terça-feira, 1 de maio de 2012

Quiropterologia


 Hoje ao cair da noite fomos fazer algo diferente - apanhar morcegos. Lá os encontrámos escondidos debaixo de uma pequena ponte. Enquanto o Christoph servia-se da sua rede caseira para os capturar, eu aproveitava-me do número disparatado de morcegos cá fora para disparar que nem um perdido. Infelizmente a luz já não era muita e mesmo com o ISO puxado ao máximo, não consegui nenhuma que me agradasse.

 Depois de apanhados os bichos era preciso fazer coisas tão variadas como tirar biometrias, fotografar a asa e gravar as vocalizações com um detector de ultra-sons que parecia uma garrafa vinda do futuro - tem o mesmo formato familiar mas vem com ecran e botões e luzinhas. Posso também acrescentar que o som dos morcegos, depois de convertidos para uma frequência que os nossos ouvidos conseguem ouvir, é curiosamente parecido com o zumbido repetitivo de um disco-voador num filme barato.


Fanaliche - Hipposideros ruber
 Até são uns bichinhos bonitos se não tentassem morder furiosamente tudo o que se aproxima demasiado. (Aquilo ali é o nariz, claro. A boca está bem debaixo da focinheira)


domingo, 29 de abril de 2012

Submerso na Praia Santana

 Todos os Domingos são parecidos. É como o final de umas férias demasiado curtas. "Devia ter feito mais." penso, há medida que o tempo vai passando. Olho pela janela, enquanto imagino o que podia estar a fazer. Esta ansiedade aumentou até ao ponto em que disse para mim mesmo: "Tenho que sair de casa se não rebento...!"  e como isso não traria nada de bom, agarrei no carro e fui fazer um favor a mim próprio e fui até à Praia do Clube Santana.


 A praia até é bem bonita mas tem uma coisa que me faz bastante comichão. Parece existir uma espécie de barreira invisível que separa as pessoas que vivem na localidade das que estão alojadas no hotel Santana. Não há misturas.
 Mas eu não conduzi todo o caminho para estar a apreciar as vistas. Havia diversão à minha espera debaixo de água.


Nem tinha avançado uns cem metros quando me deparo com esta festa! Imensos peixes que ora eram arrastados ao sabor das ondas, ora desciam de repente ao fundo para depenicar as algas em conjunto.


Vale a pena perder tempo a admirar as cores dos ouriços. Ainda não percebi se é apenas ilusão mas parecem autênticos néons azuis.
Furar o cardume. Eles não se importam e eu gosto tanto que podia fazer isso o dia inteiro.

 Já no regresso encontrei este pequenote. Sempre que vejo um Bubu (nome local) tenho que ir lá a baixo chateá-lo. É pouco profissional, eu sei, mas não consigo evitar.




 Quando cheguei a casa segui todo o protocolo que precede a passagem das fotografias para o computador mas a minha menina não ligou mais... espero que amanhã esteja melhor mas não tenho muitas esperanças... seria uma pena se estas fossem as primeiras e ultimas filmagens que mostro...

sábado, 28 de abril de 2012

Novos ângulos

 Hoje foi apenas mais um dia de trabalho de campo como os outros só que como agora passo o tempo todo com a minha nova menina pendurada à cintura, acabo por fotografar momentos que de outra forma provavelmente não me teria dado ao trabalho por preguiça ou simplesmente por não ser possível com uma máquina maior e mais ameaçadora. Apesar da qualidade da imagem ser visivelmente inferior, acho que a máquina acaba por compensar essa falha com as oportunidades que cria e, dessa perspectiva, as duas até se complementam bem.

Adoro esta foto porque não foi minimamente ensaiada! O Christoph estava a fotografar a cena da próxima foto e eu julgava que os miúdos nem tinham reparado que desta vez eu tinha apontado a máquina para nós.



Jita (Boaedon lineatus) e lagartixa (já foste)
Carrinha destroçada a caminho de Água Sampaio

Aranhão à espera de identificação

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Corte de cabelo São Tomé style


 Hoje acabámos por não ir para o campo por isso o dia transformou-se num longo peddy-paper pela cidade. As tarefas eram tão variadas como encontrar um isqueiro (muito mais difícil do que parece!) ou ir pôr os recibos ao correio e no final a lista dizia que era dia de cortar o cabelo por isso assim fiz.







 O sítio escolhido foi este fantástico contentor na Avenida Água Grande. No interior já haviam duas pessoas a cortar o cabelo e umas quantas sentadas mas eles lá me arranjaram lugar nas traseiras (como se fosse muito grande!). 

 Lá dentro estava calor mas como as ventoinhas estavam ligadas nem se notava muito. Em cima das várias bancadas estava tanta tralha que era incrível eles conseguirem encontrar o que precisavam. Ainda assim, no meio daquilo tudo não consegui ver uma tesoura, só máquinas de cortar cabelo penduradas.

 - Pode ser corte com máquina? Pente quatro? - Perguntei, e o rapaz disse que sim e foi pedir ao companheiro a pecinha de plástico que lhe faltava.
  
