quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Volta à Ilha - Dia 2

 E continuam as peripécias da volta à ilha começadas no post anterior!


Dia 2 

 Acordei tantas vezes durante a noite que lhes perdi a conta, ou era com frio, ou por causa de algum barulho estranho, ou por nenhum motivo que me recorde. De manhã, enrolado dentro do saco-cama, não foi fácil encontrar a vontade para sair e enfiar os pés feridos nas meias frias molhadas e enlameadas, mas tinha que ser. E o que tem que ser tem muita força, por isso esvaziei a almofada, sai do ninho, dobrei o saco-cama, arrumei o amoque e arrastei-me até à zona onde tinha feito a fogueira na noite anterior.
 Queria aquecer o leite e secar as meias e as calças mas quando peguei no isqueiro, vi uma racha minúscula de lado por onde ele estava a perder o gás todo! Sem isqueiro, tudo aquilo que tinha planeado, a panela, o arroz, o sal, tudo seria perfeitamente inútil, por isso era preciso arranjar uma solução e depressa. Tinha que haver alguma coisa, pensei em cola, talvez, qualquer coisa que pudesse usar para tapar o buraco, mas enquanto pensava, o gás escapava-se e no final não consegui nada. Mas havia ainda gás suficiente para aquela única vez por isso tentei queimar os plásticos mas o isqueiro pegou fogo e tive que o atirar ao chão para não me queimar. Foi a primeira e a última tentativa.
 Sem fogo não haveria maneira de secar a roupa por isso voltei a meter pensos novos nas bolhas, calcei as meias lentamente e com muito cuidadinho e enfiei tudo para dentro dos botins frios e molhados. Como não me apetecia mesmo nada vestir as calças que também estavam molhadas, vesti os calções de banho e segui viagem. 

 A praia estendia-se ao largo, com um belo ilhéu exótico mesmo em frente. Continuei até não dar mais até que cheguei a uma parede pouco acolhedora que me separava do resto da ilha, mas como lá ao fundo continuava a haver caminho, fui avançado pelos calhaus rolados. Péssima ideia. A parede só foi ficando mais íngreme e a praia acabou subitamente numa curva. Com as bolhas nos pés, todos os passos preciosos estavam contados por isso não me apetecia nada voltar para trás. Em vez disso pus-me a subir uma encosta mais agressiva. Por baixo estavam as ondas e da parede brotavam apenas raízes sólidas por isso pus-me a escalar aquilo com a ajuda do machin que usava para cravar na madeira e puxar-me aos poucos, metro a metro, em direcção ao topo. Felizmente que correu tudo bem e as pedras debaixo dos meus pés e as raízes a que me segurava permaneceram solidamente presas à parede.

 Lá em cima já não havia trilho à vista por isso foi preciso usar e abusar do machin mais uma vez para trilhar o meu próprio caminho pela floresta. Na paragem seguinte aproveitei para descansar enquanto via o estado do isqueiro e como ele já estava vazio, todo o gás espalhado pela floresta, misturei o leite em pó e o açúcar com a água fria do rio que corria aos meus pés. Três colheres de sopa bem cheias de pó branco com uma de açúcar e temos uma caneca de potência açucarada! Como o isqueiro já era, era escusado continuar a passear o arroz por isso deixei-o ficar noutra cabana abandonada que encontrei ali à frente. "Espero que venha a ser útil para alguém!"
 Todos os rios largos são bons para reencontrar o caminho e para isso é apenas preciso percorrer as margens em busca de pegadas na lama ou folhas pisadas ou raízes cortadas. Foi assim que dei com o caminho novamente, por isso segui-o até ser subitamente interrompido por uma voz a gritar “Amigo!”
 Parei logo, e olhei em volta. Só floresta, palmeiras e trepadeiras e pássaros… “Será que ouvi mal?” Mas a resposta chegou depressa. “Amigo, espera!” Era um vinhateiro a chamar-me do topo da sua palmeira!
 O senhor chamava-se José Arlindo e vive ali, naquele barraco onde deixei os sacos de arroz! Ao que parece tem para lá umas galinhas escondidas e tira vinho de palma e caça e é feliz assim, longe de tudo e todos. Como eu devia parecer meio perdido ele ofereceu-me vinho e levou-me até Burnay onde garantia haver um homem que era guia e me podia levar todo o caminho até Porto Alegre. Disse que se fosse com ele, demoraria um dia apenas mas eu disse-lhe que não era preciso porque não tinha pressa! O José era alto e tinha uma passada larga, por isso vi-me à rasca para o acompanhar com as feridas nos pés. À medida que passávamos pelos penhascos ele só se lembrava de histórias de pessoas que tinham morrido lá. Uma de um feitor branco que caiu num cavalo, outra de um branco que não aceitou ajuda e foi sozinho. Tudo acabava morto.

