sexta-feira, 18 de maio de 2012

Até à próxima, Christoph!

 O Christoph foi-se embora hoje. Ao vê-lo arrumar as coisas parecia que também eu ia viajar um pouco e sair daqui. Porque no fundo o que é viajar se não uma mudança na nossa vida. Ele foi-se embora e certamente que houve uma mudança. Se alguma coisa pode ser dita, a casa parece bem mais vazia e triste do que eu me lembrava. Esteve cá apenas um mês mas parece que foi tão mais... o que me vale é que daqui a uma semana vão chegar dois novos house-mates.
 Para não encher um post apenas com isto, fui escavar um pouco e desenterrei estas fotografias! Basicamente são seres que encontrei numa única ida a S. João dos Angolares.


Fêmea de Tomé-gagá (Tersiphone atrochalybeia) sentadinha no ninho. Como tinha ovo e estava a chover, ficou lá a aturar-me muito mais do que seria normal. 

Um Búzio de Obô (Archachatina bicarinatacomo o da fotografia pode ficar tão grande como um punho fechado. É endémico e tudo leva a crer que está a desaparecer com uma granda pinta.

Um cogumelo que tinha tanto de espectacular como de mal-cheiroso.

Estávamos já a regressar quando vi estes pequenotes ali mesmo,  a descansar tranquilamente em cima de uma pedra. Para quem não sabe são Saltitões do lodo, uns peixinhos fascinantes que passam grande parte do tempo fora de água. Só tive mesmo pena que os malandros me vissem tão bem com aqueles olhos gigantes e por isso não me deixaram aproximar mais!



quinta-feira, 17 de maio de 2012

Santa Jenny

  Das dez comunidades que seguimos, Santa Jeny parece-me ser a mais porca. Facto facilmente compreensível se tomarmos em consideração a quantidade animalesca de porcos soltos que por lá andam. E cães também. E já agora gatos. Ah, e já disse que também tem patos e galinhas? Estava eu sentado num tronco tosco a ver uma senhora a varrer toda a porcaria e a pensar que o Zoo provavelmente caga aquilo a uma velocidade maior que a que ela consegue limpar. E o resultado estava ali à frente dos meus olhos, e do meu nariz.
Gabriel à espera que cheguem mais pessoas para fazer o inquérito.

 Apesar dessa particularidade, a comunidade está cheia de pequenas personalidades que se não existissem teriam certamente que ser inventadas. Pelo bem ou pelo mal. Existe uma senhora velhota que faz voz grossa para parecer má e está sempre a ameaçar as crianças de morte. “Eu mato você.” Relembra a senhora, sempre que tem oportunidade. Depois existe um homem especialmente agressivo e violento que parece estar também sempre chateado com tudo e todos mas que quando bebe é só amizade e generosidade. Claro que da última vez que lá estive este mesmo senhor andou a brincar com o machin para cima do vizinho por isso não sei bem o que pensar dele… Depois há o Sérgio, sempre com um sorriso contagiante, e o Admin a provocar-me para confrontos de xadrez, e o Jaime a fazer-se passar por mau e a dizer que lhe prometi cinco contos para bebermos grogue os dois (o que lá acabou por acontecer – a maldita coisa sabe mesmo mal). Existe também um rapazinho que está sempre no mesmo lugar, sempre deitado no chão, sempre torto e infeliz. Ele nasceu com uma deficiência que não sei nomear mas basicamente é muito magrinho e as pernas não dobram para onde deviam. Queria fotografá-lo, ou apenas o olhar dele, como se isso o pudesse fazer voar um pouco para fora daquele chão… mas nunca tive coragem para isso. Trago-o na minha memória e na vossa imaginação.

 Ao jantar houve ambá, ou seja, cada um trouxe o que tinha e comemos todos juntos, uns por cima dos outros. Maldito peixe fumado absurdamente picante… mas ao menos a fruta pão até era docinha… quando regressei ao amoque encontrei o malandro a meter água que nem um barco mal feito. E o chato é que só reparei nisto quando já estava descalço e bem deitado. “Saio… não saio… não saio…saio...olha que bonito, recomeçou a chover… saio… sim, saio!” Uns quantos nós molhados e feitos às cegas depois já estava eu de volta ao meu ninho baloiçante.

