terça-feira, 24 de julho de 2012

Descobrindo o vale do Rio Lembá

 Fomos fazer observações de pombo, desta vez, para o Sul do país. Seguindo o caminho que passa em frente à entrada de Ponta Furada em direcção a Bindá (mas sem virar à direita para a comunidade) esperam imensas coisas dignas de visita! Nem percebo como é que este sítio não está já cheio de excursões turísticas porque é realmente bonito e fácil de alcançar (a não ser quando chove muito, porque aí a passagem do rio Lembá torna-se quase impossível).
"Nós" chamamos-lhe rotunda mas é isso mesmo que se vê, uma pedra grande e redonda caída no meio da floresta.

A bela da borboleta a fazer-se às flores do cafezeiro.

Uma das casas gémeas que existem em S. José.

Digam lá se não parece uma cena saída do Jurassic Park? Eu pelo menos comecei logo a imaginar Stegosauros a beber água ao som da música do filme...
Bem sei que não é qualquer um que conseguirá apreciar isto mas passei-me com estas formações geológicas! Fazem lembrar a famosa calçada do gigante mas toda dobrada! E no meio de uma paisagem pré-histórica lindíssima.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Agripalma: A Vergonha de São Tomé

Vista do Cão Grande a partir da estrada
 Hoje era para ser um dia especial - e acabou por ser, mas pelas razões erradas... Estava programada uma visita à antiga Emolve (actual Agripalma) com o intuito de observar pombos (rola, céssia e pombo do mato) e assim perceber de que árvores eles se alimentam mais frequentemente.
 Passar o portão correu bem. Já ouvi histórias de que havia antigamente um tipo de selecção com contornos racistas feito logo à entrada: "branco não entra". Felizmente que não foi esse o caso e conseguimos entrar todos sem problemas.
 O carro ficou estacionado na comunidade e lá fomos nós em direcção ao sítio onde tinha sido marcado um transecto há não mais que três anos atrás. O transecto havia sido escolhido por ser um bom local para observar pombos, e como este é um conhecido sítio para ver a rara, endémica e ameaçada Íbis (ou Galinhola - Bostrychia bocagei) eu estava com as expectativas bem altas.
 Bem, quando o transecto começou, numa zona que anteriormente seria floresta cerrada, agora era um descampado enlameado. Já não haviam árvores nenhumas! Foram todas cortadas indiscriminadamente (com a excepção de um ou outro Viru vermelho).

 Sem querer desistir do objectivo que nos fez conduzir todo o caminho desde a cidade, continuámos pelo transecto, saltámos o rio, e descobrimos que do outro lado o cenário repetia-se. Com a excepção de um ou outro Viru-vermelho que permanecia comicamente sozinho no meio de toda aquela destruição, não havia uma única árvore de pé.

Ao longe uma escavadora fazia o seu trabalho implacavelmente enquanto toda a paisagem parecia chorar a destruição causada.
  Ao ver tudo derrubado fiquei imensamente triste e revoltado, por isso comecei a registar tudo e a tirar pontos GPS e o resultado é este mapa que se vê em baixo.
A linha verde assinala o limite com o Parque Natural Obô. Toda a área vermelha é antiga plantação de palmeira ou floresta que eu já vi que foi cortada. Como podem ver, há muita floresta que dantes estava de pé juntamente com as palmeiras da Emolve e agora perdeu-se...

 O governo de São Tomé e Príncipe assinou um contrato com a Agripalma, cedendo-lhes 5000 ha, ou seja, terra suficiente para que o negócio de venda de óleo de palma se torne rentável. O problema é que a decisão foi inegavelmente mal pensada e agora parece que não há maneira de voltar atrás... Toda a zona corresponde ao local onde se pode encontrar o Ibis, uma das três espécies de aves Criticamente Ameaçadas de São Tomé, e provavelmente a que corre maior perigo de desaparecer para sempre devido à destruição de habitat e caça descontrolada. E como se o Ibis e as outras aves endémicas presentes na zona não fossem suficientes para parar o abate descontrolado de árvores, é aqui que se pode observar o fantástico Pico do Cão Grande que, só por si, poderia e devia ser explorado como um foco de atracção turística importantíssimo para São Tomé e Príncipe! Mas não, em vez disso o governo decidiu que seria mais proveitoso para o país trocar toda a sua biodiversidade única no mundo por umas quantas toneladas de óleo...!

