Quanto tempo demora?
No máximo fica por dois dias
separados por uma noite (opção mais normal) mas a opção de um dia também está
no menu, embora não aconselhe nada isso – não se vai ver nada porque se estará
sempre a correr à frente do Sol.
É perigoso?
Sim. E não é daquele tipo de
perigo ah e tal, podes meter o pé numa raiz e torcê-lo e choras um pouco. É
mais daquele tipo de perigo em que confias todo o teu peso a uma raiz podre,
ela parte-se e tu cais e desapareces no meio da bruma fantasmagórica sem fazer
um único som.
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| Apenas uma das muitas crestas que terão que atravessar |
Vale a pena?
Sim! Vale! Aquilo lá em cima
parece saído de um livro do Senhor dos Anéis e se não acreditem continuem a
descer que as fotografias já vos vão convencer.
É preciso guia?
Sim. O caminho é longo e difícil
e deve-se ir com alguém experiente. Se alguma coisa correr mal (e tanta coisa
pode correr mal…!) podem crer que é melhor estar com alguém do que ficar para lá sozinho.
Por onde se vai?
O mais usual é subir-se a partir
do Jardim Botânico do Bom Sucesso mas deixem isso para o guia.
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| Se virem isto não se preocupem porque já está quase |
Material obrigatório
Botim/galochas – Não quero
imaginar como seria andar no meio de tanta lama e folhas molhadas sem um bom
par de galochas mas suspeito que seja… mau. E frio também!
Roupa quente (2x calças, 2x casaco
e 2x meias quentes) – Na hora de fazer a mala podem ser tentados a cortar esta
parte e irem mais leves. Afinal de contas como é que pode estar frio lá em cima
se cá em baixo está tanto sol? Acreditem que pode, especialmente na gravana
(Junho – Setembro)! E o frio que vem de mão dada com a humidade e a ventania daquele lugar é
o suficiente para vos enregelar até aos ossos e acordar a meio da noite sem nada para
vos aquecer a não ser a própria respiração! Levem pelo menos alguma coisa para
tapar a cabeça (gorro ou capucho do casaco) porque vai ser por
aí que vão perder grande parte do calor!
Roupa fresca (2x t-shirt, 2x sandálias,
2x meias frescas) – É o que vão usar quando estiverem a pingar de suor nas
subidas e descidas ou quando acabaram de chegar à Mesa do Pico e só querem
tirar os botins e deixar os pés respirar.
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| Grande parte da "subida" ao Pico é passada a descer! |
Tenda
- Vantagens: Mais espaço, partilhar
calor corporal (novamente as noites são um gelo!).
- Desvantagens: Peso. Implica transportar
qualquer coisa para meter debaixo do saco-cama porque se não, vão estar por cima de uma raiz que esteve todos estes anos a crescer enquanto aguardava pacientemente
pelo dia em que vocês teriam que se deitar por cima dela.
ou
Amoque (uma cama de rede com a
mania que é tropical)
- Vantagens: Leve. Evita a tal raiz.
Monta-se mais facilmente e em mais sítios que a tenda.
- Desvantagens: Só dá para uma
pessoa… Sim, é só isso. Se deitarem-se na diagonal, até podem beneficiar de um “chão”
(mais ou menos) direito.
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| "Olhem para mim, sou tão tropical." |
Frontal ou lanterna – Dá sempre jeito ter alguma coisa para iluminar os buracos traiçoeiros no caminho de regresso à tenda escura e gelada que vos aguarda.
Guarda-chuva ou impermeável – Eu prefiro
o segundo porque aquece e dá para meter entre o rabo frio e o chão molhado
quando se está a aquecer as mãos na fogueira.
Máquina fotográfica – É criminoso
ir-se lá a cima sem levar uma.
Cajado – Na subida não é tão
importante mas a descida é tão escorregadia que acho muito boa ideia pedirem ao
vosso guia que use o seu fiel machin para vos arranjar um cajado.
Doces e coisas boas – Açúcar rápido
antes das caminhadas é sempre boa ideia. E também porque é bom!
História
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| Caminho? Qual caminho? |
Éramos cinco ao início… estou a brincar,
continuámos a ser cinco no final, ninguém se perdeu… eu, o Bastien, o Gabriel, o
António e o Narciso começámos a subida a partir do Jardim do Bom Sucesso. A primeira parte do caminho não é novidade nenhuma, estamos já fartos de a fazer. Mas depois de se virar à esquerda na placa que aponta para a Lagoa Amélia e subir numa inclinação mais escondida é que as coisas começaram lentamente a fazer cara feia. Troncos escorregadios a bloquear totalmente o caminho, paredes com raízes salientes que tinham que ser escaladas, derrocadas que apagaram completamente o caminho, trechos super estreitos devido à erosão… bem, venha o diabo e escolha. Mas o que importa é que passámos tudo e conseguimos chegar eventualmente à Estação Sousa onde iríamos passar a primeira noite por isso começámos a montar a tenda e os amoques, a juntar lenha para a fogueira e a encher as garrafas de água no riacho mais próximo. Estava já a ficar escuro, a neblina tapava o céu e o frio cercava-nos. Era hora de trazer o fogo por isso o António despejou um pouco de gasolina para cima da lenha molhada e no tempo em que um fósforo demora a acender já tínhamos algo com que nos aquecer. Botins e meias, toalhas e t-shirts, casacos e mochilas, tudo foi pendurado ali ao lado para secar ou aquecer enquanto se preparava um belo esparguete com peixe fumado.
