sexta-feira, 27 de abril de 2012

Corte de cabelo São Tomé style


 Hoje acabámos por não ir para o campo por isso o dia transformou-se num longo peddy-paper pela cidade. As tarefas eram tão variadas como encontrar um isqueiro (muito mais difícil do que parece!) ou ir pôr os recibos ao correio e no final a lista dizia que era dia de cortar o cabelo por isso assim fiz.







 O sítio escolhido foi este fantástico contentor na Avenida Água Grande. No interior já haviam duas pessoas a cortar o cabelo e umas quantas sentadas mas eles lá me arranjaram lugar nas traseiras (como se fosse muito grande!). 

 Lá dentro estava calor mas como as ventoinhas estavam ligadas nem se notava muito. Em cima das várias bancadas estava tanta tralha que era incrível eles conseguirem encontrar o que precisavam. Ainda assim, no meio daquilo tudo não consegui ver uma tesoura, só máquinas de cortar cabelo penduradas.

 - Pode ser corte com máquina? Pente quatro? - Perguntei, e o rapaz disse que sim e foi pedir ao companheiro a pecinha de plástico que lhe faltava.
  
 Passei mais tempo a tentar descobrir as diferenças entre os cortes de cabelo do poster do que a supervisionar o trabalho do rapaz mas no final até ficou bem. Aí perguntei-lhe quanto era e ele disse 50000 com um sorriso na cara. Eu disse que da ultima vez foi 30000 e ele baixou para 40000 mas eu continuei sisudo e consegui pagar só 30000 o que convertido dá pouco mais de 1€. Quando precisarem já sabem onde cortar o cabelo!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Trabalho de campo

Está meio zarolho e tem a vareta partida mas isso
 só faz com que seja ainda mais eficaz a gerar
 sorrisos e a manter a esperança viva! 

  Hoje o dia começou bem cedinho. Havia muito que fazer tanto dentro como fora de casa mas os trovões que se ouviam ao longe não davam vontade nenhuma de sair. "Vai para a roça?" Perguntava a Guida, que sabe ainda melhor que eu o que é que aquele céu e aquele vento e aquele som queriam dizer. "Não se esqueçam de levar capa." Disse por fim, quando saímos intrepidamente pela porta em direcção a Boa Esperança.

 Ela tinha razão, choveu de facto, mas nada de especial. Não para o que já estamos habituados pelo menos. A tempestade deve ter passado ao largo da costa e felizmente que conseguimos fazer tudo o que precisávamos de fazer. Ainda assim o mítico chapéu de chuva voltou a sair à cena. Pode não parecer mas é um sapo com olhinhos e tudo. Quando toda a esperança morreu, quando ainda faltam horas de trabalho e tudo dói e só apetece é desistir e correr para casa... é nessas alturas que este chapéu brilha e trás a esperança de volta com ele.




 Por vezes é preciso saltar obstáculos para chegar a onde é preciso. Este é o rio que nos separava de Boa Esperança. Cheguei a filmar o pessoal todo a saltitar de pedra em pedra mas as internetes não me permitem postar isso dentro do meu período de vida.



























 Apesar do que parece, estamos a trabalhar... o objectivo era servir-nos de observações de aves para recolher dados relacionados com a dispersão de sementes (estou a esforçar-me por ser cientifico...) mas o que acabou por acontecer é que a rola decidiu descansar no ramo em vez de andar por aí a "dispersar" as sementes alegremente.

 No início eu e o Nity estávamos todos a postos, queríamos registar qualquer alteração, contabilizar o tempo de voo, estimar a distância em metros, tudo isso, mas com o passar do tempo acabámos nesta linda figura...























 E no final do trabalho há sempre recompensa simbólica sob a forma de enlatados com pão. Toalha de mesa e colher são da autoria do Gabriel.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ruínas Portuguesas

Trás os montes, ao pé de Nova Ceilão
 Por vezes caminhamos perdidos pela floresta, viramos ali na primeira à esquerda, deslizamos por uma encosta escorregadia agarrados às trepadeiras, furamos pelo mato a dentro, fazemos a curva depois da figueira e sem aviso, no meio do nada, deparamos-nos com estas coisas! A floresta de São Tomé está cheia de relíquias do "tempo dos Portugueses".














