domingo, 22 de julho de 2012

Entre a Praia Grande e o Pico Caué

 No outro dia vi-me a conduzir todo o caminho até aos lados da Emolve, no Sul de São Tomé. Se conseguirmos ignorar toda a desflorestação absurda que está a acontecer hoje em dia, a zona é lindíssima com o Pico do Cão Grande sempre a espreitar por cima do nosso ombro onde quer que vamos.
O carro ficou para os lados de Vila Irene e depois foi sempre a descer um caminho simples até chegarmos à  Praia Grande.




 Na Praia Grande a rocha vulcânica vai até ao mar e não cheguei a mergulhar mas como não se viam pescadores por todo o lado, sou levado a imaginar que deva haver muito peixe abrigado naquela baía.

 Se seguirem pela areia até à foz do Rio Caué serão subitamente surpreendidos com esta fantástica vista sobre o Pico do Cão Grande (ou Pico do Caué). Toda aquela praia pede para um pouco de reflexão e talvez um piquenique. O dia em que fui estava meio encoberto mas imagino que com bastante sol, a paisagem seja bem mais colorida!
 No caminho de regresso à estrada, junto à praia esperam-vos duas figueiras que já não sabem por onde crescer mais.
São tão grandes que chegam a formar autênticas paredes naturais. Tenham é cuidado com os ferros meio enterrados e as teias de aranha enormes.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Cavalariça abandonada

 Se gostam de ruínas perdidas no meio da floresta e tiverem a oportunidade de ir até Abade, então
aconselho vivamente a perguntarem a alguém onde está a antiga cavalariça (tenham é cuidado porque o sítio está cheio de aliança! Ao mínimo toque nos troncos ou nas folhas e elas caiem-vos em cima furiosas!)
O sítio apresenta-se como todas as ruínas quando vistas de longe; um par de paredes velhas meio engolidas pela floresta. Mas é quando se entra e explora o sítio com calma que ele começa a contar a sua história.


Manjedoura para os cavalos. Também conseguem ver os cavalos amarrados nas argolas de metal enquanto alguém deitava palha por trás?


 Tenho bastante dificuldade em perceber como é que estas raízes ficaram assim, como cordas bem esticadas que abraçam toda a estrutura.


Pormenor das argolas metálicas para prender os cavalos

 São sítios como este que nos transportam para o passado e nos mostram o que aconteceria se as pessoas desaparecessem de um dia para o outro. Não é fácil encontrar sítios que nos transmitam esse tipo de sentimento, tão assustador como fantástico, mas as florestas de São Tomé são a excepção.

sábado, 14 de julho de 2012

Trepando até às rolas

 Estamos numa parte do projecto onde é necessário usar animais vivos para fazer experiências relacionadas com a capacidade de dispersão de sementes; uma frase tão curta e com tantos problemas...

 Tudo começou com a construção de uma zona de cativeiro com vegetação para manter confortavelmente vários animais ao mesmo tempo. Esta parte sozinha demorou três dias e o trabalho conjunto de muitas mãos e cabeças.

 Agora que já temos a casa, faltam só os inquilinos! Andámos por aí a espalhar a notícia de que queríamos pombos vivos e felizes e inteiros e que pagávamos por cada um por isso a resposta inicial foi extremamente positiva; todos garantiam que iam já a correr apanhá-los, montes de armadilhas, tudo mobilizado, e que amanhã teríamos já todos os bichos que alguma vez pudéssemos precisar. No dia seguinte eles já nem se lembravam de terem falado connosco e como isto se repetiu outra e outra vez, terminando num exemplo perfeito de gabarolice geral, tivemos que mudar de estratégia uma e outra vez e tomar nós a iniciativa de ir apanhar os bichos.