 Passei mais tempo a tentar descobrir as diferenças entre os cortes de cabelo do poster do que a supervisionar o trabalho do rapaz mas no final até ficou bem. Aí perguntei-lhe quanto era e ele disse 50000 com um sorriso na cara. Eu disse que da ultima vez foi 30000 e ele baixou para 40000 mas eu continuei sisudo e consegui pagar só 30000 o que convertido dá pouco mais de 1€. Quando precisarem já sabem onde cortar o cabelo!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Trabalho de campo

Está meio zarolho e tem a vareta partida mas isso
 só faz com que seja ainda mais eficaz a gerar
 sorrisos e a manter a esperança viva! 

  Hoje o dia começou bem cedinho. Havia muito que fazer tanto dentro como fora de casa mas os trovões que se ouviam ao longe não davam vontade nenhuma de sair. "Vai para a roça?" Perguntava a Guida, que sabe ainda melhor que eu o que é que aquele céu e aquele vento e aquele som queriam dizer. "Não se esqueçam de levar capa." Disse por fim, quando saímos intrepidamente pela porta em direcção a Boa Esperança.

 Ela tinha razão, choveu de facto, mas nada de especial. Não para o que já estamos habituados pelo menos. A tempestade deve ter passado ao largo da costa e felizmente que conseguimos fazer tudo o que precisávamos de fazer. Ainda assim o mítico chapéu de chuva voltou a sair à cena. Pode não parecer mas é um sapo com olhinhos e tudo. Quando toda a esperança morreu, quando ainda faltam horas de trabalho e tudo dói e só apetece é desistir e correr para casa... é nessas alturas que este chapéu brilha e trás a esperança de volta com ele.




 Por vezes é preciso saltar obstáculos para chegar a onde é preciso. Este é o rio que nos separava de Boa Esperança. Cheguei a filmar o pessoal todo a saltitar de pedra em pedra mas as internetes não me permitem postar isso dentro do meu período de vida.



























 Apesar do que parece, estamos a trabalhar... o objectivo era servir-nos de observações de aves para recolher dados relacionados com a dispersão de sementes (estou a esforçar-me por ser cientifico...) mas o que acabou por acontecer é que a rola decidiu descansar no ramo em vez de andar por aí a "dispersar" as sementes alegremente.

 No início eu e o Nity estávamos todos a postos, queríamos registar qualquer alteração, contabilizar o tempo de voo, estimar a distância em metros, tudo isso, mas com o passar do tempo acabámos nesta linda figura...























 E no final do trabalho há sempre recompensa simbólica sob a forma de enlatados com pão. Toalha de mesa e colher são da autoria do Gabriel.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ruínas Portuguesas

Trás os montes, ao pé de Nova Ceilão
 Por vezes caminhamos perdidos pela floresta, viramos ali na primeira à esquerda, deslizamos por uma encosta escorregadia agarrados às trepadeiras, furamos pelo mato a dentro, fazemos a curva depois da figueira e sem aviso, no meio do nada, deparamos-nos com estas coisas! A floresta de São Tomé está cheia de relíquias do "tempo dos Portugueses".














Vale do Rio Contador





 Tão magnificas como despropositadas, penso que agora servem apenas para nos relembrar que as estruturas que damos por garantidas estão na verdade sujeitas a uma série de factores naturais e que basta pararmos de as reparar que depressa são convertidas nos seus componentes mais simples e lançadas de volta à terra de onde vieram.


Caminho que parte de Dona Augusta
 Gosto de imaginar que quem projectou estas estruturas nem adivinhava que anos depois estariam a cair aos bocados, engolidas pela floresta envolvente.  



O que resta de uma fonte. Pouco depois de passar Ribeira Afonso
  De longe as relíquias que mais gosto são aquelas que estão no meio  das casas das pessoas. Apesar de as verem todos os dias, muitas vezes  nem sabem o que é que foram e isso faz-me dar asas à imaginação e pensar naqueles cenários de ficção cientifica em que seres humanos começaram a colonizar um planeta deserto mas que ainda possui fragmentos escondidos da tecnologia dos seus anteriores habitantes... mas talvez seja só eu.








Não sei ao certo onde foi tirada mas julgo
ser para os lados de Novo Destino



 No final do dia a floresta não se importa com o que nós lá pusemos e basta virarmos costas por uns instantes que ela depressa nos relembra de quem é a terra que pisamos. Eu diria que é para todos e não é de ninguém.

domingo, 22 de abril de 2012

Nova máquina fotográfica

 Com o Christoph chegou também a minha nova menina, uma Panasonic DMC-FT4 que dá para filmar e fotografar debaixo de água. Ontem conseguimos dar um saltinho à praia do Governador mas infelizmente a visibilidade estava péssima, muito provavelmente devido à chuva que arrasta os sedimentos dos rios e o vento que agita as correntes. Ainda assim tentei tirar umas quantas fotografias e deixo aqui as melhorzitas. 