Vale do Rio Contador





 Tão magnificas como despropositadas, penso que agora servem apenas para nos relembrar que as estruturas que damos por garantidas estão na verdade sujeitas a uma série de factores naturais e que basta pararmos de as reparar que depressa são convertidas nos seus componentes mais simples e lançadas de volta à terra de onde vieram.


Caminho que parte de Dona Augusta
 Gosto de imaginar que quem projectou estas estruturas nem adivinhava que anos depois estariam a cair aos bocados, engolidas pela floresta envolvente.  



O que resta de uma fonte. Pouco depois de passar Ribeira Afonso
  De longe as relíquias que mais gosto são aquelas que estão no meio  das casas das pessoas. Apesar de as verem todos os dias, muitas vezes  nem sabem o que é que foram e isso faz-me dar asas à imaginação e pensar naqueles cenários de ficção cientifica em que seres humanos começaram a colonizar um planeta deserto mas que ainda possui fragmentos escondidos da tecnologia dos seus anteriores habitantes... mas talvez seja só eu.








Não sei ao certo onde foi tirada mas julgo
ser para os lados de Novo Destino



 No final do dia a floresta não se importa com o que nós lá pusemos e basta virarmos costas por uns instantes que ela depressa nos relembra de quem é a terra que pisamos. Eu diria que é para todos e não é de ninguém.

domingo, 22 de abril de 2012

Nova máquina fotográfica

 Com o Christoph chegou também a minha nova menina, uma Panasonic DMC-FT4 que dá para filmar e fotografar debaixo de água. Ontem conseguimos dar um saltinho à praia do Governador mas infelizmente a visibilidade estava péssima, muito provavelmente devido à chuva que arrasta os sedimentos dos rios e o vento que agita as correntes. Ainda assim tentei tirar umas quantas fotografias e deixo aqui as melhorzitas. 


 

 Ao ver o resultado em casa não pude deixar de me sentir nostálgico. Estão todas especialmente sem graça, tal e qual como foram as primeiras fotografias tiradas com a minha Canon 350D há uns seis anos atrás. Pensava que ia ser pegar na máquina e começar logo a sacar fotos subaquáticas com a mesma facilidade com que tiro as fora de água mas está visto que vou ter que começar do início, o que é óptimo!
 Relembrando tudo o que já vi através da minha máquina fotográfica, se esta pequena se portar igualmente bem, então acho que temos um longo e bom caminho pela frente.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

- Bem-vindo Christoph!

 O despertador empurrou-me para fora da cama eram 5h15. Arrastei-me descoordenado e reconheci o bebé da Miriam no meu andar.
 Quando finalmente abri os olhos estava escuro, tinha uma tigela de Chocapic à frente e vinha uma colher na minha direcção. Apaguei-me outra vez e quando recuperei a consciência estava a conduzir pela baía Ana Chaves a uma velocidade responsável dado o meu estado. Hoje era dia de ir buscar o Christoph, o professor que vem cá ajudar com a parte de dispersão de sementes do projecto.

 O Aeroporto Internacional de São Tomé e Príncipe... um rectângulo cinzento inacabado... dantes havia alcatrão à frente mas como agora decidiram construir um toldo à frente do letreiro, transformaram tudo num enorme monte de pedras e buracos.
 Sento-me por aí, está tudo em pé com as expectativas e os nervos. Acho que era suposto estar como eles mas estou com demasiado sono para isso.

 Um ruído assusta os falcões que estavam na pista a apanhar sol. Olho para cima, para lá do Sol e vejo o avião a passar, enorme e branco, como uma nave espacial vinda de outro mundo muito diferente deste.
 A fila de brancos que já estava ali à frente espera fica nervosa e começa a empurrar-se até desaparecer  toda de uma vez.
 Quando o ruído regressa já está tudo agarrado às grades para ver a nave aterrar mas eu continuo a escrever no telemóvel usando uma parte do cérebro que certamente não controlo.