 A técnica mais usual é simples de perceber: retira-se visco (no fim do tratamento parece  uma pastilha elástica gigante) de uma jaqueira ou (melhor ainda) de uma fruteira, passa-se azeite para não secar e para esconder o cheiro, enrola-se isso nos ramos onde os bichos são mais prováveis de pisar, e espera-se pacientemente para os ver cair.

 Hoje acordámos às 3h45 com a missão de ir apanhar rolas para os lados de Java e acho que a fotografia do lado ilustra muitíssimo bem o perigo absurdo que é "remar" visco nas árvores onde as rolas se alimentam. Chamam-lhe Zé Caçarias e ele subiu aquela árvore sem cordas nem ramos nem nada de nada; atirou-se simplesmente ao tronco com unhas e dentes e começou a trepar pacientemente perante o meu olhar incrédulo... tentei comportar-me profissionalmente mas quando ele já estava a uns bons vinte ou trinta metros do chão tinha mesmo que fotografar!

 No final esperámos que nos fartámos enquanto as camusselas, os tordos, os jêgues e os tcholós (tudo passarada) desfilavam à nossa frente mas talvez por causa da chuva molha-parvos e do vento frio de gravana, as rolas não caíram.

 Vamos lá a ver o que nos esperam os próximos dias...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sem luz nem internet

 Estou há bastante tempo sem escrever (aqui no blog, pelo menos) e vou desculpar-me com o facto de ter passado os últimos tempos ou sem luz, ou sem internet e como um leva ao outro, acho que a desculpa pode funcionar.
 A falta de luz começou numa tarde como as outras, o modem foi abaixo e o portátil ficou de noite, "nada de especial", pensei eu. Toca a meter tudo em poupança (que ultimamente só dura 15minutos) e esperar que volte. Mas não voltou por isso acabámos por ser forçados a perceber que o corte não era geral, nós é que nos tínhamos esquecido de pagar a electricidade... ora, isto era Sábado à tarde e como aquilo ia estar fechado, acabámos por passar as duas noites seguintes a ler os nossos livrinhos à luz do frontal.
 Há qualquer coisa especialmente libertadora que acompanha a falta de electricidade. Tentamos trabalhar até a bateria do portátil falhar e depois pronto, temos permissão para cruzar os braços e ir ler. É uma resignação que não pesa na consciência; quem não gostaria disso?
 Já a falta de internet trás outras vantagens: Já recebi emails novos? O que há de novo no facebook, e nos blogs? E em todos os outros sites? Tudo isso está em pausa até a internet voltar... e em São Tomé, quando uma coisa avaria, primeiro que seja consertada ainda vai levar algum tempo.
 O processo de trazer a internet de volta é lento e requer paciência. Muita paciência. Começa por transmitir o nosso problema a quem pode solucioná-lo e para isso é preciso saltar a Muralha de Incompetência da CST cuja única missão parece ser afastar o público de chegar até aos verdadeiros "solucionadores" de problemas. Para isso eles servem-se de técnicas simples tais como dizer que devemos esperar, que não é aqui que se pergunta isso, é ali, ou ainda com os já muito gastos "peço desculpa mas não sei ajudar mais". Se conseguiram saltar esta barreira já têm meio caminho andado porque agora só resta chatear a pessoa que está lá atrás até a internet reaparecer por magia. Foi o que eu fiz e resultou.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Passeio ao Ilhéu das Cabras

Pescador na baía Ana Chaves
    No outro dia acordei cedo, meti na mochila tudo o que tinha uma lente, preparei uma sandocha para o caminho, e meti-me no carro em direcção à Marapa; era dia de observar golfinhos.


Placa à porta da ONG Marapa 
  A coisa começou bem com uma introdução simples sobre as espécies que já foram avistadas e quais poderíamos ainda ter a sorte de observar. Enquanto os slides passavam, eu ia sempre comparando o tamanho do bicho com o do pequeno mergulhador que aparecia no canto. Quem me dera ver uma baleia de bossa ou um cachalote.




