terça-feira, 31 de julho de 2012

Volta à Ilha - Dia 1


 Pode-se dizer que em São Tomé existem dois percursos maiores e mais arriscados que toda a gente fala e só alguns gostavam de fazer. A subida ao Pico é um percurso conhecido que se faz com guias e envolve pelo menos uma dormida no mato sob condições extremas de temperatura. Mas depois há o outro, aquele que está lá, à vista de todos, mas que ninguém ousa falar. Como se fosse um filho mal comportado que a família tenta esconder, o percurso da volta à ilha aguarda silenciosamente pelos mais aventureiros.
 O mapa das estradas não mente: há uma fatia enorme da ilha que não tem estradas; nem comunidades. Um sítio onde existe apenas floresta e rios e pântanos. Tinha que o ir explorar!

A verde o percurso que fiz a pé. A cinzento o mapa das estradas nacionais.

 Como o post que escrevi sobre a subida ao Pico teve uma aceitação muito boa vou repetir o formato e dividir este post em informações turísticas e peripécias da aventura.


Turismo

Perguntas

Quanto tempo demora?

 Eu demorei 3 dias (e 2 noites) mas fui sem guia e não conhecia o caminho. Imagino que com guia o percurso seja mais rápido e seguro mas também é verdade que fiz para lá atalhos (cansativos e não aconselháveis) que ainda assim me devem ter poupado algum tempo, por isso a minha resposta final é:
 A andar bastante bem e com poucas paragens, sem mergulhos nem muita exploração - 3 dias (2 noites).
 Se for para ir nas calmas com direito a um mergulho na praia de S. Miguel - 4 dias (3 noites).

É difícil?
 Sim, muito difícil. Todo o caminho é uma sequência interminável de: subir ao topo da cresta, descer até ao rio no fundo do vale, subir o monte seguinte, descer até à praia, etc, etc.




É perigoso?

 Sim. Se forem sem guia diria que é até demais porque o mais provável é perderem-se e depois terem que decidir entre escalar aquela parede pendurados nas raízes ou voltar tudo para trás. Mas sempre que encontrei o caminho, ele era (relativamente) simples, embora houvessem imensas pedras e cocos caídos no meio do caminho que dificultavam o avanço. Tal como no pico, também há crestas e caminhos estreitos só que aqui uma pessoa não cai e rebola encosta abaixo. Naqueles sítios, quem cai vai dar de comer aos peixinhos.


Vale a pena?

 Sim, vale! Mas não esperem uma floresta mágica de musgos envoltos na neblina (como no Pico). O que vão ver são imensas praias de calhaus rolados que espreitam entre picos escarpados cobertos de vegetação densa e tropical. Lá mais para baixo haverão praias de areia com mangal, e mais rios. Há muitos rios mesmo e quando o Sol espreita, todas as cores da floresta ganham subitamente vida e os pássaros cantam e os macacos roncam.

Quando devo ir?

 Sem  duvida nenhuma, na época mais seca - Gravana (Junho a Setembro). O caminho já é difícil o suficiente sem chuva a encharcar as calças, as meias, os pés, a pele, os ossos. Quando chove bem, não há capa nem botim que proteja tempo suficiente.

É preciso guia?

 Sim, é. Tal como no Pico, se acontecer alguma coisa, não convém ficar para lá caído num buraco com o pé partido porque não haverá rede de telemóvel nem ninguém para te vir buscar. E neste caso diria que a necessidade ainda é maior porque a meio do percurso está-se a um dia ou dois de caminhada de qualquer comunidade, por isso o melhor é não contar muito com isso. Com guia também se tem a vantagem de  fazer o caminho verdadeiro, sem descidas perigosas nem pântanos enlameados nem mato fechado.

Por onde se vai?

 Tendo em consideração a dificuldade do percurso, eu sugeria que se fizesse Ponta Furada - Porto Alegre. A parte inicial é mais difícil que o final por isso quando as encostas íngremes surgirem será quando vão estar menos cansados para as enfrentar.


Equipamento obrigatório?