 Burnay também tinha um par de cabanas de madeira construídas ao pé da praia mas desta vez havia cães e porcos. O tal guia é que não estava lá por isso eu rejeitei educadamente a oferta e fiquei-me apenas com umas indicações: “Vai até ao fundo da praia, salta rio, e quando chegar à rocha, sobe só.” E assim fui. Por aquela altura as feridas nos pés só pioravam e a humidade e fricção acumuladas entre os botins e a pele já começava a fazer novas feridas de lado nas pernas. A subida que se seguiu foi brutal e não ajudou nada mas também não havia muito que pudesse fazer porque quando o botim começa a “roer” a pele já não há muito que se possa fazer, qualquer coisa que se meta ali ou sai, ou abre mais a ferida. Só podia suportar. E quando olhei para trás, vi que estava a ser seguido por um dos cães do caçador! O bicho já era velhinho e estava esquelético, como todos os cães de caça costumam estar. Por mais que eu subisse, por mais rios que atravessa-se, por entre todas as encostas fundas onde eu me perdia, o cãozito aparecia sempre algures. Ficou comigo tanto tempo que lhe dei um nome e comecei a falar com ele por tudo e por nada. Ficou o meu Takashi.
Takashi - O cão que adoptei (ou ele é que me adoptou) por um dia.
- Oh Takashi, estás a mostrar-me o caminho ou a fazer com que eu me perca ainda mais? – Disse eu, tantas vezes.

 O que sei é que a certa altura tropecei noutro trecho do caminho antigo e segui-o por entre os bambus e as palmeiras, ao lado de blocos de rocha enormes, até a um rio largo onde estava um senhor a pescar. Ele assegurou-me que tinha chegado a S. Miguel, mais uma zona com um par de cabanas habitadas por gente simpática e sorridente. O dia estava a acabar. As feridas nas pernas ardiam no seu auge, tão más como as dos pés, por isso a primeira coisa que fiz quando vi o mar avancei em silêncio, pronto para tirar os botins. Nada mais importava. Tinha que ir molhar os pés na água salgada para desinfectar e limpar toda aquela lama e suor. Claro que isso foi imensamente estúpido porque não só fez com que todas as feridas ardessem numa esplendorosa cacofonia de dor, como deixou que areia preta e fina entrasse para dentro das bolhas abertas em carne vive.

Panorâmica da praia de S. Miguel
 Ainda assim, forcei-me a ignorar a dor e deixei os botins e as meias a secar junto à fogueira. Depois fui montar o amoque numas goiabeiras e sentei-me com o pessoal em cima de uma das canoas. Como estavam já a terminar de fazer um petisco qualquer e eu só tinha vegetais e umas latas, cortei uma cenoura, uma cebola e um alho e inventou-se para lá uma salada que comemos todos com o charoco que eles tinham pescado acompanhado com fruta assada e banana cozida. Alto petisco, devo dizer! Nunca tinha provado aquele peixoto pequeno e feioso mas com azeite de palma fica realmente bom! Quando estava ali a comer à luz do frontal comecei subitamente a cheirar qualquer coisa estranha. Algo parecido com pneu queimado... Até que ouvi os gritos! Um dos meus botins estava a arder! Um rapaz ainda correu para o salvar mas a borracha derreteu num instante e nem a meia se salvou! Acho que o culpado deve ter sido um dos mil porcos que vive para lá...

“Boa…” pensei eu “…sem botim nem meia e com os pés todos estragados não sei como vai ser…” mas felizmente que um dos rapazes disse imediatamente que me oferecia uma meia enquanto o outro disse que não havia problema e ainda se podia aproveitar o botim cortando o cano queimado. Claro que aceitei a meia e assim ficou. Fui-me deitar feliz mas com as pernas todas a arder e as feridas abertas a colar ao saco-cama.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Volta à Ilha - Dia 1


 Pode-se dizer que em São Tomé existem dois percursos maiores e mais arriscados que toda a gente fala e só alguns gostavam de fazer. A subida ao Pico é um percurso conhecido que se faz com guias e envolve pelo menos uma dormida no mato sob condições extremas de temperatura. Mas depois há o outro, aquele que está lá, à vista de todos, mas que ninguém ousa falar. Como se fosse um filho mal comportado que a família tenta esconder, o percurso da volta à ilha aguarda silenciosamente pelos mais aventureiros.
 O mapa das estradas não mente: há uma fatia enorme da ilha que não tem estradas; nem comunidades. Um sítio onde existe apenas floresta e rios e pântanos. Tinha que o ir explorar!

A verde o percurso que fiz a pé. A cinzento o mapa das estradas nacionais.

 Como o post que escrevi sobre a subida ao Pico teve uma aceitação muito boa vou repetir o formato e dividir este post em informações turísticas e peripécias da aventura.


Turismo

Perguntas

Quanto tempo demora?

 Eu demorei 3 dias (e 2 noites) mas fui sem guia e não conhecia o caminho. Imagino que com guia o percurso seja mais rápido e seguro mas também é verdade que fiz para lá atalhos (cansativos e não aconselháveis) que ainda assim me devem ter poupado algum tempo, por isso a minha resposta final é:
 A andar bastante bem e com poucas paragens, sem mergulhos nem muita exploração - 3 dias (2 noites).
 Se for para ir nas calmas com direito a um mergulho na praia de S. Miguel - 4 dias (3 noites).