De manhã houve mais contagem de passarada por entre bocejos e também alguma patinagem artística na lama. Acho que ainda está para nascer quem me vença nessa modalidade.


 E depois da passarada vem o mata-bicho onde é preciso aquecer água para juntar leite em pó. Há qualquer coisa que se perdeu quando metemos gás em nossas casas mas que de certa forma pode ser recuperado nas lareiras que alguns têm na sala. Refiro-me ao prazer de acender fogo, de merecer o calor e a luz que ele nos dá. Soprar e levantar as cinzas todas pelo ar, pequenos flocos brancos contra o tecto preto e chamuscado, os olhos a arder do fumo e rir por ter acontecido o mesmo à outra pessoa, usar o que estiver à mão para tentar atear nem que seja uma chama, as brasas a brilhar e a roer a madeira, soprar mais um pouco, um crepitar confortante… e … sim… mais um pouco, e… está quase...pronto. Fez-se fogo. Na altura disse ao Sérgio que não há este sentimento de vitória quando se acende o fogão lá de casa mas provavelmente ele trocaria esse sentimento por um pouco de gás natural em qualquer dia da semana.


Criançada a ir para a escola

terça-feira, 15 de maio de 2012

Encontra o teu caminho

 Regressámos inteiros de mais uma comunidade, desta vez de Água Sampaio. A comunidade fica longe mas vale a pena pela beleza do sítio e das pessoas que lá vivem e mais uma vez o xadrez voou para fora do saco directamente para dentro das cabeças de quem por mim passava. Ninguém escapava, até se chegou a jogar no assento de uma mota mais incauta.

Tirada através do vidro do carro. Choveu o dia inteiro.

 Da última vez que lá estivemos eu lembro-me perfeitamente de não ter dormido nada por causa de uma missa dos Adventistas do Sétimo Dia e de uma hiace que se fartou de buzinar para chamar e levar as pessoas para o mercado na cidade. Ambas as coisas aconteceram ainda de noite e bem perto das minhas orelhas. Mas desta vez dormi que nem uma rocha, um tronco, algo verdadeiramente inabalável. Não sei se foi do vinho de pacote que estivemos a beber à luz da vela ou se foi por estar todo enrolado no saco-cama estilo casulo mas não houve nada que me acordasse antes do despertador.
 A contagem de aves seguiu-se e aconteceu um par de coisas que me pareceu comporem uma boa metáfora para a vida:

   No início ainda via o Nity a apontar-me os perigos que ele encontrava pelo caminho mas à medida que eu ia vendo coisas que me prendiam o olhar fui ficando para trás para as fotografar.

Matemática elementar:
Bananeira + Nascer do Sol = Fotografia fácil. 

Quem é a jita mais linda, quem é? 
A pequena portou-se tão bem que até consegui
 mudar a objectiva e as definições todas
 com a outra mão.




























 Ele foi-se afastando e quando o primeiro cruzamento veio tive que recorrer às minhas skills para lhe encontrar o rasto.
 Caminho 1: Inclinado, super escorregadio mas parecia ter sido remexido.
 Comecei a subir mas como achei difícil de mais e ainda me restava tentar o outro caminho, desisti e voltei para trás.
 Caminho 2: Plano e relativamente fácil mas a certa altura deparei-me com uma teia de aranha enorme mesmo a meio. Se ele tivesse passado por lá, certamente que não a teria visto e tinha-a destruído.
 Regressado ao cruzamento vi que havia ainda uma terceira hipótese… ok, está na hora de soltar o meu uivo de Tarzan.
 – OI!!
.
.
.
 – … oi!! – Respondeu uma voz distante, pouco depois. Vinha de cima, do caminho mais difícil.
 – OI!? – (É mesmo por aqui?)
 – …Oi! – (Sim, podes vir.)
 E pronto, lá subi e emporcalhei-me todo mas encontrei o Nity no final.