A primeira noite não correu
lá muito bem. Entrei para dentro do saco-cama vestindo apenas um casaco e as
mesmas calças de ganga castanhas que usei durante o dia… meti os tampões nos
ouvidos, fechei o saco-cama, e lá acabei por adormecer… …para acordar umas
poucas horas depois com os pés absolutamente gelados, insensíveis, mortos,
pronto. Foi difícil voltar a adormecer naquelas circunstâncias mas depois de
muita meditação e aceitação dos processos que envolvem o corte da corrente
sanguínea para as extremidades e de como isso era um processo natural e, no
momento, inevitável, lá consegui pregar olho novamente. Hás cinco fui acordado
por vozes e uma cor agradável de fogo no tecto do amoque. O frio só tinha
piorado, por isso tentei reanimar os pés enquanto fazia pontaria para dentro
dos botins gelados e me arrastava para junto do fogo como uma traça em busca da
luz.
O segundo dia começou bem com os
restos do esparguete da noite anterior e um cafezinho adoçado com leite
condensado. Tinha ficado combinado que iríamos tentar descobrir um caminho
alternativo por cima de uma cresta que evitasse todos os perigos que passámos
no dia anterior mas como o mato estava todo lá e o caminho simplesmente não
existia, senti-me muitas vezes como um elefante a furar pela floresta, por
vezes na vertical, pendurado nas árvores, a escorregar sem controlo pela lama…
foi de doidos e adorei!
Regressados ao acampamento era
hora de arrumar tudo e voltar à estrada. A floresta mudava gradualmente à
medida que subíamos. Ficava mais misteriosa, mais mágica, os musgos cobriam
cada vez mais os troncos, as nuvens passavam rápido por cima das copas baixas,
os pássaros calavam-se, os insectos escondiam-se. Estávamos claramente a entrar
num reino misterioso que os seus habitantes não queriam que fosse descoberto.
Voltámos a montar o acampamento na Mesa do Pico. O sítio
não parecia deste mundo, a sua beleza era realmente inacreditável com todas as espécies
de musgos a cobrir cada centímetro das árvores que lá
crescem. Era neste dia que iríamos subir até ao pico por isso depois de
almoçarmos pão com queijo e atum – uma verdadeira delícia se o pão for tostado
sobre o fogo e entre as lâminas de dois machins – lá agarrámos o mínimo
imprescindível e começámos a última subida.
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| Preparem-se mentalmente para a escalada! |
Eu pensava ingenuamente que o pior
já tinha passado, todos me disseram que chegaríamos lá em meia hora, ou vinte
minutos até. O que não me disseram é que seriam vinte minutos pendurado em
paredes verticais cercadas por precipícios! Mas que perfeita loucura que aquilo
foi! Sempre que pensava em subir, testava sempre as raízes onde estava a
depositar a minha vida porque bastava apenas uma delas se soltar que nem sei
bem onde iria parar… ok, provavelmente não iria muito longe porque havia lá várias à
escolha. Alguma me iria socorrer. Escalámos e escalámos até que chegámos finalmente ao nosso destino. Aquilo pelo qual subimos tanto e durante tanto tempo. Uma clareira minúscula no meio de umas árvores magrinhas e sem graça. As nuvens brancas e espessas tapavam tudo. Não se via o resto da ilha, nem sequer o mar, não se via nada. Mas como tínhamos tempo decidimos esperar, ler as placas, e foi aí que comecei a sentir algo diferente. Algo conhecido. Numa tentativa de me explicar ao Gabriel, disse que São Tomé não tem “ondas para pensar”. Passo a explicar: O mar que cerca Portugal (o Centro e Norte, pelo menos) tem uma ondulação fantástica e basta estar ali um pouco sentado a ouvir o que ele tem para nos dizer que a solução para os nossos problemas parece subitamente fácil, alcançável. São Tomé não tem o mesmo mar mas senti que o pico era um desses sítios para reflecti, para parar um pouco. Para pensar onde estamos, o que já fizemos e o que queremos fazer de seguida… mas talvez isto seja apenas eu.
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| No Pico! (Claridade a mais! Tenho, que, manter, os olhos, abertos!) |

A ementa da noite anterior repetiu-se ao
jantar mas o frio que se sentia trouxe-nos para mais perto do fogo. A madeira
chiava, crepitava, espumava nas feridas abertas e foi com esta música que falámos
de feiticeiros e extraterrestres, até que o António ligou o rádio do telemóvel
e começámos a seguir o jogo de Portugal x Holanda. Assim foi até que o senhor do outro lado nos
garantiu que Portugal tinha mesmo passado aos quartos de final.
Como queria (e precisava) de dormir bem naquele
noite, decidi vestir tudo o que tinha, ou seja, as duas t-shirts fininhas e o
casaco com capucho mas numa tentativa desesperada de aquecer os pés, acabei por
vestir o impermeável como se fossem umas calças com as mangas fechadas! De nada
valeu e acordei de hora a hora até o fogo me convidar a sair.

Quando me perguntaram se dormi bem a resposta
honesta foi um não. Aliás, nem sei se dormi. Foi mais uma noite gasta à espera
que o Sol voltasse. Umas horas parado a descansar os músculos das pernas. Mas
nada disso importava porque ali estava o fogo novamente. As meias fumegavam, os
pés ardiam, todos se chegavam um pouco mais perto, de mãos esticadas, ninguém
falava.
Se a subida ao pico é uma perfeita loucura, a
descida não podia ser muito diferente. Felizmente que desta vez levei comigo um
pequeno cajado (altamente recomendável nesta parte) que me ajudou a não passar
o tempo todo com o rabo no chão.
No final ninguém se magoou muito e chegámos
todos inteiros e felizes, ainda que absolutamente arrasados. Valeu a pena e se
puder volto lá para filmar e fotografar o que deixei para trás!