É difícil?
 Sim, muito difícil. Todo o caminho é uma sequência interminável de: subir ao topo da cresta, descer até ao rio no fundo do vale, subir o monte seguinte, descer até à praia, etc, etc.




É perigoso?

 Sim. Se forem sem guia diria que é até demais porque o mais provável é perderem-se e depois terem que decidir entre escalar aquela parede pendurados nas raízes ou voltar tudo para trás. Mas sempre que encontrei o caminho, ele era (relativamente) simples, embora houvessem imensas pedras e cocos caídos no meio do caminho que dificultavam o avanço. Tal como no pico, também há crestas e caminhos estreitos só que aqui uma pessoa não cai e rebola encosta abaixo. Naqueles sítios, quem cai vai dar de comer aos peixinhos.


Vale a pena?

 Sim, vale! Mas não esperem uma floresta mágica de musgos envoltos na neblina (como no Pico). O que vão ver são imensas praias de calhaus rolados que espreitam entre picos escarpados cobertos de vegetação densa e tropical. Lá mais para baixo haverão praias de areia com mangal, e mais rios. Há muitos rios mesmo e quando o Sol espreita, todas as cores da floresta ganham subitamente vida e os pássaros cantam e os macacos roncam.

Quando devo ir?

 Sem  duvida nenhuma, na época mais seca - Gravana (Junho a Setembro). O caminho já é difícil o suficiente sem chuva a encharcar as calças, as meias, os pés, a pele, os ossos. Quando chove bem, não há capa nem botim que proteja tempo suficiente.

É preciso guia?

 Sim, é. Tal como no Pico, se acontecer alguma coisa, não convém ficar para lá caído num buraco com o pé partido porque não haverá rede de telemóvel nem ninguém para te vir buscar. E neste caso diria que a necessidade ainda é maior porque a meio do percurso está-se a um dia ou dois de caminhada de qualquer comunidade, por isso o melhor é não contar muito com isso. Com guia também se tem a vantagem de  fazer o caminho verdadeiro, sem descidas perigosas nem pântanos enlameados nem mato fechado.

Por onde se vai?

 Tendo em consideração a dificuldade do percurso, eu sugeria que se fizesse Ponta Furada - Porto Alegre. A parte inicial é mais difícil que o final por isso quando as encostas íngremes surgirem será quando vão estar menos cansados para as enfrentar.


Equipamento obrigatório?

 Se forem sozinhos:

  • Mapa dentro de uma mica - para evitar subir picos mais altos e ter uma vaga noção onde ficou o caminho.
  • GPS com 2 pilhas extra - para saber para que direcção fica o Sul.
  • Almofada, amoque/tenda e saco-cama
  • Lanterna frontal - para cozinhar às escuras ou ler um livrito ao deitar.
  • Machin (catana) - para civilizar as plantas. 
  • Panela - para fazer arroz, esparguete, ou aquecer o leitinho de manhã.
  • Comida - eu levei:
    2 pacotes bolachas - muito boa ideia mesmo
    3 cenouras
    2 pimentos
    3 bananas
    2 goiabas - talvez pesadas demais
    4 dentes de alho
    4 latas de atum
    2 chouriços
    0,25kg de leite em pó
    0,1kg açúcar
    0,1kg sal
  • Mas talvez pão tivesse sido mais seguro que o arroz porque ao contrário deste, não precisa de fogo, panela, ou água para desenrascar.
  • Pasta e escova de dentes
  • Pensos rápidos - é inevitável que hajam cortes e arranhões com todas aquelas palmeiras, mas os pensos são para aquelas feridas que estão realmente a estragar a experiência.
  • Isqueiro e petróleo - para começar o fogo numa floresta tropical encharcada.
  • Máquina fotográfica leve(!) e resistente (nada de canhões, porque depois mal a tiram com o cansaço)
  • Cantil
  • Impermeável
  • Roupa básica em duplicado (meias confortáveis(!), calças, t-shirts, essas coisas, calções só para tomar banho)
  • Botim (Galochas)
  • Sandálias - para deixar os pés respirar no fim do dia.
  • Dinheiro - pode ser preciso para agradecer a generosidade de alguém.
  • Telemóvel com a bateria toda carregada - o primeiro sítio com rede será mesmo no final, já em Malanza, mas ainda assim pode dar jeito nessa altura
  • Canivete - essencial para tudo.
  • Mochila resistente (de preferência com alças para distribuir o peso para a cintura)


 Se forem com guia imagino que seja tudo bastante parecido mas o machin (catana) e o mapa podem ficar em casa.

História

  Estive a escrever detalhadamente o que se passou em cada um dos três dias e como no final ficou gigantesco e massudo, achei melhor separar esta parte em três posts que publicarei um por dia. Assim sendo, que comece a aventura!


