Não havia bancos nem cadeiras, apenas pedras frias e ásperas, mas num pequeno cantinho mais acolhedor o Sol decidiu abençoar-nos com calor que, apesar das aparências, era raro e precioso naquela altura do ano. A mulher sentou-se connosco e os filhos também. Os mais pequenos brincavam com pedras e bocados de lixo enquanto o Huarib e a mulher falavam e riam abertamente enquanto o Sol nos aquecia a cara. Eu só pude fechar os olhos e sorrir humildemente perante aquela lição. Foi simplesmente isso.
 "Esta gente não tem nada." Pensei eu. "Não têm carro, a casa é um monte de pedras, dormem no chão, estamos todos a comer da mesma tijela torta com colheres tortas que mal devem ter sido lavadas porque a água é tão escassa, mas olha para eles, bastou um pouco de sol para ficarem felizes..."
 A mensagem era esta, espero que tenham conseguido sentir pelo menos parte do que eu queria transmitir e se conseguirem fazer algum tipo de comparação com as vossas vidas, tanto melhor, porque eu certamente que fiz.



 Já agora, se tiverem tempo e curiosidade vejam este blog de um casal de Portugueses que eu tive a honra de conhecer no Sinai: http://www.2numundo.com/
 Resumindo ao máximo a sua aventura épica, eles estão a viajar de bicicleta desde Portugal até Macau. É isso mesmo. Espero que a história deles possa inspirar alguns de vocês a fazer o mesmo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Magia oculta

Restos de um ritual na cascata Bombaim
 Se a magia existe nos olhos de quem a vê, São Tomé está cheio dela. Há uns meses atrás o Gabriel contou-me que dantes havia pelo menos um feiticeiro em cada comunidade e que quando havia mais do que um, eles costumavam desafiar-se em batalhas até à morte a fim de decidirem qual era o mais poderoso. Ele contou-me que essas batalhas eram terríveis e acabavam muitas vezes na morte de um deles. Não sei se é verdade mas o que sei é que quase já não se vêem feiticeiros. (devem ter-se matado todos!)  
 Apesar disso, a magia continua bem enraizada na cultura Sãotomense. Por exemplo, um dos tratamentos para o mau olhado envolve um banho de folhas recolhidas da floresta.
 Numa conversa que tive hoje com uma médica portuguesa fiquei a saber que existem muitos mais rituais como este ligados à gravidez. Por exemplo:
 Depois do parto, a mulher beber 5L de vinho tinto para repor o sangue que perdeu.
 Dar ao bebé uma poção feita com várias bebidas alcoólicas para o purificar.
 Lavar o bebé no tal banho de folhas. Imagino que como estes, devam haver tantos outros rituais e também acredito que em alguns deles pode muito bem haver um verdadeiro benefício medicinal; nomeadamente nos que envolvem cascas de árvore ou folhas. A fotografia é apenas uma cena que encontrámos na cascata Bombaim. Haviam velas derretidas, flores, arroz, açucar, um copo de suminho e uns bolos. Devia ser magia branca.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Hello to you too, Bob Drewes!

 Como os verdadeiros biólogos bosses estão fora de São Tomé eu fui posto em contacto com uma equipa de investigadores da California Academy of Sciences no seu lugar. Isto levou-me numa curta viagem ao Omali, o hotel mais caro (pelo menos a comida é - 10€ por um hamburguer!? Auch!) do país e aí tive o privilégio de conhecer uns senhores verdadeiramente fantásticos (e de almoçar à borla! Yeahee!)
 Num segundo estava na recepção a puxar do telemóvel para ver se me tinha atrasado (não). No instante seguinte estava a distribuir apertos de mão e sorrisos a todos os que me olhavam na cara! Apertaíubacalhau oh simpático senhor do bar!...            Ok, talvez não tanto... mas então, o Bob e a sua equipa já cá vieram umas poucas vezes e ao que parece sempre que poisam na ilha regressam com espécies novas para a ciência! Assim do nada!
- Aquele sapo?
- Era novo.
- E então este escaravelho?!
- Novo!
- Não me vais dizer que aquele peixe....
- Tudo novo! ...Mwahaha!

 A equipa dele tinha um senhor especialista em musgos, outro em líquenes, outro em peixes, um fotografo para documentar tudo e um sexto que nem cheguei a perceber o que fazia mas todos eles extremamente vibrantes, curiosos e desejosos por explorar a ilha! ... adorei estar lá com eles porque serviu para relembrar a minha própria paixão pela natureza. Quando se passa demasiado tempo em casa até parece que nos esquecemos do porquê de estarmos tantas vezes longe de casa a fazer isto... Mas então, basicamente adorei conhecer o senhor e fiquei com a sensação que ele também gostou de me conhecer. Senti que tínhamos imenso em comum (não fosse ele ter dito que havia mais gente como nós do que eu poderia pensar... "nós" = weee! ^^). Ele e os colegas são tudo malta aventureira que embora já tenham uma certa idade (segundo ele, são velhos) são extremamente alegres, barulhentos e fáceis de fazer amizade - como todos os americanos costumam ser, aliás! Como as coisas no projecto estão meio paradas - só temos que fazer contagens de frutos para estimar a sua abundância e disponibilidade para os pombos florestais - em principio irei com eles para o mato para lhes facilitar as comunicações e também para os ajudar a encontrar o que precisam com a ajuda dos assistentes de campo do projecto.