Ilhéu das cabras 
   Já no barco, rumámos em direcção ao Ilhéu das Cabras, um rochedo com um farol que pode ser facilmente visto a partir da cidade. O mar estava calmo, o sol brilhava e a ilha afastava-se. O mar estendia-se, interminável, calmante, e por cima das nossas cabeças passava o ocasional falcão (o milhafre português que aqui ganhou um gosto estranho pelo mar) e o concozuco (esta sim uma ave marinha lindíssima).



Pescadores nas suas canoas tradicionais 

    Há medida que avançávamos, a antecipação só aumentava. Onde raio andam esses golfinhos? Era o que devia passar pela cabeça de todos a bordo à medida que sondávam o horizonte em busca de tudo o que pudesse ter uma barbatana. E curiosamente, é nessas situações que todas as míseras ondinhas parecem um barbatana para o olho destreinado.

Ilhéu das Cabras com a Ilha de São Tomé atrás 

    Procurámos e procurámos, mas no final nada de golfinhos. Aliás, o único animal mais invulgar que tive a sorte de ver foram mesmo os peixes-voadores que de vez em quando saltavam e planavam para longe do barco.

A praia do ilhéu é pequenina e na maré alta desaparece completamente 

Escadaria no Ilhéu das Cabras
    No regresso acabámos por dar um saltinho ao próprio ilhéu das cabras. Enquanto parte da tripulação do barco explorava o que havia debaixo de água, a outra metade aventurava-se ilhéu acima. Eu não me consegui decidir e acabei por fazer tudo. As vistas debaixo de água são muito bonitas, embora um pouco aborrecidas se nos afastarmos do ilhéu porque só se vê areia. Mas vê-se areia até perder de vista, a visibilidade era incrível mesmo! Mas mais perto havia todo o tipo de peixotos pequeninos e uma variedade mais saudável de corais e algas comparada com a que tenho encontrado nas praias do norte da ilha. Fui é recebido por o que só podiam ser alforrecas minúsculas que me iam picando à medida que nadava de volta à praia.

    A vegetação da ilha é simples porque imagino que o vento salgado e a falta de solo não deixe as árvores cresceram muito. Vêem-se cactos e caroçeiros pequenos como arbustos por todo o lado e uma ou outra lagartixa mas fora isso a ilha parece bastante deserta tanto de gente como das cabras que imagino que lhe terão dado o nome.No ilhéu existe uma escadaria que é preciso subir para se chegar ao topo onde está o Farol (que agora está fechado mas com um pouco de ginástica, é possível chegar-se mesmo até ao topo)

Vista do topo do Ilhéu das Cabras

Barcos afundados na Baía Ana Chaves 

    No final o passeio ficou por 735.000 STD (30€) que podem ser pagos tanto em dobras como em euros. Gostei bastante; é sempre bom regressar ao mar para pôr a cabeça em ordem, embora sem termos visto os amigos golfinhos.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

De volta ao Mercado

 Ir às compras no mercado é sempre uma experiência um pouco transcendental. Tantos olhos, tantos assobios, branco aqui branco. Devo ser feito de ouro, todos querem um bocado. Então aquela parte com o peixe entre a paragem das hiaces e os caixotes do lixo no Mercado Velho é das melhores. Os cães a passar, as hiaces a descarregar, o lixo por todo o lado, e o peixe ali mesmo, fresquinho e brilhante. Tanta gente a chamar, tocar, apontar, assobiar. Naquelas situações de pressão costumo desligar um pouco o cérebro, talvez para não sofrer danos maiores. "Seis por dez", diz-me uma senhora. "Oito por quinze" grita a companheira do lado e começam as duas a insultar-se em forro! "Seis quê...?" Bem, quando dei por mim já tinha doze peixes no saco, menos dinheiro na carteira e as minhas pernas levavam-me para longe dali. Aquilo é um espectáculo mas é de doidos!
 No mercado novo as coisas são mais calmas mas ainda assim a pressão sente-se na mesma. Como uma força que nos empurra pelas costas em direcção à saída mais próxima. Comprámos de tudo um pouco mas quando já nos acostumamos àquele ambiente hostil, aí é que a verdadeira diversão começa. Regatear preços. Reclamar da cor dos tomates que a mulher nos está a escolher. Falar mal do preço geral das bananas. Tentar trocar cenouras pequenas por grandes. Brincar com a senhora que está a pesar meio quilo com a balança virada para ela, enfim! Acho que já disse isto mas não tem mal repetir. Ir ao mercado é uma experiência única. Vão e percam-se sabendo que a ideia não é sentirem-se confortáveis e tranquilos mas sim viverem uma experiência estranhamente boa!