Dia 1 

 A aventura começou lentamente. Saí de casa todo carregado, botim calçado, machim escondido e parti na direcção do mercado. Encontrei a Andreia (professora da Helpo) pelo caminho e ela lá me apontou para o sítio onde se apanham as hiaces para Santa Catarina. Eram umas 8h20 quando me sentei no meu cantinho, lá atrás, junto à janela que não queria abrir, e foram preciso passarem mais quarenta minutos até que a maldita coisa arranca-se, a rebentar de gente pelas costuras. O normal por aqui é enfiar pelo menos cinco pessoas em cada fileira de três assentos por isso dois dos passageiros terão que ir todos chegados para a frente e quase de joelhos porque não é fisicamente possível enfiar cinco costas naqueles bancos. Uma dessas pessoas fui eu, e durante a hora e meia que demora a chegar a Santa Catarina tive o tempo todo a evitar as cabeçadas da senhora da frente que não conseguia aguentar a cabeça no lugar tal devia ser o sono.

 Quando saí na minha paragem já não havia mais ninguém além do condutor e o rapaz que o ajuda com a bagagem, um miúdo entroncado usando um inapropriado gorro de neve. A viagem custou uns míseros 25.000 (1€), muito menos que os 85.000 (ou lá o que é) que se tem que pagar até Ponta Furada – é que a distância não é assim tão diferente.

 Estava fora da hiace, com a mochila às costas, liguei o GPS e comecei a atravessar a ponte sob o rio Lembá, já minha conhecida por causa das contagens de frutos que fazemos no projecto. Subindo pelo caminho em direcção a Ponta Furada ia ouvindo as pessoas que desciam a comentar que eu ia fazer a volta à ilha. Isso fez-me perceber que o caminho não devia ser tão inexplorado como eu pensava. No percurso até Bindá comecei a sentir umas dores nos pés, assim algo com feitio de bolhas na sola do pé, mas devia ser só impressão porque ainda agora tinha começado a caminhar e eu nunca tinha tido bolhas por andar com os botins. Estas mesmas bolhas transformaram-se mais tarde num pesadelo, mas essa parte da história fica para depois. Atravessei o hospital de Bindá, e depois desci até à antiga estrada (do tempo colonial) que um vinhateiro nos tinha mostrado da última vez que lá estivemos. Era altura de puxar do machin (100.000 [4€] pelo machin, 30.000 [1,2€] para afiar). O que o Nity me arranjou é da marca Crocodile e estava bem afiado de ambos os lados por isso comecei a civilizar aquelas plantas desgovernadas e assim fui abrindo o caminho até tropeçar no trilho que me deveria levar até Juliana de Sousa.

De longe o maior caranguejo terrestre que já vi!
 Acho que foi logo aí que as coisas começaram a correr mal porque perdi-me do caminho e como a praia estava tão perto, com os calhaus rolados bastante chamativos, decidi escorregar encosta abaixo e no processo perdi o parasol (aquela coisa preta saliente que protege a lente de quedas e raios do sol) da objectiva da máquina de fotografar. Ainda voltei atrás para ver se o encontrava mas descobrir uma coisa redonda e preta no meio de uma praia de calhaus pretos e redondos é como achar uma agulha num palheiro, não ia acontecer, por isso foi com alguma tristeza que o deixei para trás – se alguém o encontrar, que o trate com muito amor e carinho! 
 Continuei pela praia fora com os caranguejos eremitas a rebolar à minha passagem. Eram tantos que ao caírem faziam um som parecido com chuva. Avancei, saltando uns quantos rochedos aqui e ali, até que vi ao longe uma pequena ruína e o esqueleto de uma ponte erguida sobre o mar. 

 Quando me aproximei mais vi uma baía lindíssima com um túnel onde as ondas entravam e rebentavam por isso era o local mais do que indicado para fazer uma pausa e comer uma goiaba – as malditas coisas parece que pesam 3kg por isso naquela altura já estava desejoso de me livrar delas. Foi também aí que aproveitei para tirar os botins para examinar o que se passava lá por baixo e vi que não era uma mas sim duas bolhas enormes em cada pé. Para a coisa não ficar muito pior, cobri aquilo com dois pensos dos grandes, voltei a tapar a dor com as meias e os botins e quando me preparava para levantar passou um homem cheio de pressa num caminho mais acima! Fiquei tão admirado de ver ali alguém que nem disse nada, e como ele não me viu, também passou sem nada dizer.



 Continuei pelo trilho por onde o homem tinha vindo mas mais uma vez foi só uma questão de tempo até me perder. Por aqueles lados o trilho é tão estreito que basta uma derrocada ou uma bifurcação para estragar tudo e perdi-me novamente. A única coisa que sabia é que tinha que descer para Sul, e para isso o som das ondas tinha que vir do lado direito. Tudo o resto é conversa, por isso pus-me a subir encostas e a descer vales e como a água do cantil já tinha acabado há bastante tempo, estava um bocado à rasca. A floresta continuava, densa, palmeiras, lianas e mais outras que depressa conheciam o meu machin de perto. Foi assim até que comecei a ouvir o som de um riacho lá em baixo por isso deslizei até ao seu encontro.