Pico do Cão Grande... o que és e o que podias ser!
 Ao falar com as pessoas da comunidade mais próxima vi que nem elas estavam felizes com o que está a passar. E como poderiam estar, com tudo o que se está a passar. Quando se troca dinheiro por natureza, não há maneira de não se sentir um aperto no coração. Como uma vozinha interior que nos diz que aquilo está errado.
 Ao caminhar de volta para o carro só conseguia olhar para o Pico do Cão Grande e imaginar. Tanto potencial... e todo mandado a baixo...

domingo, 22 de julho de 2012

Entre a Praia Grande e o Pico Caué

 No outro dia vi-me a conduzir todo o caminho até aos lados da Emolve, no Sul de São Tomé. Se conseguirmos ignorar toda a desflorestação absurda que está a acontecer hoje em dia, a zona é lindíssima com o Pico do Cão Grande sempre a espreitar por cima do nosso ombro onde quer que vamos.
O carro ficou para os lados de Vila Irene e depois foi sempre a descer um caminho simples até chegarmos à  Praia Grande.




 Na Praia Grande a rocha vulcânica vai até ao mar e não cheguei a mergulhar mas como não se viam pescadores por todo o lado, sou levado a imaginar que deva haver muito peixe abrigado naquela baía.

 Se seguirem pela areia até à foz do Rio Caué serão subitamente surpreendidos com esta fantástica vista sobre o Pico do Cão Grande (ou Pico do Caué). Toda aquela praia pede para um pouco de reflexão e talvez um piquenique. O dia em que fui estava meio encoberto mas imagino que com bastante sol, a paisagem seja bem mais colorida!
 No caminho de regresso à estrada, junto à praia esperam-vos duas figueiras que já não sabem por onde crescer mais.
São tão grandes que chegam a formar autênticas paredes naturais. Tenham é cuidado com os ferros meio enterrados e as teias de aranha enormes.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Cavalariça abandonada

 Se gostam de ruínas perdidas no meio da floresta e tiverem a oportunidade de ir até Abade, então
aconselho vivamente a perguntarem a alguém onde está a antiga cavalariça (tenham é cuidado porque o sítio está cheio de aliança! Ao mínimo toque nos troncos ou nas folhas e elas caiem-vos em cima furiosas!)
O sítio apresenta-se como todas as ruínas quando vistas de longe; um par de paredes velhas meio engolidas pela floresta. Mas é quando se entra e explora o sítio com calma que ele começa a contar a sua história.


Manjedoura para os cavalos. Também conseguem ver os cavalos amarrados nas argolas de metal enquanto alguém deitava palha por trás?


 Tenho bastante dificuldade em perceber como é que estas raízes ficaram assim, como cordas bem esticadas que abraçam toda a estrutura.


Pormenor das argolas metálicas para prender os cavalos

 São sítios como este que nos transportam para o passado e nos mostram o que aconteceria se as pessoas desaparecessem de um dia para o outro. Não é fácil encontrar sítios que nos transmitam esse tipo de sentimento, tão assustador como fantástico, mas as florestas de São Tomé são a excepção.

sábado, 14 de julho de 2012

Trepando até às rolas

 Estamos numa parte do projecto onde é necessário usar animais vivos para fazer experiências relacionadas com a capacidade de dispersão de sementes; uma frase tão curta e com tantos problemas...

 Tudo começou com a construção de uma zona de cativeiro com vegetação para manter confortavelmente vários animais ao mesmo tempo. Esta parte sozinha demorou três dias e o trabalho conjunto de muitas mãos e cabeças.

 Agora que já temos a casa, faltam só os inquilinos! Andámos por aí a espalhar a notícia de que queríamos pombos vivos e felizes e inteiros e que pagávamos por cada um por isso a resposta inicial foi extremamente positiva; todos garantiam que iam já a correr apanhá-los, montes de armadilhas, tudo mobilizado, e que amanhã teríamos já todos os bichos que alguma vez pudéssemos precisar. No dia seguinte eles já nem se lembravam de terem falado connosco e como isto se repetiu outra e outra vez, terminando num exemplo perfeito de gabarolice geral, tivemos que mudar de estratégia uma e outra vez e tomar nós a iniciativa de ir apanhar os bichos.

 A técnica mais usual é simples de perceber: retira-se visco (no fim do tratamento parece  uma pastilha elástica gigante) de uma jaqueira ou (melhor ainda) de uma fruteira, passa-se azeite para não secar e para esconder o cheiro, enrola-se isso nos ramos onde os bichos são mais prováveis de pisar, e espera-se pacientemente para os ver cair.