segunda-feira, 25 de junho de 2012

A palmeira e o vinho

 Não é raro andarmos quilómetros no meio da floresta, completamente perdidos, fora de qualquer caminho e longe de qualquer traço de civilização, e  cruza-nos com um destes senhores a cumprimentar-nos do cimo da sua bela palmeira!
 São vinhateiros e o trabalho deles é muito resumidamente subir às suas palmeiras (usando uns arames grossos que dão a volta ao tronco e se prendem nos pés), martelar na base das folhas, onde crescem as flores, e espetar lá um garrafão que irá encher lentamente ao longo do dia. Depois é só preciso ir lá esvaziar o garrafão para outro um pouco maior, filtrar a mistela com um funil com fios de plástico (como os na fotografia) e deixar fermentar um pouco. Num instante temos o vinho de palma, bebida altamente apreciada em todo o lado! A coisa normalmente vende por 5000STD por caneca (garrafa de plástico cortada) o que dá aí uns 0,20€, por isso não admira que seja tão apreciado! A cor é leitosa e o sabor não é mau, é assim estranho, como se fosse fruta, mas menos doce. E a quantidade de álcool também é fraquinha, talvez semelhante a cerveja. Basicamente sabe a uma coisa que parece que não era suposto estarmos a beber sem ter havido algum tipo de tratamento... mas não é mau, atenção! Se nunca provaram acho que é essencial provar e para isso basta pedir um copinho a um vinhateiro na sua palmeira. Eles têm tanto deste "leite" que certamente não terão problemas em oferecer um pouco em troca de uns quantos elogios ao seu produto - eles adoram ouvir que o vinho deles é o melhor.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Como escrevo...