 Lá em baixo vi um passaroco novo! Coisa raríssima nos dias que correm porque me posso gabar de já ter visto quase toda a avifauna da ilha. Chamam-lhe Sui-sui-de-obô (Amaurocichla bocagei) e é um gajinho assim pequenino e atrevido, com um chamamento assobiado simples. O riacho era estreito e via-se que ia dar ao mar pouco depois por isso segui-o com toda a agilidade que as minhas bolhas me permitiam e fui até á praia apreciar o pôr do Sol enquanto roía o interior de um coco. Como a capital de São Tomé está virada assim para Este não é frequente ver-se o Sol a pôr-se por cima do mar (como em Portugal) por isso foi uma visão bastante agradável.


 Entretanto começou a ficar tarde por isso voltei a mergulhar na floresta, montei o amoque entre dois coqueiros e pus-me a coleccionar troncos e raminhos, dos mais finos aos mais grossos, só que como estava quase tudo molhado, a selecção não podia ser muito criteriosa. O plano era fazer um jantar quente, com arroz, cenoura, cebola, alho e atum. Mas o que realmente aconteceu foi que tentei atear fogo àquela porcaria de todas as formas e nada, nem com petróleo, nem com papel, nem com musgo, nem com palha, nada servia! Tudo ardia depressa demais e morria pouco depois… até que me lembrei de ter visto uma barraca abandonada lá ao fundo junto à praia. Fui lá e arrebanhei tudo o que eram plásticos e transportei-os para junto da lenha e num piscar de olhos já tinha uma pilha de paus intercalada por sacos de plástico e garrafas e sei lá mais o quê. Escusado será dizer que num piscar de olhos também já tinha uma bela fogueira.

 Ignorando o cheiro, pus-me a cortar as coisas na tampa do tupperware e começaram a aparecer uns grilos com umas antenas gigantes que não me deixavam em paz! Malditas coisinhas saltavam para dentro de tudo sem medo nenhum! Até para dentro do arroz eles saltavam e depois tinha que os tirar todos mortos e molhados e cozidos. No final o arroz não ficou nada de especial porque ficou muito aguado.



 A primeira noite foi um pouco estranha, os pés doíam e o barulho do rio estava perto demais para o meu gosto. Também se ouvia um ou outro kitoli (uma corujinha endémica) que tem um assobio bastante triste. Como a comida estava toda lá fora acho que passei a noite em estado de alerta não fossem os porcos descobri-la e comê-la primeiro que eu...





 E pronto, amanhã (se a net o permitir) haverá a continuação!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Descobrindo o vale do Rio Lembá

 Fomos fazer observações de pombo, desta vez, para o Sul do país. Seguindo o caminho que passa em frente à entrada de Ponta Furada em direcção a Bindá (mas sem virar à direita para a comunidade) esperam imensas coisas dignas de visita! Nem percebo como é que este sítio não está já cheio de excursões turísticas porque é realmente bonito e fácil de alcançar (a não ser quando chove muito, porque aí a passagem do rio Lembá torna-se quase impossível).
"Nós" chamamos-lhe rotunda mas é isso mesmo que se vê, uma pedra grande e redonda caída no meio da floresta.

A bela da borboleta a fazer-se às flores do cafezeiro.

Uma das casas gémeas que existem em S. José.

Digam lá se não parece uma cena saída do Jurassic Park? Eu pelo menos comecei logo a imaginar Stegosauros a beber água ao som da música do filme...
Bem sei que não é qualquer um que conseguirá apreciar isto mas passei-me com estas formações geológicas! Fazem lembrar a famosa calçada do gigante mas toda dobrada! E no meio de uma paisagem pré-histórica lindíssima.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Agripalma: A Vergonha de São Tomé

Vista do Cão Grande a partir da estrada
 Hoje era para ser um dia especial - e acabou por ser, mas pelas razões erradas... Estava programada uma visita à antiga Emolve (actual Agripalma) com o intuito de observar pombos (rola, céssia e pombo do mato) e assim perceber de que árvores eles se alimentam mais frequentemente.
 Passar o portão correu bem. Já ouvi histórias de que havia antigamente um tipo de selecção com contornos racistas feito logo à entrada: "branco não entra". Felizmente que não foi esse o caso e conseguimos entrar todos sem problemas.
 O carro ficou estacionado na comunidade e lá fomos nós em direcção ao sítio onde tinha sido marcado um transecto há não mais que três anos atrás. O transecto havia sido escolhido por ser um bom local para observar pombos, e como este é um conhecido sítio para ver a rara, endémica e ameaçada Íbis (ou Galinhola - Bostrychia bocagei) eu estava com as expectativas bem altas.
 Bem, quando o transecto começou, numa zona que anteriormente seria floresta cerrada, agora era um descampado enlameado. Já não haviam árvores nenhumas! Foram todas cortadas indiscriminadamente (com a excepção de um ou outro Viru vermelho).