 Se forem sozinhos:

  • Mapa dentro de uma mica - para evitar subir picos mais altos e ter uma vaga noção onde ficou o caminho.
  • GPS com 2 pilhas extra - para saber para que direcção fica o Sul.
  • Almofada, amoque/tenda e saco-cama
  • Lanterna frontal - para cozinhar às escuras ou ler um livrito ao deitar.
  • Machin (catana) - para civilizar as plantas. 
  • Panela - para fazer arroz, esparguete, ou aquecer o leitinho de manhã.
  • Comida - eu levei:
    2 pacotes bolachas - muito boa ideia mesmo
    3 cenouras
    2 pimentos
    3 bananas
    2 goiabas - talvez pesadas demais
    4 dentes de alho
    4 latas de atum
    2 chouriços
    0,25kg de leite em pó
    0,1kg açúcar
    0,1kg sal
  • Mas talvez pão tivesse sido mais seguro que o arroz porque ao contrário deste, não precisa de fogo, panela, ou água para desenrascar.
  • Pasta e escova de dentes
  • Pensos rápidos - é inevitável que hajam cortes e arranhões com todas aquelas palmeiras, mas os pensos são para aquelas feridas que estão realmente a estragar a experiência.
  • Isqueiro e petróleo - para começar o fogo numa floresta tropical encharcada.
  • Máquina fotográfica leve(!) e resistente (nada de canhões, porque depois mal a tiram com o cansaço)
  • Cantil
  • Impermeável
  • Roupa básica em duplicado (meias confortáveis(!), calças, t-shirts, essas coisas, calções só para tomar banho)
  • Botim (Galochas)
  • Sandálias - para deixar os pés respirar no fim do dia.
  • Dinheiro - pode ser preciso para agradecer a generosidade de alguém.
  • Telemóvel com a bateria toda carregada - o primeiro sítio com rede será mesmo no final, já em Malanza, mas ainda assim pode dar jeito nessa altura
  • Canivete - essencial para tudo.
  • Mochila resistente (de preferência com alças para distribuir o peso para a cintura)


 Se forem com guia imagino que seja tudo bastante parecido mas o machin (catana) e o mapa podem ficar em casa.

História

  Estive a escrever detalhadamente o que se passou em cada um dos três dias e como no final ficou gigantesco e massudo, achei melhor separar esta parte em três posts que publicarei um por dia. Assim sendo, que comece a aventura!


Dia 1 

 A aventura começou lentamente. Saí de casa todo carregado, botim calçado, machim escondido e parti na direcção do mercado. Encontrei a Andreia (professora da Helpo) pelo caminho e ela lá me apontou para o sítio onde se apanham as hiaces para Santa Catarina. Eram umas 8h20 quando me sentei no meu cantinho, lá atrás, junto à janela que não queria abrir, e foram preciso passarem mais quarenta minutos até que a maldita coisa arranca-se, a rebentar de gente pelas costuras. O normal por aqui é enfiar pelo menos cinco pessoas em cada fileira de três assentos por isso dois dos passageiros terão que ir todos chegados para a frente e quase de joelhos porque não é fisicamente possível enfiar cinco costas naqueles bancos. Uma dessas pessoas fui eu, e durante a hora e meia que demora a chegar a Santa Catarina tive o tempo todo a evitar as cabeçadas da senhora da frente que não conseguia aguentar a cabeça no lugar tal devia ser o sono.

 Quando saí na minha paragem já não havia mais ninguém além do condutor e o rapaz que o ajuda com a bagagem, um miúdo entroncado usando um inapropriado gorro de neve. A viagem custou uns míseros 25.000 (1€), muito menos que os 85.000 (ou lá o que é) que se tem que pagar até Ponta Furada – é que a distância não é assim tão diferente.

 Estava fora da hiace, com a mochila às costas, liguei o GPS e comecei a atravessar a ponte sob o rio Lembá, já minha conhecida por causa das contagens de frutos que fazemos no projecto. Subindo pelo caminho em direcção a Ponta Furada ia ouvindo as pessoas que desciam a comentar que eu ia fazer a volta à ilha. Isso fez-me perceber que o caminho não devia ser tão inexplorado como eu pensava. No percurso até Bindá comecei a sentir umas dores nos pés, assim algo com feitio de bolhas na sola do pé, mas devia ser só impressão porque ainda agora tinha começado a caminhar e eu nunca tinha tido bolhas por andar com os botins. Estas mesmas bolhas transformaram-se mais tarde num pesadelo, mas essa parte da história fica para depois. Atravessei o hospital de Bindá, e depois desci até à antiga estrada (do tempo colonial) que um vinhateiro nos tinha mostrado da última vez que lá estivemos. Era altura de puxar do machin (100.000 [4€] pelo machin, 30.000 [1,2€] para afiar). O que o Nity me arranjou é da marca Crocodile e estava bem afiado de ambos os lados por isso comecei a civilizar aquelas plantas desgovernadas e assim fui abrindo o caminho até tropeçar no trilho que me deveria levar até Juliana de Sousa.