 Já não tocava no meu livro há demasiado tempo e por isso começava a crescer em mim um sentimento de preocupação, sempre intercalado ou até tapado por trabalho. Quando fico muito tempo sem escrever tenho receio de deixar de conseguir regressar ao mundo onde se passa a história. De me esquecer da cara das personagens, das suas vozes e personalidades e roupas. Não tenho medo de ficar sem ideias, acredito que isso só acontecerá quando morrer, mas sim de ficar cego para este mundo que descobri. Como posso descrevê-lo se não o conseguir ver? Foi com esta incerteza que recomecei hoje no único sítio que podia começar, no primeiro capítulo, e ao ver com um sorriso as palavras a surgirem umas atrás das outras numa delicada ordem percebi que ainda não estou cego. E assim o mundo cresceu (e continua a crescer) mais um pouco de cada vez. Há sempre espaços nas entrelinhas que podem ser desenvolvidos, como rebentos brotando de um tronco maior e mais seguro. Hás vezes ficam bem, são esses os que eu não podo. Olhando para a grossura dos livros da Song of Ice and Fire, imagino que seja assim que o senhor Martin escreve os seus livros - escrevendo um esqueleto central e depois enchendo o resto com os órgãos e tecidos que faltam. Ou então o homem é um deus que escreve tudo à primeira. Não o conheço, não sei. Normalmente ponho um par de músicas calmas a tocar em repeat e deixo as palavras saírem sozinhas para preencher os buracos do puzzle que já está criado algures. Ou fui eu que o criei? Não sei dizer, ás vezes parece que apenas o descobri. Um grupo musical que costuma resultar em grandes sessões de transe de escrita tem sido Massive Attack, nomeadamente as músicas Tear Drop, Mezzanine e Risingson. Estas últimas duas são tão negras que só me fazem pensar numa personagem muito especial da história. Toda ela é veneno, máquinas e escuridão embrulhados num belo pacote de sofrimento. Adoro explorar as partes da história onde ela aparece... coitada da Tox. Outra preocupação que tenho com bastante frequência é ser (demasiado) perfeccionista e de passar o tempo todo a roer partes que me pareçam menos boas, ou pronto, imperfeitas. Com estas migalhas criei um outro documento que, de momento, tem quase metade das páginas do livro original - se é que isso pode ser indicador de alguma coisa. Um dia vou tentar perceber porque é que estou a coleccionar as migalhas mas até lá continuo a roer. No fundo quero acreditar que isso só deixa a história melhor, mas também pode ser que esteja apenas a afastar-me do final. Se não avançar, como poderei algum dia acabar?
 Qual será a melhor forma para escrever bem e depressa? Imagino que haja duas estratégias e, como sempre, a escolha certa deve ser algures no meio. Será que é melhor planear tudo muito muito bem e quando se sabe absolutamente tudo o que acontecerá onde e quando, aí sim, começa-se a construir sem parar, do início ao fim. Ou será que o melhor é começar sem grandes planos e deixar a história desenvolver-se lentamente à medida que a estamos a escrever? Sinceramente gosto mais de escrever assim, gosto quando as minhas personagens me surpreendem com as suas escolhas, mas o problema é que não é raro ter que cortar coisas (daí o tal documento) porque subitamente percebi que há algo que não "pode ser assim" e por isso tenho que fazer sérias alterações... Bem, que post secante este está a ser... peço desculpa.

Vou voltar para lá.

Com licença.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O fim da estrada

O fim da estrada é uma das estranhas atracções que São Tomé tem para oferecer. Basta olhar para o mapa das estradas para perceber que o anel não fecha, há uma área misteriosa no Sudoeste do país sem estradas nem comunidades. O percurso normal para lá chegar é simples, basta chegar à marginal e começar a conduzir em direcção à esquerda (com o mar de frente) e continuar até não dar mais. Vão passar por um par de comunidades até atravessarem Guadalupe, depois viram as planícies de savana e a fantástica marginal com os pescadores nas suas canoas, a Lagoa azul e a estrada serpenteante com os penhascos a olhar-nos com superioridade, Neves e o caos de pessoas, porcos, hiaces, motas e cabras, de seguida Ponta Figo e as palmeiras, o túnel, as praias a preto e branco, Santa Catarina, com as casas de madeira à beira mar, a ponte sobre o rio Lembá, a maior do país, e por esta altura o alcatrão acabou, mais um pouco a subir, Ponta Furada do vosso lado direito, continuem, está quase, os campos de cafezeiros de cada lado e as copas por cima e... pronto, podem sair do carro e fazer o resto do caminho a pé porque acabaram de chegar ao fim da estrada.



 O fim da estrada não surge como uma linha traçada por alguém. Esse tipo de divisão não seria natural, não é assim que a Natureza opera. Em vez disso surge gradualmente com pequenos rebentos pioneiros que lutam por reconstituir vida à gravilha cinzenta. Aos poucos, plantas maiores vão surgindo, fetos, flores. A floresta convida-nos silenciosamente a continuar.



 A certa altura a estrada já desapareceu e apenas uma berma mais alta usada actualmente por vinhateiros e caçadores dá alguma pista que por baixo dos nossos pés jaz uma antiga estrada movimentada.



