domingo, 15 de abril de 2012

- "Shut up and take my blood!"


 Eram 3:20 quando tudo começou, um zumbido irritante tão perto da minha cara que lhe sentia a agitação no ar. Face punch! …nada… o zumbido continuou e separou-se em dois… Punch! Punch…! PUNCH!!!

 Nada… *suspiro* ok… tinha que me levantar, ir buscar o frontal e dar início à caçada!

Gotta Kill 'Em All!!!

…Mas, tal como no Pokemon, a missão parecia impossível… havia os mais fáceis de matar, os que se escondiam e só se mostravam quando estava escuro, os que precisavam de técnicas para os fazer sair debaixo da cama e de dentro do armário… não sei dizer quantos matei mas o zumbido garantia-me que não tinha sido o suficiente…

 Eram 3:50 quando as pilhas do frontal começaram a fraquejar… a escuridão começava a cercar-me e como monstros espicaçados pelo meu próprio medo, eles rastejaram para fora das reentrâncias… O zumbido conjunto de um milhão de asas aproximava-se, cada vez mais perto… Em pânico agarro na única arma que tinha!

- Não se aproximem ou eu juro que encho esta merda toda de repelente!!

Mas as minhas palavras não tiveram efeito, a sede cegava-lhes a razão, por isso continuaram a aproximar-se... Só me restava fazer uma coisa!

 Eram 4:00 quando a luz morreu e a minha esperança foi-se com ela.

- Shut up and take my blood! – Gritei, desesperado, ao senti-los por todo o lado, sedentos, mas sem poderem poisar devido à maldição que invoquei sobre mim!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O meu livro

 Por estas paragens sempre que é preciso ir ao Aeroporto buscar ou pôr alguém, isso envolve acordar cedo e assistir a um nascer do Sol verdadeiramente glorioso. Hoje foi um desses dias e quando regressei a casa aproveitei a minha pedrada de sono para recomeçar a avançar na escrita do meu livro (chamemos-lhe assim porque tenho receio de um dia acordar com os pés fora da cama e mudar-lhe o nome novamente).
 Apesar das coisas do projecto que podiam ter sido adiantadas ao longo do dia, abateu-se sobre mim uma inércia cinzenta e esmagadora por isso acabei por não me conseguir levantar da cadeira - era mesmo pesada - Se ao menos tivesse chovido o dia inteiro para eu ter uma desculpa para não ter saído de casa… mas paciência.

 As sementes para este livro começaram a crescer algures na Selvagem Grande, uma das ilhas a Sul da Madeira. Desde aí que tenho andado a inspirar-me pelos sítios por onde passo e pelas pessoas que se vão cruzando no meu caminho e tenho convertido o que elas me oferecem em ideias que se adeqúem à história do livro.

 Deixo aqui uma mini introdução:

Depois de fugirem de um laboratório secreto, Ira, Sol e Syn prometem nunca se separar até recuperarem as vidas de que foram roubados. Mas na Antárctida do futuro, um rei tirano conspira secretamente contra a humanidade e eles vêem-se obrigados a lutar lado a lado com um grupo de rebeldes que o confronta nas sombras.”

 Como podem ver pelo mapa onde se vai passar a maior parte da acção, as previsões são bastante pessimistas para as consequências do aquecimento global e por isso o clima assemelhar-se-á ao Alasca dos dias de hoje.

 Não quero revelar demasiado mas posso adiantar que as personagens principais têm "poderes", mas não é nada como a típica história de super-heróis norte-americanos que têm que esconder a sua identidade por trás de uma máscara. Aqui eles querem apenas encontrar o seu lugar de volta na sociedade embora o destino pareça estar sempre a pregar-lhes partidas e a atirá-los para situações de perigo onde eles se vêem forçados a tomar decisões difíceis.

 Claro que um dia adoraria ver as minhas ideias impressas num livro gordinho e de preferência gostava de o ver à venda numa papelaria qualquer, mas sinto que ainda falta muita dedicação para ele estar tão bom como eu gostava que estivesse... daqui a uns anos talvez o vejam por aí! Quem me dera!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

À caça de sapos

Phrynobatrachus leveleve
 Fui acompanhar os norte-americanos numa curta saída nocturna na zona da Bemposta. O objectivo era "recolher" uns sapinhos de uma certa espécie para estudar uma possível hibridação.
 Vimos bastantes indivíduos da espécie P. leveleve cujo nome foi obviamente escolhido a pensar no dizer e estilo de vida Sãotomense.