 Pensamento: Devemos seguir sempre o nosso próprio caminho com os olhos bem abertos para as pistas que vão aparecendo. Se nos enganámos, não tem mal voltar para trás e tomar um novo caminho. Deste ponto de vista, o que é desistir? E no fim se estivermos perdidos devemos ter a coragem para mandar um grito de ajuda. Alguém por perto irá certamente ouvir, mas a resposta que virá não nos mostra o caminho, apenas pode apontar na direcção certa.





sábado, 12 de maio de 2012

Cultura e identidade Sãotomense

 Hoje fui a uma praia que me foi recomendada por um pescador. "Tem muito peixe", disse ele. "Vais gostar", disse ele. Bem, se fui à praia certa, então era uma bela porcaria. Havia lixo a flutuar e o fundo era um recente amontoado de blocos de pedra por isso não havia nada para ver. Um Taiwanês que por lá passou disse-me que a praia dantes era tão famosa que se pagava para entrar só que ela ficou naquele lindo estado porque as pessoas  andam a roubar areia para construção. Ao ver a erosão e o coral todo exposto depressa percebi o que ele queria dizer. Como entretanto começou a chover e queria postar alguma coisa hoje, acho que está na altura de escrever um post que já foi pensado há muito:

Pequenas particularidades da cultura Sãotomense que acho fascinantes:

  • As pessoas não entram simplesmente na casa de alguém e batem à porta. Em vez disso batem palmas do lado de fora e gritam pelo nome da pessoa com quem querem falar. A pessoa pode estar em casa mas se não as ouvir, elas vão-se embora.
  • A moeda mais pequena que existe é de 500 dobras mas por vezes aparecem preços que terminam em 200, 250, 251... e agora como é que se dá o troco? Arredonda-se e dá-se uma pastilha elástica ao comprador. As Gorila de mentol costumam ser muito usadas.
  • As pessoas não se despedem ao telemóvel. A conversa termina quase sempre inesperadamente com um "ya". Suspeito que seja uma forma consensual de fazer com que a pessoa que telefonou não gaste mais dinheiro.
  • Não é possível sair da capital de São Tomé e Príncipe sem ouvir crianças gritarem isto: "Doce! Doce! Doce!" Ou a outra variedade: "Branco! Doce! Doce!". Pergunto-me se alguma daquelas crianças alguma vez recebeu um doce desta forma e estudando a cara delas concluo que algumas dizem-no da mesma forma que podiam dizer "Olá!" ou "Bem-vindo!"
  • Nas zonas mais longe da cidade, se um adulto (ou alguém mais velho) estiver a passar e vir uma criança com um cesto de fruta (ou qualquer outra coisa barata e em número elevado) pode simplesmente pedir, tirar e levar. "Dá isso para mim."
  • Falo por experiência própria: Não é possível parar o carro à noite à beira da estrada sem que completos estranhos parem também eles o carro e venham perguntar se precisamos de ajuda. Na verdade muitas vezes nem perguntam e saem logo do carro, prontos para resolver qualquer problema.
  • Alguns homens mas especialmente as mulheres, conseguem capinar o mato que cresce na beira da estrada inclinando-se para a frente num ângulo que destruiria quaisquer costas que eu conheço. Juro que não compreendo como conseguem fazer aquilo por mais do que um minuto.
  • Toda a gente na cidade e alguns fora dela tratam brancos por "amigo". "O amigo não qué comprá jaca?".
  • As pessoas têm uma espécie de aversão a mato e plantas que possam servir de esconderijo a bichos, por mais inofensivos que eles possam ser. Este medo faz com que imensa gente (mulheres quase sempre) passem boa parte do seu dia a varrer a poeira em frente da casa. Nem folhas secas são permitidas.
  • Pode não se ter dinheiro para comprar comida mais cara mas certamente que se arranja forma de se ter algum aparelho a tocar música - isto é uma das coisas mais importantes na cultura Sãotomense e está presente quase sempre. 
  • Mais do que em qualquer outro lado onde já estive, os Sãotomenses queixam-se de falta de apoio da câmara, do governo, de países estrangeiros, do mundo inteiro. Esta falta de apoio é frequentemente usada como desculpa para não se fazer o que podia ter sido feito há muito tempo e pode reflectir-se em coisas tão simples como mandar um "call me" a alguém para lhe perguntar algo que é apenas do interesse de quem o mandou.
 E claro que quanto mais frases escrevo, mais sinto que me estou a esquecer de um Mundo merecedor de toda a atenção. Mas acho que isto já é uma boa introdução, depois tentarei completar a lista.