 Hoje acordámos às 3h45 com a missão de ir apanhar rolas para os lados de Java e acho que a fotografia do lado ilustra muitíssimo bem o perigo absurdo que é "remar" visco nas árvores onde as rolas se alimentam. Chamam-lhe Zé Caçarias e ele subiu aquela árvore sem cordas nem ramos nem nada de nada; atirou-se simplesmente ao tronco com unhas e dentes e começou a trepar pacientemente perante o meu olhar incrédulo... tentei comportar-me profissionalmente mas quando ele já estava a uns bons vinte ou trinta metros do chão tinha mesmo que fotografar!

 No final esperámos que nos fartámos enquanto as camusselas, os tordos, os jêgues e os tcholós (tudo passarada) desfilavam à nossa frente mas talvez por causa da chuva molha-parvos e do vento frio de gravana, as rolas não caíram.

 Vamos lá a ver o que nos esperam os próximos dias...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sem luz nem internet

 Estou há bastante tempo sem escrever (aqui no blog, pelo menos) e vou desculpar-me com o facto de ter passado os últimos tempos ou sem luz, ou sem internet e como um leva ao outro, acho que a desculpa pode funcionar.
 A falta de luz começou numa tarde como as outras, o modem foi abaixo e o portátil ficou de noite, "nada de especial", pensei eu. Toca a meter tudo em poupança (que ultimamente só dura 15minutos) e esperar que volte. Mas não voltou por isso acabámos por ser forçados a perceber que o corte não era geral, nós é que nos tínhamos esquecido de pagar a electricidade... ora, isto era Sábado à tarde e como aquilo ia estar fechado, acabámos por passar as duas noites seguintes a ler os nossos livrinhos à luz do frontal.
 Há qualquer coisa especialmente libertadora que acompanha a falta de electricidade. Tentamos trabalhar até a bateria do portátil falhar e depois pronto, temos permissão para cruzar os braços e ir ler. É uma resignação que não pesa na consciência; quem não gostaria disso?
 Já a falta de internet trás outras vantagens: Já recebi emails novos? O que há de novo no facebook, e nos blogs? E em todos os outros sites? Tudo isso está em pausa até a internet voltar... e em São Tomé, quando uma coisa avaria, primeiro que seja consertada ainda vai levar algum tempo.
 O processo de trazer a internet de volta é lento e requer paciência. Muita paciência. Começa por transmitir o nosso problema a quem pode solucioná-lo e para isso é preciso saltar a Muralha de Incompetência da CST cuja única missão parece ser afastar o público de chegar até aos verdadeiros "solucionadores" de problemas. Para isso eles servem-se de técnicas simples tais como dizer que devemos esperar, que não é aqui que se pergunta isso, é ali, ou ainda com os já muito gastos "peço desculpa mas não sei ajudar mais". Se conseguiram saltar esta barreira já têm meio caminho andado porque agora só resta chatear a pessoa que está lá atrás até a internet reaparecer por magia. Foi o que eu fiz e resultou.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Passeio ao Ilhéu das Cabras

Pescador na baía Ana Chaves
    No outro dia acordei cedo, meti na mochila tudo o que tinha uma lente, preparei uma sandocha para o caminho, e meti-me no carro em direcção à Marapa; era dia de observar golfinhos.


Placa à porta da ONG Marapa 
  A coisa começou bem com uma introdução simples sobre as espécies que já foram avistadas e quais poderíamos ainda ter a sorte de observar. Enquanto os slides passavam, eu ia sempre comparando o tamanho do bicho com o do pequeno mergulhador que aparecia no canto. Quem me dera ver uma baleia de bossa ou um cachalote.




Ilhéu das cabras 
   Já no barco, rumámos em direcção ao Ilhéu das Cabras, um rochedo com um farol que pode ser facilmente visto a partir da cidade. O mar estava calmo, o sol brilhava e a ilha afastava-se. O mar estendia-se, interminável, calmante, e por cima das nossas cabeças passava o ocasional falcão (o milhafre português que aqui ganhou um gosto estranho pelo mar) e o concozuco (esta sim uma ave marinha lindíssima).



Pescadores nas suas canoas tradicionais 

    Há medida que avançávamos, a antecipação só aumentava. Onde raio andam esses golfinhos? Era o que devia passar pela cabeça de todos a bordo à medida que sondávam o horizonte em busca de tudo o que pudesse ter uma barbatana. E curiosamente, é nessas situações que todas as míseras ondinhas parecem um barbatana para o olho destreinado.