 Mais uma centena de metros para as profundezas e as árvores e palmeiras reinam sobre o que outrora foi terra de Homem. Este é o sítio onde a Civilização desaparece debaixo de raízes poderosas e dá humildemente lugar à Natureza.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Ascensão ao Pico


 Passei os últimos três dias e duas noites no pico de São Tomé a trabalhar num projecto que tem como objectivo a reabilitação dos percursos pedestres da ilha e como acho que isto será um assunto útil e que poderá interessar a bastante gente, vou tentar ser crítico e informativo nesta metade do post que se segue. Como também acho que poderá haver benefício em contar como tudo se passou, deixo isso para a segunda parte do super post de hoje.


Turismo


Perguntas

Quanto tempo demora?

No máximo fica por dois dias separados por uma noite (opção mais normal) mas a opção de um dia também está no menu, embora não aconselhe nada isso – não se vai ver nada porque se estará sempre a correr à frente do Sol.

É perigoso?
Sim. E não é daquele tipo de perigo ah e tal, podes meter o pé numa raiz e torcê-lo e choras um pouco. É mais daquele tipo de perigo em que confias todo o teu peso a uma raiz podre, ela parte-se e tu cais e desapareces no meio da bruma fantasmagórica sem fazer um único som.

Apenas uma das muitas crestas que terão que atravessar
Vale a pena?
Sim! Vale! Aquilo lá em cima parece saído de um livro do Senhor dos Anéis e se não acreditem continuem a descer que as fotografias já vos vão convencer.

 
É preciso guia?
Sim. O caminho é longo e difícil e deve-se ir com alguém experiente. Se alguma coisa correr mal (e tanta coisa pode correr mal…!) podem crer que é melhor estar com alguém do que ficar para lá sozinho.


Por onde se vai?
O mais usual é subir-se a partir do Jardim Botânico do Bom Sucesso mas deixem isso para o guia.

Se virem isto não se preocupem porque já está quase




Material obrigatório

Botim/galochas – Não quero imaginar como seria andar no meio de tanta lama e folhas molhadas sem um bom par de galochas mas suspeito que seja… mau. E frio também!

Roupa quente (2x calças, 2x casaco e 2x meias quentes) – Na hora de fazer a mala podem ser tentados a cortar esta parte e irem mais leves. Afinal de contas como é que pode estar frio lá em cima se cá em baixo está tanto sol? Acreditem que pode, especialmente na gravana (Junho – Setembro)! E o frio que vem de mão dada com a humidade e a ventania daquele lugar é o suficiente para vos enregelar até aos ossos e acordar a meio da noite sem nada para vos aquecer a não ser a própria respiração! Levem pelo menos alguma coisa para tapar a cabeça (gorro ou capucho do casaco) porque vai ser por aí que vão perder grande parte do calor!

Roupa fresca (2x t-shirt, 2x sandálias, 2x meias frescas) – É o que vão usar quando estiverem a pingar de suor nas subidas e descidas ou quando acabaram de chegar à Mesa do Pico e só querem tirar os botins e deixar os pés respirar.

Grande parte da "subida" ao Pico é passada a descer!
Tenda
- Vantagens: Mais espaço, partilhar calor corporal (novamente as noites são um gelo!).
- Desvantagens: Peso. Implica transportar qualquer coisa para meter debaixo do saco-cama porque se não, vão estar por cima de uma raiz que esteve todos estes anos a crescer enquanto aguardava pacientemente pelo dia em que vocês teriam que se deitar por cima dela.

ou

Amoque (uma cama de rede com a mania que é tropical)
- Vantagens: Leve. Evita a tal raiz. Monta-se mais facilmente e em mais sítios que a tenda.
- Desvantagens: Só dá para uma pessoa… Sim, é só isso. Se deitarem-se na diagonal, até podem beneficiar de um “chão” (mais ou menos) direito.

"Olhem para mim, sou tão tropical."
Frontal ou lanterna – Dá sempre jeito ter alguma coisa para iluminar os buracos traiçoeiros no caminho de regresso à tenda escura e gelada que vos aguarda.