 Já agora, ele tem um super blog (como eu gostava que este um dia fosse!) por isso se tiverem tempo checkem-no! Tem muitas fotos bonitas...


sábado, 31 de março de 2012

Earth Hour Is Tonight!‏

 Earth Hour Is Tonight!‏ Ou pelo menos foi o que a Internet me contou. Se não fosse ela, juro que não saberia.
 Só posso dizer como acho incrível e inacreditável a diferença de realidades... Num canto do mundo pessoas ricas são incentivadas a desligarem a luz durante uma hora para reduzir as emissões, poupar recursos e para transmitir uma mensagem de consciência global ambiental. No outro canto do mundo pessoas pobres passam todas as noites às escuras e os candeeiros de petróleo são a única luz que se vê debaixo da Lua e das estrelas. Este é o canto onde crianças percorrem todos os dias vários quilómetros debaixo da escuridão total só para regressarem a casa depois de um dia de escola. 

Candeeiro de petróleo feito a partir de uma lata de Sumol. 

Há pelo menos uma coisa que é igual aqui e em qualquer outro lado do mundo. Jantar à luz das velas é sempre mais romântico ;)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Peripécias em Ponta Furada


 Um dos trabalhinhos do projecto envolve estimar abundância de frutos e foi isso que fomos fazer debaixo de um céu opaco e negro que nos ameaçava esmagar a qualquer momento. Como foi um dia interessante, deixo aqui os pontos altos:

 Ia eu a conduzir e a contar teatralmente o terceiro capitulo do meu livro (falo dele noutra altura) quando uma rocha caiu da encosta e esmagou-se mesmo à frente do carro! Travei de repente, não a consegui evitar e amassei a parte debaixo... ai se estivesse 5m à frente quando a pedra caiu... Claro que depois saímos do carro para a rebolar para fora da estrada caminho porque tinha caído numa curva e o pessoal aqui vai sempre lançado.

 Nas redondezas da entrada para Santa Jenny vi que estavam lá sentadas as pessoas que entrevistámos há bem pouco tempo (outra componente do projecto) por isso todos esticámos os braços de fora das janelas e atirámos-lhes cumprimentos e sorrisos de volta. Como eles continuaram a acenar, parámos para dar boleia ao Tchuco, ao Admin, e ao Cotacadela. A coisa irónica disto tudo foi que da última vez que estivemos em Santa Jenny, o Admin e o seu padrasto Cotacadela tiveram uma desavença que acabou em machin! (machin é uma catana) Felizmente que não houve feridos graves mas agora tudo estava belo e amarelo e ninguém adivinharia a gritaria que se havia passado naquela noite! Eu certamente que não!


 Chegámos a Ponta Furada e passámos por baixo das majestosas figueiras que teríamos que contar. Havia uma árvore em particular que estava a produzir tanto figo que ele estava por todo o lado, pequenas bolas vermelhas decorando o caminho, boiando na vala de escoamento de água, perfumando o ar em redor.
 Como da ultima vez tínhamos comentado que ninguém em STP comia Figo Porco, eu decidi experimentar um mas o Nity depressa acrescentou que em vez de apanhar um do chão, mais valia esperar que um caísse... e não é que segundos depois de ele acabar a frase, caiu-me um figo porco mesmo à frente! Toca de ir lavar o gajinho na vala e dar uma trincadela para ver como era! 
 O figo nem é mau de todo, embora não seja especialmente doce, mas o chato foi ver imensas vespas minúsculas a fugirem pelo buraco da dentada por isso imagino que quando sorri de volta para eles devia estar bem jeitoso! As vespas que saíram são obviamente os polinizadores das inflorescências que os figos são por isso já devia estar à espera, mas enfim!

Regressámos à cidade para uma cervejita e um doce de coco e todo aquele céu preto decidiu que já estava na hora de brincar com os mortais cá de baixo. As pessoas no mercado gritavam, tudo a levantar as tralhas que estavam à porta, pessoas confusas de um lado para o outro, já completamente encharcadas e sem saberem se valia a pena continuar a correr, a água suja a cumular-se nos cantos, os carros a traçar as estradas lentamente como se fossem barcos enviando ondas castanhas para cima dos passeios, e nós ali a relaxar... até que também tivemos que sair e levar com ela. Certamente que não somos mais que os outros.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A chuva que lava o espírito

Como está a chover furiosamente e o calendário diz que eu vou para Ponta Furada estimar abundância de frutos (um trabalhinho que envolve estar parado, e olhar para cima, e escrever os resultados numa folha de papel extremamente precária), aproveito para falar um pouco das tempestades por estas paragens.

 A chuva não apanha ninguém de surpresa. O céu fica cinzento... sim, mas não é aquele cinzento conhecido, ah e tal, "será que vai chover?", não não... é mais um cinzento-escuro-oh-meu-deus-isto-vai-tudo-cairmencima!
 Começa assim, subtilmente, convidando qualquer ser vivo a voltar para a toca, e depois para quem não recebeu/percebeu a mensagem porque estava demasiado atarefado com a cabeça baixa nos seus afazeres terrenos, os Céus mandam um novo sinal.
 Um vento súbito e frio que estremece todas as árvores, abana as folhas e dobra as chapas nos telhados. Está para breve. É melhor já estares dentro de casa... E se estiveres, as portadas das janelas já estão a bater, as folhas da mesa já estão todas no chão, é melhor acenderes a luz porque subitamente ficou noite, mas na verdade o mais provável é que também isso não valha a pena porque já cortaram a luz... olhas apreensivo pela janela, um trovão rasga os céus, toda a casa é encandeada, as paredes estremecem e os cães ladram!

 Recomendo vivamente "tomar" uma grande tempestade de vez em quando. Os efeitos incluem e não estão limitados a:
  1. Humildade há muito perdida.
  2. Ligação com a Natureza.
  3. Fortalecimento dos laços com os ratinhos que estão abrigados no mesmo buraco que tu.
Combinei com os assistentes de campo do projecto, Nity e Gabriel, estarem cá às 7h00 para irmos para Ponta Furada. Ainda está a chover furiosamente... eles não chegaram...vamos lá ver!