Ilhéu das Cabras com a Ilha de São Tomé atrás 

    Procurámos e procurámos, mas no final nada de golfinhos. Aliás, o único animal mais invulgar que tive a sorte de ver foram mesmo os peixes-voadores que de vez em quando saltavam e planavam para longe do barco.

A praia do ilhéu é pequenina e na maré alta desaparece completamente 

Escadaria no Ilhéu das Cabras
    No regresso acabámos por dar um saltinho ao próprio ilhéu das cabras. Enquanto parte da tripulação do barco explorava o que havia debaixo de água, a outra metade aventurava-se ilhéu acima. Eu não me consegui decidir e acabei por fazer tudo. As vistas debaixo de água são muito bonitas, embora um pouco aborrecidas se nos afastarmos do ilhéu porque só se vê areia. Mas vê-se areia até perder de vista, a visibilidade era incrível mesmo! Mas mais perto havia todo o tipo de peixotos pequeninos e uma variedade mais saudável de corais e algas comparada com a que tenho encontrado nas praias do norte da ilha. Fui é recebido por o que só podiam ser alforrecas minúsculas que me iam picando à medida que nadava de volta à praia.

    A vegetação da ilha é simples porque imagino que o vento salgado e a falta de solo não deixe as árvores cresceram muito. Vêem-se cactos e caroçeiros pequenos como arbustos por todo o lado e uma ou outra lagartixa mas fora isso a ilha parece bastante deserta tanto de gente como das cabras que imagino que lhe terão dado o nome.No ilhéu existe uma escadaria que é preciso subir para se chegar ao topo onde está o Farol (que agora está fechado mas com um pouco de ginástica, é possível chegar-se mesmo até ao topo)

Vista do topo do Ilhéu das Cabras

Barcos afundados na Baía Ana Chaves 

    No final o passeio ficou por 735.000 STD (30€) que podem ser pagos tanto em dobras como em euros. Gostei bastante; é sempre bom regressar ao mar para pôr a cabeça em ordem, embora sem termos visto os amigos golfinhos.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

De volta ao Mercado

 Ir às compras no mercado é sempre uma experiência um pouco transcendental. Tantos olhos, tantos assobios, branco aqui branco. Devo ser feito de ouro, todos querem um bocado. Então aquela parte com o peixe entre a paragem das hiaces e os caixotes do lixo no Mercado Velho é das melhores. Os cães a passar, as hiaces a descarregar, o lixo por todo o lado, e o peixe ali mesmo, fresquinho e brilhante. Tanta gente a chamar, tocar, apontar, assobiar. Naquelas situações de pressão costumo desligar um pouco o cérebro, talvez para não sofrer danos maiores. "Seis por dez", diz-me uma senhora. "Oito por quinze" grita a companheira do lado e começam as duas a insultar-se em forro! "Seis quê...?" Bem, quando dei por mim já tinha doze peixes no saco, menos dinheiro na carteira e as minhas pernas levavam-me para longe dali. Aquilo é um espectáculo mas é de doidos!
 No mercado novo as coisas são mais calmas mas ainda assim a pressão sente-se na mesma. Como uma força que nos empurra pelas costas em direcção à saída mais próxima. Comprámos de tudo um pouco mas quando já nos acostumamos àquele ambiente hostil, aí é que a verdadeira diversão começa. Regatear preços. Reclamar da cor dos tomates que a mulher nos está a escolher. Falar mal do preço geral das bananas. Tentar trocar cenouras pequenas por grandes. Brincar com a senhora que está a pesar meio quilo com a balança virada para ela, enfim! Acho que já disse isto mas não tem mal repetir. Ir ao mercado é uma experiência única. Vão e percam-se sabendo que a ideia não é sentirem-se confortáveis e tranquilos mas sim viverem uma experiência estranhamente boa!