A praça de táxis a meio do dia é um local tão caótico que nem uma ambulância conseguiria passar.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Abrindo pombos

 Parte do projecto envolve recolher amostras de pombos caçados antes de eles serem vendidos a restaurantes ou particulares. Para se conseguir isto, costumo visitar o caçador na sua casinha.
 Durante o processo estou sempre com as mãos um pouco ensanguentadas ou viscosas e por isso nunca cheguei a fotografar estes lindos momentos mas com a ajuda do Christoph, aqui ficam uns registos.
O Nelson e eu. Estou com aquela linda cara porque na altura estava a tentar estimar a gordura dos bixos. Basicamente todas as Céssias são obesas mas há umas menos obesas que outras. São essas as que me lixam a vida.
 Costumamos pagar alguma coisa para ver os pombos caçados que normalmente são Rolas (Columba malherbii) mas também vemos Céssias (Treron sanctithomae). Em cima estão vinte e oito Céssias mas dentro da época de reprodução costumam ser caçadas em muito maior número.

 Depois de se tirarem todas as medições, depena-se a barriga e o peito para se poder estimar os níveis de gordura e para dar um golpezinho ligeiro na zona do papo e assim recolher as sementes. Procura-se assim compreender a variação anual da dieta dos pombos e relacionar essa informação com outras componentes do projecto como por exemplo qual o papel deles na dispersão de sementes. 

Plano aproximado de golpe no papo de uma rola.
 "Pau cabra outra vez? Já variavam!"


terça-feira, 8 de maio de 2012

Boa Esperança

 Passei o dia a fazer inquéritos e a ensinar o pessoal a jogar xadrez e como sabia que no dia seguinte era para começar a "batucada" (é o que se diz) bem cedo, não fiquei para a night e fui-me deitar no amoque (uma espécie de cama de rede mais tropical). O dito estava montado ali numas armações onde eles secam a roupa, por isso até estava perto das casas. Como já sei o que a casa gasta levei tampões para os ouvidos e lá adormeci... para acordar às 2h30!? Que frio pah! Não é normal! Pelo menos já não sabia o que era isso e fiquei muito indignado! Tinha os pés gelados, a cara também, mas algures entre os dois havia calor. As pernas ao léu também estavam geladas, percebi que o rádio do vizinho ainda estava ligado e o pior é que eu conhecia as músicas (não sei se isto é uma deficiência minha mas quando oiço uma música conhecida, ela começa a "tocar" sozinha na minha cabeça e eu preencho inconscientemente os bocados que não ouvi ou a letra que não se percebia... nada bom quando se está a tentar dormir!). Depois a maldita da torneira estava sempre a deitar água, os galos começaram a cantar, o saco de cama era curto de mais para eu me esconder todo lá dentro, enrolado não dava jeito e o amoque não parava de abanar, a almofada estava torta, as calças faziam um alto por baixo das costas, quanto mais me mexo e ajeito mais o sono foge... ah, olha, que engraçado, o despertador....  Já são 5h00!?

 Foi uma noite péssima mas não importou porque acordei para este espectáculo:

Boa Esperança, uma das comunidades contempladas no estudo.
 Diz-se que a luz do nascer do sol é a melhor para fotografar e eu tenho que concordar. Pinta tudo com uns tons quentes mas ao contrário do pôr-do-sol, tem uma luz mais limpa... se é que isto faz algum sentido.
 Acordamos tão cedo porque é preciso fazer contagens de passarada e isto faz com que vejamos sempre vezes as pessoas a irem para o trabalho.