Hyperolius molleri


 Mas o que eles precisavam realmente era este menino. No total apanhámos 11 bixos que foram parar aos sacos de plástico e por esta altura já devem ter tido um encontro próximo com uma dose elevada de um produto que os fará dormir...
Ovos de Hyperolius molleri
 Apesar de todos sabermos que o que estávamos a fazer ia resultar na morte de uma data de sapos, é inegável a excitação que vem associada a andar à noite à caça destes pequenotes! 



Quem tem os olhinhos mais queridos, quem é?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O preço do conhecimento

 A maioria das vezes que um biólogo retira amostras, fá-lo à custa do ser vivo que está a estudar. "Não tem mal" dizemos nós, "o conhecimento beneficiará a conservação da espécie..." ou ainda, "o conhecimento beneficiará o ser humano." Mas quem se lixa é certamente o bicho que ficou sem um bocado da cauda, da barbatana, sem um dedo, ou pior, sem a vida.
 Há uns meses atrás acompanhei uma pequena equipa de investigadores numa saída de campo. O seu método de recolha de amostras envolvia contratar um ou vários caçadores, providenciá-los com cartuchos de espingarda e depois segui-los de perto pela floresta enquanto esperavam que eles caçassem macacos (espécie invasora na ilha). Claro que a experiência foi tão aterradora como enriquecedora.
 Aterradora porque para alguém como eu que sente nos ossos o sofrimento animal, ver um macaquito a levar com uma chumbada nas costas, cair de uma altura de dez metros em cima das pedras mais pontiagudas que a mãe-Terra tem para oferecer - e sobreviver, só para depois levar com uma pedrada na cabeça e ainda assim tentar arrastar-se para longe dali foi algo verdadeiramente destrutivo tanto física como emocionalmente...
 Enriquecedora porque me deixou a pensar bastante na injustiça revoltante que é ser-se um bicho invasor. Sim! Ninguém faria isto a macacos endémicos de certeza, mas aqui... nem as mães com os bebés eram poupadas.
 Um aviso sincero para todos os animais ditos invasores que acompanham este blog:
 Se nasceste fora da tua terra natal oh pah... foge, mas foge para longe porque os biólogos vão arranjar maneira de te lixar a vida!
 E tanto sofrimento para quê? Vi uma familia inteira de macacos a atirar-se de um penhasco só para fugir aos caçadores... e para quê? A justificação que permitia os investigadores dormirem à noite era que tudo aquilo servia para compreender melhor o comportamento do vírus da SIDA e assim talvez, algum dia, com bastante sorte, poderia apontar na direcção de uma cura. O irónico é que eles próprios diziam que a melhor forma de combater o virus já se conhecia e era fazendo sensibilização junto das comunidades mais pobres e facultar preservativos gratuitos. Barato, simples e fácil. Mas dar coisas grátis nunca rendeu milhões a ninguém, por isso os macacos têm que sofrer.
 Estou aqui a escrever isto e sinto-me tão hipócrita como eles se devem ter sentido porque afinal de contas tenho aqui um sapinho que apanhei para os investigadores norte-americanos usarem nos seus estudos. Só espero que os americanos não exijam tanto dele como os outros exigiram dos macacos...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Na cidade

 Motas, taxis e hiaces tão sobre-lotados como apressados e pessoas a correr à frente deles enquanto tentam atravessar a estrada cheia de poças e buracos.
 Cheiro a fumos e poluição em todas as suas vertentes mais variadas.
 As pessoas falam muito e muito alto, todas extremamente expressivas dentro e fora dos carros, onde têm que se cumprimentar com as buzinas.
 Mulheres desfilam nas ruas enroladas em tecidos coloridos, carregando na cabeça alguidares de fruta e nas costas, embrulhados em mais tecido, bebés gordinhos de pernas abertas e cabeça pendurada.
 – Psss, branco, branco! – Chamam os motoqueiros.
 – Não obrigado.
 – Branco. Branco. – Chamam as mulheres da fruta.
 A t-shirt toda colada nas costas e sarapintada com manchas de suor no peito. As mãos sentem-se, humedecidas. “Preciso de outro duche.”
 Os passeios todos rebentados e com pequenas selvas a brotar nos lugares mais incríveis. Cabras a passar ao lado do Palácio do Governador e cães totalmente esqueléticos a tentar saltar para dentro dos contentores do lixo.
 Passarinhos minúsculos azuis, vermelhos e castanhos que nos prendem o olhar e levam-nos a atenção quando levantam voo. 
 Centenas de miúdos a vir da escola todos de uniforme, brincando uns com os outros, pegando nas réguas como se fossem machins, enquanto uns poucos ficam por aí a fazer tempo enquanto puxam charocos do canal conspurcado da cidade.
 À noite, galos e cães que parecem revezar-se para poderem fazer barulho sem nunca pararem  e as formigas que entram e saem do teclado do portátil enquanto escrevo isto.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ohh cacaoo!