 Lá ao fundo o gang de freiras encosta-se à parede enquanto vê os vendedores atirarem-se com unhas e dentes à ultima oportunidade de vender alguma coisa aos turistas que estão de partida. Trazem cestos de vime, colares de sementes brancas, cinzentas, pretas e vermelhas e ainda bouquets de rosas de porcelana.

 Os troleys de metal são arrastados pelo meio das pedras e buracos, coisinhas tão tortas que até dão pena, as rodas todas lixadas de muitos anos de serviço. Eles bem se queixam, qualquer um consegue ouvir a barulheira, mas acho que só eu é que me importo.

 Mais pessoas vão chegando e subitamente reparo que ninguém está a fumar. Deve ser do leve-leve... mas ah! Falei cedo demais... está ali um tipo mascarado de Zezé Camarinha a fumar.
 Acho que vir buscar pessoas ao aeroporto é a melhor forma de sentir que já cá estou há bastante tempo. Os outros vão, mas eu fico. Olha! Já há pessoal a sair pela porta das Chegadas... toca de levantar, sacudir o pó e as formigas e ir guardar lugar na fila.

 ...Enquanto estou aqui em pé a apreciar o ar confuso e inseguro dos brancos relembro o dia em que eu e a Ana passámos por aquelas mesmas portas. Tantos olhos, o calor, os cheiros... olha! Aí vem ele!

 - Oi! Sim! Bem-vindo!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Conduzindo pela noite a dentro

 Ontem foi mais uma noite de caça aos sapos, desta vez na zona de Java. Eu e a Rayna partimos sem grandes indicações - procurar e apanhar sapos a 500m de altitude - mas quando chegámos ao sítio só havia estrelas, grilos e casas com a luz apagada. Como não queríamos estar a acordar ninguém com um pedido tão ridículo como "onde é que está o rio? Temos que ir apanhar sapos..." acabámos por ter que procurar sozinhos.
 Conduzindo lentamente, com a cabeça fora da janela, avançávamos pela noite a dentro. Passei mais tempo a olhar para cima do que para a estrada... estava um céu estrelado completamente fora deste mundo e o vento fresco e húmido trazia-me um sorriso que dava que pensar: "quem me dera que fosse sempre assim, simples, receber um convite e ir para o campo à procura de sapos".
 O jipe avançava ruidosamente, pisando as pedras debaixo dos pneus, abocanhando as borboletas atraídas pela luz, curva e contracurva, assim foi dançando pela noite a dentro.
 No final não conseguimos apanhar rigorosamente nada (imagino que os sapos não se importem) mas deixo-vos esta fotografia pensada por mim e concretizada pela Rayna mais o seu frontal absurdamente potente.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fauna nocturna

Boxeiro - Damon tibialis

Por estas paragens chamam-lhe boxeiro mas é um Amblipígeo, um parente das aranhas e escorpiões (Classe Arachnida). Só posso dizer que este menino era à vontade dos maiores artrópodes terrestres que já tive a sorte de ver! Sem exagero nenhum, o bixo tem umas patas que vão para os lados e que são cada uma mais comprida que uma mão.


Lagoa Amélia à noite.
Sim, não se vê nada e de facto podia ter sido tirada em qualquer outro sítio do mundo...
  

Jita - Boaedon lineatus


Boaedon lineatus


Happy Hyperolius molleri

domingo, 15 de abril de 2012

- "Shut up and take my blood!"


 Eram 3:20 quando tudo começou, um zumbido irritante tão perto da minha cara que lhe sentia a agitação no ar. Face punch! …nada… o zumbido continuou e separou-se em dois… Punch! Punch…! PUNCH!!!

 Nada… *suspiro* ok… tinha que me levantar, ir buscar o frontal e dar início à caçada!

Gotta Kill 'Em All!!!

…Mas, tal como no Pokemon, a missão parecia impossível… havia os mais fáceis de matar, os que se escondiam e só se mostravam quando estava escuro, os que precisavam de técnicas para os fazer sair debaixo da cama e de dentro do armário… não sei dizer quantos matei mas o zumbido garantia-me que não tinha sido o suficiente…

 Eram 3:50 quando as pilhas do frontal começaram a fraquejar… a escuridão começava a cercar-me e como monstros espicaçados pelo meu próprio medo, eles rastejaram para fora das reentrâncias… O zumbido conjunto de um milhão de asas aproximava-se, cada vez mais perto… Em pânico agarro na única arma que tinha!