 

 Ao ver o resultado em casa não pude deixar de me sentir nostálgico. Estão todas especialmente sem graça, tal e qual como foram as primeiras fotografias tiradas com a minha Canon 350D há uns seis anos atrás. Pensava que ia ser pegar na máquina e começar logo a sacar fotos subaquáticas com a mesma facilidade com que tiro as fora de água mas está visto que vou ter que começar do início, o que é óptimo!
 Relembrando tudo o que já vi através da minha máquina fotográfica, se esta pequena se portar igualmente bem, então acho que temos um longo e bom caminho pela frente.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

- Bem-vindo Christoph!

 O despertador empurrou-me para fora da cama eram 5h15. Arrastei-me descoordenado e reconheci o bebé da Miriam no meu andar.
 Quando finalmente abri os olhos estava escuro, tinha uma tigela de Chocapic à frente e vinha uma colher na minha direcção. Apaguei-me outra vez e quando recuperei a consciência estava a conduzir pela baía Ana Chaves a uma velocidade responsável dado o meu estado. Hoje era dia de ir buscar o Christoph, o professor que vem cá ajudar com a parte de dispersão de sementes do projecto.

 O Aeroporto Internacional de São Tomé e Príncipe... um rectângulo cinzento inacabado... dantes havia alcatrão à frente mas como agora decidiram construir um toldo à frente do letreiro, transformaram tudo num enorme monte de pedras e buracos.
 Sento-me por aí, está tudo em pé com as expectativas e os nervos. Acho que era suposto estar como eles mas estou com demasiado sono para isso.

 Um ruído assusta os falcões que estavam na pista a apanhar sol. Olho para cima, para lá do Sol e vejo o avião a passar, enorme e branco, como uma nave espacial vinda de outro mundo muito diferente deste.
 A fila de brancos que já estava ali à frente espera fica nervosa e começa a empurrar-se até desaparecer  toda de uma vez.
 Quando o ruído regressa já está tudo agarrado às grades para ver a nave aterrar mas eu continuo a escrever no telemóvel usando uma parte do cérebro que certamente não controlo.

 Lá ao fundo o gang de freiras encosta-se à parede enquanto vê os vendedores atirarem-se com unhas e dentes à ultima oportunidade de vender alguma coisa aos turistas que estão de partida. Trazem cestos de vime, colares de sementes brancas, cinzentas, pretas e vermelhas e ainda bouquets de rosas de porcelana.

 Os troleys de metal são arrastados pelo meio das pedras e buracos, coisinhas tão tortas que até dão pena, as rodas todas lixadas de muitos anos de serviço. Eles bem se queixam, qualquer um consegue ouvir a barulheira, mas acho que só eu é que me importo.

 Mais pessoas vão chegando e subitamente reparo que ninguém está a fumar. Deve ser do leve-leve... mas ah! Falei cedo demais... está ali um tipo mascarado de Zezé Camarinha a fumar.
 Acho que vir buscar pessoas ao aeroporto é a melhor forma de sentir que já cá estou há bastante tempo. Os outros vão, mas eu fico. Olha! Já há pessoal a sair pela porta das Chegadas... toca de levantar, sacudir o pó e as formigas e ir guardar lugar na fila.

 ...Enquanto estou aqui em pé a apreciar o ar confuso e inseguro dos brancos relembro o dia em que eu e a Ana passámos por aquelas mesmas portas. Tantos olhos, o calor, os cheiros... olha! Aí vem ele!

 - Oi! Sim! Bem-vindo!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Conduzindo pela noite a dentro

 Ontem foi mais uma noite de caça aos sapos, desta vez na zona de Java. Eu e a Rayna partimos sem grandes indicações - procurar e apanhar sapos a 500m de altitude - mas quando chegámos ao sítio só havia estrelas, grilos e casas com a luz apagada. Como não queríamos estar a acordar ninguém com um pedido tão ridículo como "onde é que está o rio? Temos que ir apanhar sapos..." acabámos por ter que procurar sozinhos.
 Conduzindo lentamente, com a cabeça fora da janela, avançávamos pela noite a dentro. Passei mais tempo a olhar para cima do que para a estrada... estava um céu estrelado completamente fora deste mundo e o vento fresco e húmido trazia-me um sorriso que dava que pensar: "quem me dera que fosse sempre assim, simples, receber um convite e ir para o campo à procura de sapos".
 O jipe avançava ruidosamente, pisando as pedras debaixo dos pneus, abocanhando as borboletas atraídas pela luz, curva e contracurva, assim foi dançando pela noite a dentro.
 No final não conseguimos apanhar rigorosamente nada (imagino que os sapos não se importem) mas deixo-vos esta fotografia pensada por mim e concretizada pela Rayna mais o seu frontal absurdamente potente.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fauna nocturna

Boxeiro - Damon tibialis

Por estas paragens chamam-lhe boxeiro mas é um Amblipígeo, um parente das aranhas e escorpiões (Classe Arachnida). Só posso dizer que este menino era à vontade dos maiores artrópodes terrestres que já tive a sorte de ver! Sem exagero nenhum, o bixo tem umas patas que vão para os lados e que são cada uma mais comprida que uma mão.


Lagoa Amélia à noite.
Sim, não se vê nada e de facto podia ter sido tirada em qualquer outro sítio do mundo...
  

Jita - Boaedon lineatus


Boaedon lineatus


Happy Hyperolius molleri