Uma das poucas músicas que passa aos altos berros dentro das hiaces - carrinhas amarelas que avançam furiosamente pelas estradas esburacadas de São Tomé. Parte da letra é em forro, um dos dialectos locais.


"Ohh cacaoo, no molê
Oh cacaoo, no molê
Quaquedalaê, no molê
Quaquedalaê, no molê (...)"

 Tenho (quase) a certeza que está tudo mal escrito mas a mensagem é algo semelhante a: Ai caraças! Vamos morrer. Que é que aconteceu?!

 E assim me despeço com a fantástica fotografia do jipe do projecto.


 A equação fui eu que escrevi. A marca Mitsubisih pertence a outro artista qualquer.

sábado, 7 de abril de 2012

Subida até à Lagoa Amélia

 Finalmente consegui acompanhar a equipa de taxonomistas norte-americanos numa curta saída de campo. O objectivo inicial era espalhar a mensagem que eles precisam de encontrar um sapo em particular na zona de Monte Café por isso servi de tradutor e, com a ajuda do Gabriel, (local e assistente do projecto dos pombos) converti a necessidade deles em acção. Imagino que nos próximos dias as criancinhas de Nova Moka redescobrirão a maioria dos charcos e poças da zona.

O interior cavernoso de uma figueira estranguladora. Estas maravilhas basicamente germinam no topo de outra árvore e crescem até cobrirem a hospedeira na totalidade, acabando por matá-la.


Hipposideros ruber
 Partindo do Jardim Botânico no Bom Sucesso (fica para outro post) em direcção à Lagoa Amélia encontrámos os imperdíveis fanaliche (morcegos) que se passeiam entre nós e muita da passarada endémica da ilha. É bastante fácil ouvir Papafigo e ver Zéguê e Tcholó.

 À medida que o grupo ia subindo e suando, escorregando e rindo, o Brian ia revirando troncos em busca da famosa cobra bobô, uma cecília endémica de São Tomé que apesar do nome, é um anfíbio completamente inofensivo.  Mas ao fim de umas quantas tentativas, o que  acabámos por encontrar foi esta fantástica minhoca gigante! A sério, a coisa quando começou a fugir tinha à vontade o comprimento da minha mão! 

Viscoso mas gostoso
Cobra bobô - Schistometopum thomense





Ai ai, que fantástico exemplo de evolução convergente - por serem sujeitos a pressões evolutivas semelhantes, bixos com passados evolutivos distintos adquirem formas semelhantes.

Caminho em direcção à Lagoa Amélia
Begónia gigante, a maior do mundo e ainda por cima um
 endemismo São-tomense









Cratera da Lagoa Amélia vista dos bancos

  Até que finalmente chegámos até à Lagoa Amélia (uma antiga cratera vulcânica completamente coberta de vegetação). Existe um caminho até lá a baixo que podem tomar. Vá lá, se já subiram isto tudo bem que podem continuar e ver a "lagoa" mais de perto! Mas atenção, quando lá chegarem tenham cuidado com os pés porque apesar das aparências, ela ainda é funda. Não queiram acabar como a Amélia...





Cratera da lagoa Amélia


E para terminar em beleza, uma feliz Páscoa para todos!






quinta-feira, 5 de abril de 2012

Estranho regurgito de ideias


 Hoje está a ser um dia estranho (talvez por ter passado mais do que uma hora a estimar o número de frutos de um Pau cabra) e como não estou a conseguir sair desta estranheza, acho que o melhor é transportá-la para o post. É o mínimo que posso fazer. Ou seja, em vez de este ser um post bem estruturado com uma mensagem bem pensada, vai ser apenas um amontoado de sentimentos e ideias isoladas. Se mo permitem, aqui vai:

- "Vinte euros... ok, mas... e isso dá quanto em dobras?!"
A necessidade de fazer a conversão conseguiu finalmente convencer-me que já cá estou há bastante tempo.

 Andar atrás de alguém num caminho enlameado na floresta e ver que a pessoa da frente ficou com o pé preso numa trepadeira que se soltou. Mas, como disse, a trepadeira soltou-se por isso a pessoa agora anda a passear um enorme enrolado de folhas irritantes! O que fazer, o que fazer? Digo-lhe e revelo-me como uma pessoa excessivamente preocupada com pormenores? Não digo e tento pisar a trepadeira sem a outra pessoa notar? E se ela repara que estou a tentar igualar a minha passada à dela? O melhor talvez seja... ok, já saiu.