 Sem querer desistir do objectivo que nos fez conduzir todo o caminho desde a cidade, continuámos pelo transecto, saltámos o rio, e descobrimos que do outro lado o cenário repetia-se. Com a excepção de um ou outro Viru-vermelho que permanecia comicamente sozinho no meio de toda aquela destruição, não havia uma única árvore de pé.

Ao longe uma escavadora fazia o seu trabalho implacavelmente enquanto toda a paisagem parecia chorar a destruição causada.
  Ao ver tudo derrubado fiquei imensamente triste e revoltado, por isso comecei a registar tudo e a tirar pontos GPS e o resultado é este mapa que se vê em baixo.
A linha verde assinala o limite com o Parque Natural Obô. Toda a área vermelha é antiga plantação de palmeira ou floresta que eu já vi que foi cortada. Como podem ver, há muita floresta que dantes estava de pé juntamente com as palmeiras da Emolve e agora perdeu-se...

 O governo de São Tomé e Príncipe assinou um contrato com a Agripalma, cedendo-lhes 5000 ha, ou seja, terra suficiente para que o negócio de venda de óleo de palma se torne rentável. O problema é que a decisão foi inegavelmente mal pensada e agora parece que não há maneira de voltar atrás... Toda a zona corresponde ao local onde se pode encontrar o Ibis, uma das três espécies de aves Criticamente Ameaçadas de São Tomé, e provavelmente a que corre maior perigo de desaparecer para sempre devido à destruição de habitat e caça descontrolada. E como se o Ibis e as outras aves endémicas presentes na zona não fossem suficientes para parar o abate descontrolado de árvores, é aqui que se pode observar o fantástico Pico do Cão Grande que, só por si, poderia e devia ser explorado como um foco de atracção turística importantíssimo para São Tomé e Príncipe! Mas não, em vez disso o governo decidiu que seria mais proveitoso para o país trocar toda a sua biodiversidade única no mundo por umas quantas toneladas de óleo...!

Pico do Cão Grande... o que és e o que podias ser!
 Ao falar com as pessoas da comunidade mais próxima vi que nem elas estavam felizes com o que está a passar. E como poderiam estar, com tudo o que se está a passar. Quando se troca dinheiro por natureza, não há maneira de não se sentir um aperto no coração. Como uma vozinha interior que nos diz que aquilo está errado.
 Ao caminhar de volta para o carro só conseguia olhar para o Pico do Cão Grande e imaginar. Tanto potencial... e todo mandado a baixo...

domingo, 22 de julho de 2012

Entre a Praia Grande e o Pico Caué

 No outro dia vi-me a conduzir todo o caminho até aos lados da Emolve, no Sul de São Tomé. Se conseguirmos ignorar toda a desflorestação absurda que está a acontecer hoje em dia, a zona é lindíssima com o Pico do Cão Grande sempre a espreitar por cima do nosso ombro onde quer que vamos.
O carro ficou para os lados de Vila Irene e depois foi sempre a descer um caminho simples até chegarmos à  Praia Grande.




 Na Praia Grande a rocha vulcânica vai até ao mar e não cheguei a mergulhar mas como não se viam pescadores por todo o lado, sou levado a imaginar que deva haver muito peixe abrigado naquela baía.

 Se seguirem pela areia até à foz do Rio Caué serão subitamente surpreendidos com esta fantástica vista sobre o Pico do Cão Grande (ou Pico do Caué). Toda aquela praia pede para um pouco de reflexão e talvez um piquenique. O dia em que fui estava meio encoberto mas imagino que com bastante sol, a paisagem seja bem mais colorida!
 No caminho de regresso à estrada, junto à praia esperam-vos duas figueiras que já não sabem por onde crescer mais.
São tão grandes que chegam a formar autênticas paredes naturais. Tenham é cuidado com os ferros meio enterrados e as teias de aranha enormes.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Cavalariça abandonada

 Se gostam de ruínas perdidas no meio da floresta e tiverem a oportunidade de ir até Abade, então
aconselho vivamente a perguntarem a alguém onde está a antiga cavalariça (tenham é cuidado porque o sítio está cheio de aliança! Ao mínimo toque nos troncos ou nas folhas e elas caiem-vos em cima furiosas!)
O sítio apresenta-se como todas as ruínas quando vistas de longe; um par de paredes velhas meio engolidas pela floresta. Mas é quando se entra e explora o sítio com calma que ele começa a contar a sua história.


Manjedoura para os cavalos. Também conseguem ver os cavalos amarrados nas argolas de metal enquanto alguém deitava palha por trás?


 Tenho bastante dificuldade em perceber como é que estas raízes ficaram assim, como cordas bem esticadas que abraçam toda a estrutura.