Foto pelas costas - "mesmo à sacana.... mas por outro lado se lhe
 pedisse permissão também não tinha resultado. Sim, boa desculpa."

 Este rapaz vai tirar vinho de palma. A actividade consiste em subir a uma palmeira (frequentemente) altíssima, abrir um buraco junto à base das folhas, espetar lá um garrafão, e esperar. Repete-se o processo quantas vezes forem necessárias.









Casa do Alexandre, o Presidente da Associação e um
senhor extremamente simpático e sorridente que nos ajuda sempre
que lá vamos.
  Adoro a frente desta casa - talvez porque normalmente elas não estão pintadas. Há qualquer coisa nas casas das comunidades que me atrai em termos de beleza. Acho que deve ser por parecer que foram simplesmente "invadidas" pelas pessoas e depois elas foram acrescentando bocados de madeira ao exterior, sem nunca mexer na "tecnologia" antiga que existia quando a encontraram.
Fiquei verdadeiramente maravilhado com este achado. Não via uma coisa destas há tanto tempo e para quem não sabe, é um ferro de engomar alimentado a brasas em vez de electricidade. Disse ao Gabriel que aquilo que ali estava era uma relíquia do tempo dos Afonsinhos (mas acho que exagerei) ao que ele  respondeu que é assim que as pessoas que não têm electricidade fazem. 


sábado, 5 de maio de 2012

No Mercado Novo

  Acho o mercado novo um sítio verdadeiramente especial repleto de vida e beleza. No rés-do-chão estão incontáveis bancadas onde (sobretudo) mulheres fazem os possíveis por chamar a atenção de quem por lá passa. Gritam, silvam, dizem o preço, perguntam se queremos alguma coisa, sugerem até pratos que poderíamos cozinhar com os ingredientes que elas vendem. Basicamente só não vale agarrar.
Imaginem a barulheira.




 No primeiro andar está tudo o resto. Há coisas para a casa-de-banho, roupa, zonas de jogos, tecidos, sapatos, cabeleireiros, malas, enfim, se precisarem de alguma coisa, provavelmente poderão encontrá-la no mercado.

Tecidos com padrões africanos pendurados.

Eu queria apenas captar o caos deste corredor, com toda a roupa pendurada no tecto, mas estas duas pequerruchas apareceram do nada e fizeram-me ganhar o dia com os seus sorrisos.

Senhoras a trançar o cabelo.

Normalmente estão pelo menos uns dez miúdos à volta das televisões mas desta vez encontrei-as assim. Os jogos são quase sempre jogos de futebol.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Chamiço

O sítio está pensado para ser uma espécie de hotel mas acho
que ainda falta um pouco até essa visão ser concretizada. 
 Fomos ao Chamiço observar rolas e céssias e a certa altura (convenientemente quando já estávamos cansados) começou a chover por isso acabámos todos debaixo do telhado de uma casa que lá existe.

 Todo o espaço é imensamente bonito sob uma chuva intensa por isso aproveitei para me perder um pouco.





Adoro galos. Normalmente são muito bonitos com todas aquelas cores e acho imensa piada à forma
como andam tão direitos, parecem uns dinossaurozinhos cheios de carácter!
Começo a suspeitar que tenho uma atracção sobre-natural para meter a mão nas teias destas senhoras. Claro que normalmente não se vêem tão bem...



Ah, tanto amor...
Já disse que gosto de galos? Este deve ter sido modelo fotográfico noutra encarnação porque esperava que eu tira-se as fotografias antes de se mexer novamente. Ah e aquilo ao lado são vassouras.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Bemposta