Guarda-chuva ou impermeável – Eu prefiro o segundo porque aquece e dá para meter entre o rabo frio e o chão molhado quando se está a aquecer as mãos na fogueira.

Máquina fotográfica – É criminoso ir-se lá a cima sem levar uma.

Cajado – Na subida não é tão importante mas a descida é tão escorregadia que acho muito boa ideia pedirem ao vosso guia que use o seu fiel machin para vos arranjar um cajado.

Doces e coisas boas – Açúcar rápido antes das caminhadas é sempre boa ideia. E também porque é bom!


História


Caminho? Qual caminho?
 Éramos cinco ao início…          estou a brincar, continuámos a ser cinco no final, ninguém se perdeu… eu, o Bastien, o Gabriel, o António e o Narciso começámos a subida a partir do Jardim do Bom Sucesso. A primeira parte do caminho não é novidade nenhuma, estamos já fartos de a fazer. Mas depois de se virar à esquerda na placa que aponta para a Lagoa Amélia e subir numa inclinação mais escondida é que as coisas começaram lentamente a fazer cara feia. Troncos escorregadios a bloquear totalmente o caminho, paredes com raízes salientes que tinham que ser escaladas, derrocadas que apagaram completamente o caminho, trechos super estreitos devido à erosão… bem, venha o diabo e escolha. Mas o que importa é que passámos tudo e conseguimos chegar eventualmente à Estação Sousa onde iríamos passar a primeira noite por isso começámos a montar a tenda e os amoques, a juntar lenha para a fogueira e a encher as garrafas de água no riacho mais próximo. Estava já a ficar escuro, a neblina tapava o céu e o frio cercava-nos. Era hora de trazer o fogo por isso o António despejou um pouco de gasolina para cima da lenha molhada e no tempo em que um fósforo demora a acender já tínhamos algo com que nos aquecer. Botins e meias, toalhas e t-shirts, casacos e mochilas, tudo foi pendurado ali ao lado para secar ou aquecer enquanto se preparava um belo esparguete com peixe fumado.






 A primeira noite não correu lá muito bem. Entrei para dentro do saco-cama vestindo apenas um casaco e as mesmas calças de ganga castanhas que usei durante o dia… meti os tampões nos ouvidos, fechei o saco-cama, e lá acabei por adormecer… …para acordar umas poucas horas depois com os pés absolutamente gelados, insensíveis, mortos, pronto. Foi difícil voltar a adormecer naquelas circunstâncias mas depois de muita meditação e aceitação dos processos que envolvem o corte da corrente sanguínea para as extremidades e de como isso era um processo natural e, no momento, inevitável, lá consegui pregar olho novamente. Hás cinco fui acordado por vozes e uma cor agradável de fogo no tecto do amoque. O frio só tinha piorado, por isso tentei reanimar os pés enquanto fazia pontaria para dentro dos botins gelados e me arrastava para junto do fogo como uma traça em busca da luz.

 O segundo dia começou bem com os restos do esparguete da noite anterior e um cafezinho adoçado com leite condensado. Tinha ficado combinado que iríamos tentar descobrir um caminho alternativo por cima de uma cresta que evitasse todos os perigos que passámos no dia anterior mas como o mato estava todo lá e o caminho simplesmente não existia, senti-me muitas vezes como um elefante a furar pela floresta, por vezes na vertical, pendurado nas árvores, a escorregar sem controlo pela lama… foi de doidos e adorei!

 Regressados ao acampamento era hora de arrumar tudo e voltar à estrada. A floresta mudava gradualmente à medida que subíamos. Ficava mais misteriosa, mais mágica, os musgos cobriam cada vez mais os troncos, as nuvens passavam rápido por cima das copas baixas, os pássaros calavam-se, os insectos escondiam-se. Estávamos claramente a entrar num reino misterioso que os seus habitantes não queriam que fosse descoberto.