Pormenor das argolas metálicas para prender os cavalos

 São sítios como este que nos transportam para o passado e nos mostram o que aconteceria se as pessoas desaparecessem de um dia para o outro. Não é fácil encontrar sítios que nos transmitam esse tipo de sentimento, tão assustador como fantástico, mas as florestas de São Tomé são a excepção.

sábado, 14 de julho de 2012

Trepando até às rolas

 Estamos numa parte do projecto onde é necessário usar animais vivos para fazer experiências relacionadas com a capacidade de dispersão de sementes; uma frase tão curta e com tantos problemas...

 Tudo começou com a construção de uma zona de cativeiro com vegetação para manter confortavelmente vários animais ao mesmo tempo. Esta parte sozinha demorou três dias e o trabalho conjunto de muitas mãos e cabeças.

 Agora que já temos a casa, faltam só os inquilinos! Andámos por aí a espalhar a notícia de que queríamos pombos vivos e felizes e inteiros e que pagávamos por cada um por isso a resposta inicial foi extremamente positiva; todos garantiam que iam já a correr apanhá-los, montes de armadilhas, tudo mobilizado, e que amanhã teríamos já todos os bichos que alguma vez pudéssemos precisar. No dia seguinte eles já nem se lembravam de terem falado connosco e como isto se repetiu outra e outra vez, terminando num exemplo perfeito de gabarolice geral, tivemos que mudar de estratégia uma e outra vez e tomar nós a iniciativa de ir apanhar os bichos.

 A técnica mais usual é simples de perceber: retira-se visco (no fim do tratamento parece  uma pastilha elástica gigante) de uma jaqueira ou (melhor ainda) de uma fruteira, passa-se azeite para não secar e para esconder o cheiro, enrola-se isso nos ramos onde os bichos são mais prováveis de pisar, e espera-se pacientemente para os ver cair.

 Hoje acordámos às 3h45 com a missão de ir apanhar rolas para os lados de Java e acho que a fotografia do lado ilustra muitíssimo bem o perigo absurdo que é "remar" visco nas árvores onde as rolas se alimentam. Chamam-lhe Zé Caçarias e ele subiu aquela árvore sem cordas nem ramos nem nada de nada; atirou-se simplesmente ao tronco com unhas e dentes e começou a trepar pacientemente perante o meu olhar incrédulo... tentei comportar-me profissionalmente mas quando ele já estava a uns bons vinte ou trinta metros do chão tinha mesmo que fotografar!

 No final esperámos que nos fartámos enquanto as camusselas, os tordos, os jêgues e os tcholós (tudo passarada) desfilavam à nossa frente mas talvez por causa da chuva molha-parvos e do vento frio de gravana, as rolas não caíram.

 Vamos lá a ver o que nos esperam os próximos dias...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sem luz nem internet

 Estou há bastante tempo sem escrever (aqui no blog, pelo menos) e vou desculpar-me com o facto de ter passado os últimos tempos ou sem luz, ou sem internet e como um leva ao outro, acho que a desculpa pode funcionar.
 A falta de luz começou numa tarde como as outras, o modem foi abaixo e o portátil ficou de noite, "nada de especial", pensei eu. Toca a meter tudo em poupança (que ultimamente só dura 15minutos) e esperar que volte. Mas não voltou por isso acabámos por ser forçados a perceber que o corte não era geral, nós é que nos tínhamos esquecido de pagar a electricidade... ora, isto era Sábado à tarde e como aquilo ia estar fechado, acabámos por passar as duas noites seguintes a ler os nossos livrinhos à luz do frontal.
 Há qualquer coisa especialmente libertadora que acompanha a falta de electricidade. Tentamos trabalhar até a bateria do portátil falhar e depois pronto, temos permissão para cruzar os braços e ir ler. É uma resignação que não pesa na consciência; quem não gostaria disso?
 Já a falta de internet trás outras vantagens: Já recebi emails novos? O que há de novo no facebook, e nos blogs? E em todos os outros sites? Tudo isso está em pausa até a internet voltar... e em São Tomé, quando uma coisa avaria, primeiro que seja consertada ainda vai levar algum tempo.
 O processo de trazer a internet de volta é lento e requer paciência. Muita paciência. Começa por transmitir o nosso problema a quem pode solucioná-lo e para isso é preciso saltar a Muralha de Incompetência da CST cuja única missão parece ser afastar o público de chegar até aos verdadeiros "solucionadores" de problemas. Para isso eles servem-se de técnicas simples tais como dizer que devemos esperar, que não é aqui que se pergunta isso, é ali, ou ainda com os já muito gastos "peço desculpa mas não sei ajudar mais". Se conseguiram saltar esta barreira já têm meio caminho andado porque agora só resta chatear a pessoa que está lá atrás até a internet reaparecer por magia. Foi o que eu fiz e resultou.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Passeio ao Ilhéu das Cabras

Pescador na baía Ana Chaves
    No outro dia acordei cedo, meti na mochila tudo o que tinha uma lente, preparei uma sandocha para o caminho, e meti-me no carro em direcção à Marapa; era dia de observar golfinhos.