A senhora Basilia pede-me sempre coisas mas até hoje tenho-me
 conseguido escapar com umas graçolas.
 "Não tenho arroz mas venho carregado de boa disposição." Disse-lhe
 eu. Sempre que a senhora se ri, eu sinto que já ganhei o dia.
 O regresso às dez comunidades começou hoje com a visita à Bemposta. Estava um tempo terrível, com chuva e frio como eu já me tinha esquecido mas isso só fez as pessoas estarem mais unidas e acolhedoras.
 Visitar uma comunidade é algo que eu recomendo vivamente mas é preciso ter atenção a um facto muito importante: Entrar numa comunidade em São Tomé é o mesmo que entrar directamente na sala quando uma família muito grande está presente. Deve ser feito com respeito e consideração.
 Felizmente que como já fiz isto umas quantas vezes já me habituei a todos os olhares que gritam "quem é o branco...?" mas lembro-me perfeitamente que da primeira vez só sentia que não era bem vindo e que me devia era ir embora e depressa!
 Acho que as regras de conduta são as mesmas que em qualquer lugar. Sejam bem-educados, falem abertamente com a primeira pessoa que virem à frente, nem que seja apenas para cumprimentar. Mandem abaixo aquela barreira desconfortável com um sonoro "Olá, tudo fixe?" e um grande sorriso e pronto, é tudo o que é preciso para serem bem recebidos em qualquer lado.

Zu, a mulher do Nity, um dos assistentes do projecto. Está à porta da cozinha e ao lado está o galinheiro.
  As comunidades em São Tomé oferecem algo que sinto que se está a perder completamente no nosso mundo. Não é uma coisa palpável certamente, nem sequer uma experiência excitante. É algo extremamente simples e profundo. Uma espécie de sensação de pertença que só senti no Egipto mas para isso tive que lá viver quatro meses. Basta sentar-nos ao lado de alguém, com o rabo no cimento sujo e molhado que isto a que me refiro começará a surgir aos poucos - mas é preciso estarem bem atentos... Se só virem sujidade e "miséria" isto de que estou a falar vai passar-vos completamente ao lado... Eles brincam uns com os outros, gozam, provocam-se, conhecem-se tão bem como irmãos... e muitos são mesmo família... acho que a coisa a que me refiro é a facilidade de aceitar um estranho no seu meio. Acho que é isso que verdadeiramente distingue estas pessoas.

Calacha Vs Jiló
 Eu venho carregado de boa disposição mas também trago um tabuleiro de xadrez! Desde a segunda volta às comunidades que tenho dedicado boa parte do meu tempo a ensinar toda a gente (especialmente os mais novos) a jogar xadrez. Faço isto porque acredito que é a melhor forma de evitar que os miúdos queimem o seu tempo a caçar os vizinhos passaritos ao mesmo tempo que os ajuda a puxarem pela cabeça e a formarem planos.




 Não venham a São Tomé sem visitar umas quantas comunidades e quando as visitarem, saiam do carro e falem com as pessoas. Sentem-se um pouco no chão, aceitem um pouco de vinho de palma, sem pressa, leve-leve, sintam o que vos rodeia que prometo que vão aprender alguma coisa e no final vão-se sentir realmente bem com a vossa decisão.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Quiropterologia


 Hoje ao cair da noite fomos fazer algo diferente - apanhar morcegos. Lá os encontrámos escondidos debaixo de uma pequena ponte. Enquanto o Christoph servia-se da sua rede caseira para os capturar, eu aproveitava-me do número disparatado de morcegos cá fora para disparar que nem um perdido. Infelizmente a luz já não era muita e mesmo com o ISO puxado ao máximo, não consegui nenhuma que me agradasse.

 Depois de apanhados os bichos era preciso fazer coisas tão variadas como tirar biometrias, fotografar a asa e gravar as vocalizações com um detector de ultra-sons que parecia uma garrafa vinda do futuro - tem o mesmo formato familiar mas vem com ecran e botões e luzinhas. Posso também acrescentar que o som dos morcegos, depois de convertidos para uma frequência que os nossos ouvidos conseguem ouvir, é curiosamente parecido com o zumbido repetitivo de um disco-voador num filme barato.


Fanaliche - Hipposideros ruber
 Até são uns bichinhos bonitos se não tentassem morder furiosamente tudo o que se aproxima demasiado. (Aquilo ali é o nariz, claro. A boca está bem debaixo da focinheira)