 Voltámos a montar o acampamento na Mesa do Pico. O sítio não parecia deste mundo, a sua beleza era realmente inacreditável com todas as espécies de musgos a cobrir cada centímetro das árvores que lá crescem. Era neste dia que iríamos subir até ao pico por isso depois de almoçarmos pão com queijo e atum – uma verdadeira delícia se o pão for tostado sobre o fogo e entre as lâminas de dois machins – lá agarrámos o mínimo imprescindível e começámos a última subida.

Preparem-se mentalmente para a escalada!
 Eu pensava ingenuamente que o pior já tinha passado, todos me disseram que chegaríamos lá em meia hora, ou vinte minutos até. O que não me disseram é que seriam vinte minutos pendurado em paredes verticais cercadas por precipícios! Mas que perfeita loucura que aquilo foi! Sempre que pensava em subir, testava sempre as raízes onde estava a depositar a minha vida porque bastava apenas uma delas se soltar que nem sei bem onde iria parar… ok, provavelmente não iria muito longe porque havia lá várias à escolha. Alguma me iria socorrer. Escalámos e escalámos até que chegámos finalmente ao nosso destino. Aquilo pelo qual subimos tanto e durante tanto tempo. Uma clareira minúscula no meio de umas árvores magrinhas e sem graça. As nuvens brancas e espessas tapavam tudo. Não se via o resto da ilha, nem sequer o mar, não se via nada. Mas como tínhamos tempo decidimos esperar, ler as placas, e foi aí que comecei a sentir algo diferente. Algo conhecido. Numa tentativa de me explicar ao Gabriel, disse que São Tomé não tem “ondas para pensar”. Passo a explicar: O mar que cerca Portugal (o Centro e Norte, pelo menos) tem uma ondulação fantástica e basta estar ali um pouco sentado a ouvir o que ele tem para nos dizer que a solução para os nossos problemas parece subitamente fácil, alcançável. São Tomé não tem o mesmo mar mas senti que o pico era um desses sítios para reflecti, para parar um pouco. Para pensar onde estamos, o que já fizemos e o que queremos fazer de seguida… mas talvez isto seja apenas eu.
No Pico! (Claridade a mais! Tenho, que, manter, os olhos, abertos!)

 A ementa da noite anterior repetiu-se ao jantar mas o frio que se sentia trouxe-nos para mais perto do fogo. A madeira chiava, crepitava, espumava nas feridas abertas e foi com esta música que falámos de feiticeiros e extraterrestres, até que o António ligou o rádio do telemóvel e começámos a seguir o jogo de Portugal x Holanda. Assim foi até que o senhor do outro lado nos garantiu que Portugal tinha mesmo passado aos quartos de final.
 Como queria (e precisava) de dormir bem naquele noite, decidi vestir tudo o que tinha, ou seja, as duas t-shirts fininhas e o casaco com capucho mas numa tentativa desesperada de aquecer os pés, acabei por vestir o impermeável como se fossem umas calças com as mangas fechadas! De nada valeu e acordei de hora a hora até o fogo me convidar a sair.
 Quando me perguntaram se dormi bem a resposta honesta foi um não. Aliás, nem sei se dormi. Foi mais uma noite gasta à espera que o Sol voltasse. Umas horas parado a descansar os músculos das pernas. Mas nada disso importava porque ali estava o fogo novamente. As meias fumegavam, os pés ardiam, todos se chegavam um pouco mais perto, de mãos esticadas, ninguém falava.




 Se a subida ao pico é uma perfeita loucura, a descida não podia ser muito diferente. Felizmente que desta vez levei comigo um pequeno cajado (altamente recomendável nesta parte) que me ajudou a não passar o tempo todo com o rabo no chão.


 No final ninguém se magoou muito e chegámos todos inteiros e felizes, ainda que absolutamente arrasados. Valeu a pena e se puder volto lá para filmar e fotografar o que deixei para trás!