segunda-feira, 25 de junho de 2012

A palmeira e o vinho

 Não é raro andarmos quilómetros no meio da floresta, completamente perdidos, fora de qualquer caminho e longe de qualquer traço de civilização, e  cruza-nos com um destes senhores a cumprimentar-nos do cimo da sua bela palmeira!
 São vinhateiros e o trabalho deles é muito resumidamente subir às suas palmeiras (usando uns arames grossos que dão a volta ao tronco e se prendem nos pés), martelar na base das folhas, onde crescem as flores, e espetar lá um garrafão que irá encher lentamente ao longo do dia. Depois é só preciso ir lá esvaziar o garrafão para outro um pouco maior, filtrar a mistela com um funil com fios de plástico (como os na fotografia) e deixar fermentar um pouco. Num instante temos o vinho de palma, bebida altamente apreciada em todo o lado! A coisa normalmente vende por 5000STD por caneca (garrafa de plástico cortada) o que dá aí uns 0,20€, por isso não admira que seja tão apreciado! A cor é leitosa e o sabor não é mau, é assim estranho, como se fosse fruta, mas menos doce. E a quantidade de álcool também é fraquinha, talvez semelhante a cerveja. Basicamente sabe a uma coisa que parece que não era suposto estarmos a beber sem ter havido algum tipo de tratamento... mas não é mau, atenção! Se nunca provaram acho que é essencial provar e para isso basta pedir um copinho a um vinhateiro na sua palmeira. Eles têm tanto deste "leite" que certamente não terão problemas em oferecer um pouco em troca de uns quantos elogios ao seu produto - eles adoram ouvir que o vinho deles é o melhor.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Como escrevo...

 Já não tocava no meu livro há demasiado tempo e por isso começava a crescer em mim um sentimento de preocupação, sempre intercalado ou até tapado por trabalho. Quando fico muito tempo sem escrever tenho receio de deixar de conseguir regressar ao mundo onde se passa a história. De me esquecer da cara das personagens, das suas vozes e personalidades e roupas. Não tenho medo de ficar sem ideias, acredito que isso só acontecerá quando morrer, mas sim de ficar cego para este mundo que descobri. Como posso descrevê-lo se não o conseguir ver? Foi com esta incerteza que recomecei hoje no único sítio que podia começar, no primeiro capítulo, e ao ver com um sorriso as palavras a surgirem umas atrás das outras numa delicada ordem percebi que ainda não estou cego. E assim o mundo cresceu (e continua a crescer) mais um pouco de cada vez. Há sempre espaços nas entrelinhas que podem ser desenvolvidos, como rebentos brotando de um tronco maior e mais seguro. Hás vezes ficam bem, são esses os que eu não podo. Olhando para a grossura dos livros da Song of Ice and Fire, imagino que seja assim que o senhor Martin escreve os seus livros - escrevendo um esqueleto central e depois enchendo o resto com os órgãos e tecidos que faltam. Ou então o homem é um deus que escreve tudo à primeira. Não o conheço, não sei. Normalmente ponho um par de músicas calmas a tocar em repeat e deixo as palavras saírem sozinhas para preencher os buracos do puzzle que já está criado algures. Ou fui eu que o criei? Não sei dizer, ás vezes parece que apenas o descobri. Um grupo musical que costuma resultar em grandes sessões de transe de escrita tem sido Massive Attack, nomeadamente as músicas Tear Drop, Mezzanine e Risingson. Estas últimas duas são tão negras que só me fazem pensar numa personagem muito especial da história. Toda ela é veneno, máquinas e escuridão embrulhados num belo pacote de sofrimento. Adoro explorar as partes da história onde ela aparece... coitada da Tox. Outra preocupação que tenho com bastante frequência é ser (demasiado) perfeccionista e de passar o tempo todo a roer partes que me pareçam menos boas, ou pronto, imperfeitas. Com estas migalhas criei um outro documento que, de momento, tem quase metade das páginas do livro original - se é que isso pode ser indicador de alguma coisa. Um dia vou tentar perceber porque é que estou a coleccionar as migalhas mas até lá continuo a roer. No fundo quero acreditar que isso só deixa a história melhor, mas também pode ser que esteja apenas a afastar-me do final. Se não avançar, como poderei algum dia acabar?
 Qual será a melhor forma para escrever bem e depressa? Imagino que haja duas estratégias e, como sempre, a escolha certa deve ser algures no meio. Será que é melhor planear tudo muito muito bem e quando se sabe absolutamente tudo o que acontecerá onde e quando, aí sim, começa-se a construir sem parar, do início ao fim. Ou será que o melhor é começar sem grandes planos e deixar a história desenvolver-se lentamente à medida que a estamos a escrever? Sinceramente gosto mais de escrever assim, gosto quando as minhas personagens me surpreendem com as suas escolhas, mas o problema é que não é raro ter que cortar coisas (daí o tal documento) porque subitamente percebi que há algo que não "pode ser assim" e por isso tenho que fazer sérias alterações... Bem, que post secante este está a ser... peço desculpa.

Vou voltar para lá.

Com licença.