 O pau cabra tinha 113819 frutos. Juro que não estou a gozar.

 Oitenta por cento das vezes que dou boleia a estranhos acabo sem querer a falar no mau estado das estradas ou na "sempre inesperada e invulgar chuva de ontem."

 Cortei dedinhos de rolas mortas e meti-os em frasquinhos de etanol para fazer análises de DNA. Memo cena à bruxo, só não ponho aqui a fotografia que tirei (tinha que tirar) porque seria a confirmação que sou maluco.

 Quando me virem muito calado a olhar para os vossos bebés, é porque estou a olhá-los com os mesmos olhos curiosos e intrigados que uso para comportamento animal.


 Obrigado e boa noite.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sol e simplicidade

 Acordei sobressaltado, a chuva batia forte nas portadas fechadas da janela e o telemóvel esqueceu-se que  me devia ter acordado há uma hora atrás. Hoje era dia de campo... telefono ao Gabriel e pela gritaria percebo que na zona dele (onde iam ser as contagens) está bem pior por causa do vento... "ok, paciência, isto tem dias assim."
 A ideia que fez nascer o post de hoje é simples. E por isso espero conseguir colocá-la simplesmente assim:

 Há um ano atrás estava eu no deserto do Sinai a fazer trabalho de campo e num dia gélido e seco como os outros o Huarib (um beduíno que me ajudava) convidou-me para almoçar com ele e a família. Isto não foi nada de mais, já tinha acontecido antes. Mas o que me marcou profundamente foi quando nos sentámos lá fora em frente à casa dele. Não havia bancos nem cadeiras, apenas pedras frias e ásperas, mas num pequeno cantinho mais acolhedor o Sol decidiu abençoar-nos com calor que, apesar das aparências, era raro e precioso naquela altura do ano. A mulher sentou-se connosco e os filhos também. Os mais pequenos brincavam com pedras e bocados de lixo enquanto o Huarib e a mulher falavam e riam abertamente enquanto o Sol nos aquecia a cara. Eu só pude fechar os olhos e sorrir humildemente perante aquela lição. Foi simplesmente isso.
 "Esta gente não tem nada." Pensei eu. "Não têm carro, a casa é um monte de pedras, dormem no chão, estamos todos a comer da mesma tijela torta com colheres tortas que mal devem ter sido lavadas porque a água é tão escassa, mas olha para eles, bastou um pouco de sol para ficarem felizes..."
 A mensagem era esta, espero que tenham conseguido sentir pelo menos parte do que eu queria transmitir e se conseguirem fazer algum tipo de comparação com as vossas vidas, tanto melhor, porque eu certamente que fiz.



 Já agora, se tiverem tempo e curiosidade vejam este blog de um casal de Portugueses que eu tive a honra de conhecer no Sinai: http://www.2numundo.com/
 Resumindo ao máximo a sua aventura épica, eles estão a viajar de bicicleta desde Portugal até Macau. É isso mesmo. Espero que a história deles possa inspirar alguns de vocês a fazer o mesmo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Magia oculta

Restos de um ritual na cascata Bombaim
 Se a magia existe nos olhos de quem a vê, São Tomé está cheio dela. Há uns meses atrás o Gabriel contou-me que dantes havia pelo menos um feiticeiro em cada comunidade e que quando havia mais do que um, eles costumavam desafiar-se em batalhas até à morte a fim de decidirem qual era o mais poderoso. Ele contou-me que essas batalhas eram terríveis e acabavam muitas vezes na morte de um deles. Não sei se é verdade mas o que sei é que quase já não se vêem feiticeiros. (devem ter-se matado todos!)  
 Apesar disso, a magia continua bem enraizada na cultura Sãotomense. Por exemplo, um dos tratamentos para o mau olhado envolve um banho de folhas recolhidas da floresta.
 Numa conversa que tive hoje com uma médica portuguesa fiquei a saber que existem muitos mais rituais como este ligados à gravidez. Por exemplo:
 Depois do parto, a mulher beber 5L de vinho tinto para repor o sangue que perdeu.
 Dar ao bebé uma poção feita com várias bebidas alcoólicas para o purificar.
 Lavar o bebé no tal banho de folhas. Imagino que como estes, devam haver tantos outros rituais e também acredito que em alguns deles pode muito bem haver um verdadeiro benefício medicinal; nomeadamente nos que envolvem cascas de árvore ou folhas. A fotografia é apenas uma cena que encontrámos na cascata Bombaim. Haviam velas derretidas, flores, arroz, açucar, um copo de suminho e uns bolos. Devia ser magia branca.