Placa à porta da ONG Marapa 
  A coisa começou bem com uma introdução simples sobre as espécies que já foram avistadas e quais poderíamos ainda ter a sorte de observar. Enquanto os slides passavam, eu ia sempre comparando o tamanho do bicho com o do pequeno mergulhador que aparecia no canto. Quem me dera ver uma baleia de bossa ou um cachalote.




Ilhéu das cabras 
   Já no barco, rumámos em direcção ao Ilhéu das Cabras, um rochedo com um farol que pode ser facilmente visto a partir da cidade. O mar estava calmo, o sol brilhava e a ilha afastava-se. O mar estendia-se, interminável, calmante, e por cima das nossas cabeças passava o ocasional falcão (o milhafre português que aqui ganhou um gosto estranho pelo mar) e o concozuco (esta sim uma ave marinha lindíssima).



Pescadores nas suas canoas tradicionais 

    Há medida que avançávamos, a antecipação só aumentava. Onde raio andam esses golfinhos? Era o que devia passar pela cabeça de todos a bordo à medida que sondávam o horizonte em busca de tudo o que pudesse ter uma barbatana. E curiosamente, é nessas situações que todas as míseras ondinhas parecem um barbatana para o olho destreinado.

Ilhéu das Cabras com a Ilha de São Tomé atrás 

    Procurámos e procurámos, mas no final nada de golfinhos. Aliás, o único animal mais invulgar que tive a sorte de ver foram mesmo os peixes-voadores que de vez em quando saltavam e planavam para longe do barco.

A praia do ilhéu é pequenina e na maré alta desaparece completamente 

Escadaria no Ilhéu das Cabras
    No regresso acabámos por dar um saltinho ao próprio ilhéu das cabras. Enquanto parte da tripulação do barco explorava o que havia debaixo de água, a outra metade aventurava-se ilhéu acima. Eu não me consegui decidir e acabei por fazer tudo. As vistas debaixo de água são muito bonitas, embora um pouco aborrecidas se nos afastarmos do ilhéu porque só se vê areia. Mas vê-se areia até perder de vista, a visibilidade era incrível mesmo! Mas mais perto havia todo o tipo de peixotos pequeninos e uma variedade mais saudável de corais e algas comparada com a que tenho encontrado nas praias do norte da ilha. Fui é recebido por o que só podiam ser alforrecas minúsculas que me iam picando à medida que nadava de volta à praia.

    A vegetação da ilha é simples porque imagino que o vento salgado e a falta de solo não deixe as árvores cresceram muito. Vêem-se cactos e caroçeiros pequenos como arbustos por todo o lado e uma ou outra lagartixa mas fora isso a ilha parece bastante deserta tanto de gente como das cabras que imagino que lhe terão dado o nome.No ilhéu existe uma escadaria que é preciso subir para se chegar ao topo onde está o Farol (que agora está fechado mas com um pouco de ginástica, é possível chegar-se mesmo até ao topo)

Vista do topo do Ilhéu das Cabras

Barcos afundados na Baía Ana Chaves 

    No final o passeio ficou por 735.000 STD (30€) que podem ser pagos tanto em dobras como em euros. Gostei bastante; é sempre bom regressar ao mar para pôr a cabeça em ordem, embora sem termos visto os amigos golfinhos.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

De volta ao Mercado

 Ir às compras no mercado é sempre uma experiência um pouco transcendental. Tantos olhos, tantos assobios, branco aqui branco. Devo ser feito de ouro, todos querem um bocado. Então aquela parte com o peixe entre a paragem das hiaces e os caixotes do lixo no Mercado Velho é das melhores. Os cães a passar, as hiaces a descarregar, o lixo por todo o lado, e o peixe ali mesmo, fresquinho e brilhante. Tanta gente a chamar, tocar, apontar, assobiar. Naquelas situações de pressão costumo desligar um pouco o cérebro, talvez para não sofrer danos maiores. "Seis por dez", diz-me uma senhora. "Oito por quinze" grita a companheira do lado e começam as duas a insultar-se em forro! "Seis quê...?" Bem, quando dei por mim já tinha doze peixes no saco, menos dinheiro na carteira e as minhas pernas levavam-me para longe dali. Aquilo é um espectáculo mas é de doidos!
 No mercado novo as coisas são mais calmas mas ainda assim a pressão sente-se na mesma. Como uma força que nos empurra pelas costas em direcção à saída mais próxima. Comprámos de tudo um pouco mas quando já nos acostumamos àquele ambiente hostil, aí é que a verdadeira diversão começa. Regatear preços. Reclamar da cor dos tomates que a mulher nos está a escolher. Falar mal do preço geral das bananas. Tentar trocar cenouras pequenas por grandes. Brincar com a senhora que está a pesar meio quilo com a balança virada para ela, enfim! Acho que já disse isto mas não tem mal repetir. Ir ao mercado é uma experiência única. Vão e percam-se sabendo que a ideia não é sentirem-se confortáveis e tranquilos mas sim viverem uma experiência estranhamente boa!