- Não se aproximem ou eu juro que encho esta merda toda de repelente!!

Mas as minhas palavras não tiveram efeito, a sede cegava-lhes a razão, por isso continuaram a aproximar-se... Só me restava fazer uma coisa!

 Eram 4:00 quando a luz morreu e a minha esperança foi-se com ela.

- Shut up and take my blood! – Gritei, desesperado, ao senti-los por todo o lado, sedentos, mas sem poderem poisar devido à maldição que invoquei sobre mim!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O meu livro

 Por estas paragens sempre que é preciso ir ao Aeroporto buscar ou pôr alguém, isso envolve acordar cedo e assistir a um nascer do Sol verdadeiramente glorioso. Hoje foi um desses dias e quando regressei a casa aproveitei a minha pedrada de sono para recomeçar a avançar na escrita do meu livro (chamemos-lhe assim porque tenho receio de um dia acordar com os pés fora da cama e mudar-lhe o nome novamente).
 Apesar das coisas do projecto que podiam ter sido adiantadas ao longo do dia, abateu-se sobre mim uma inércia cinzenta e esmagadora por isso acabei por não me conseguir levantar da cadeira - era mesmo pesada - Se ao menos tivesse chovido o dia inteiro para eu ter uma desculpa para não ter saído de casa… mas paciência.

 As sementes para este livro começaram a crescer algures na Selvagem Grande, uma das ilhas a Sul da Madeira. Desde aí que tenho andado a inspirar-me pelos sítios por onde passo e pelas pessoas que se vão cruzando no meu caminho e tenho convertido o que elas me oferecem em ideias que se adeqúem à história do livro.

 Deixo aqui uma mini introdução:

Depois de fugirem de um laboratório secreto, Ira, Sol e Syn prometem nunca se separar até recuperarem as vidas de que foram roubados. Mas na Antárctida do futuro, um rei tirano conspira secretamente contra a humanidade e eles vêem-se obrigados a lutar lado a lado com um grupo de rebeldes que o confronta nas sombras.”

 Como podem ver pelo mapa onde se vai passar a maior parte da acção, as previsões são bastante pessimistas para as consequências do aquecimento global e por isso o clima assemelhar-se-á ao Alasca dos dias de hoje.

 Não quero revelar demasiado mas posso adiantar que as personagens principais têm "poderes", mas não é nada como a típica história de super-heróis norte-americanos que têm que esconder a sua identidade por trás de uma máscara. Aqui eles querem apenas encontrar o seu lugar de volta na sociedade embora o destino pareça estar sempre a pregar-lhes partidas e a atirá-los para situações de perigo onde eles se vêem forçados a tomar decisões difíceis.

 Claro que um dia adoraria ver as minhas ideias impressas num livro gordinho e de preferência gostava de o ver à venda numa papelaria qualquer, mas sinto que ainda falta muita dedicação para ele estar tão bom como eu gostava que estivesse... daqui a uns anos talvez o vejam por aí! Quem me dera!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

À caça de sapos

Phrynobatrachus leveleve
 Fui acompanhar os norte-americanos numa curta saída nocturna na zona da Bemposta. O objectivo era "recolher" uns sapinhos de uma certa espécie para estudar uma possível hibridação.
 Vimos bastantes indivíduos da espécie P. leveleve cujo nome foi obviamente escolhido a pensar no dizer e estilo de vida Sãotomense.





Hyperolius molleri


 Mas o que eles precisavam realmente era este menino. No total apanhámos 11 bixos que foram parar aos sacos de plástico e por esta altura já devem ter tido um encontro próximo com uma dose elevada de um produto que os fará dormir...
Ovos de Hyperolius molleri
 Apesar de todos sabermos que o que estávamos a fazer ia resultar na morte de uma data de sapos, é inegável a excitação que vem associada a andar à noite à caça destes pequenotes! 



Quem tem os olhinhos mais queridos, quem é?