De longe o maior caranguejo terrestre que já vi!
 Acho que foi logo aí que as coisas começaram a correr mal porque perdi-me do caminho e como a praia estava tão perto, com os calhaus rolados bastante chamativos, decidi escorregar encosta abaixo e no processo perdi o parasol (aquela coisa preta saliente que protege a lente de quedas e raios do sol) da objectiva da máquina de fotografar. Ainda voltei atrás para ver se o encontrava mas descobrir uma coisa redonda e preta no meio de uma praia de calhaus pretos e redondos é como achar uma agulha num palheiro, não ia acontecer, por isso foi com alguma tristeza que o deixei para trás – se alguém o encontrar, que o trate com muito amor e carinho! 
 Continuei pela praia fora com os caranguejos eremitas a rebolar à minha passagem. Eram tantos que ao caírem faziam um som parecido com chuva. Avancei, saltando uns quantos rochedos aqui e ali, até que vi ao longe uma pequena ruína e o esqueleto de uma ponte erguida sobre o mar. 

 Quando me aproximei mais vi uma baía lindíssima com um túnel onde as ondas entravam e rebentavam por isso era o local mais do que indicado para fazer uma pausa e comer uma goiaba – as malditas coisas parece que pesam 3kg por isso naquela altura já estava desejoso de me livrar delas. Foi também aí que aproveitei para tirar os botins para examinar o que se passava lá por baixo e vi que não era uma mas sim duas bolhas enormes em cada pé. Para a coisa não ficar muito pior, cobri aquilo com dois pensos dos grandes, voltei a tapar a dor com as meias e os botins e quando me preparava para levantar passou um homem cheio de pressa num caminho mais acima! Fiquei tão admirado de ver ali alguém que nem disse nada, e como ele não me viu, também passou sem nada dizer.



 Continuei pelo trilho por onde o homem tinha vindo mas mais uma vez foi só uma questão de tempo até me perder. Por aqueles lados o trilho é tão estreito que basta uma derrocada ou uma bifurcação para estragar tudo e perdi-me novamente. A única coisa que sabia é que tinha que descer para Sul, e para isso o som das ondas tinha que vir do lado direito. Tudo o resto é conversa, por isso pus-me a subir encostas e a descer vales e como a água do cantil já tinha acabado há bastante tempo, estava um bocado à rasca. A floresta continuava, densa, palmeiras, lianas e mais outras que depressa conheciam o meu machin de perto. Foi assim até que comecei a ouvir o som de um riacho lá em baixo por isso deslizei até ao seu encontro.

 Lá em baixo vi um passaroco novo! Coisa raríssima nos dias que correm porque me posso gabar de já ter visto quase toda a avifauna da ilha. Chamam-lhe Sui-sui-de-obô (Amaurocichla bocagei) e é um gajinho assim pequenino e atrevido, com um chamamento assobiado simples. O riacho era estreito e via-se que ia dar ao mar pouco depois por isso segui-o com toda a agilidade que as minhas bolhas me permitiam e fui até á praia apreciar o pôr do Sol enquanto roía o interior de um coco. Como a capital de São Tomé está virada assim para Este não é frequente ver-se o Sol a pôr-se por cima do mar (como em Portugal) por isso foi uma visão bastante agradável.


 Entretanto começou a ficar tarde por isso voltei a mergulhar na floresta, montei o amoque entre dois coqueiros e pus-me a coleccionar troncos e raminhos, dos mais finos aos mais grossos, só que como estava quase tudo molhado, a selecção não podia ser muito criteriosa. O plano era fazer um jantar quente, com arroz, cenoura, cebola, alho e atum. Mas o que realmente aconteceu foi que tentei atear fogo àquela porcaria de todas as formas e nada, nem com petróleo, nem com papel, nem com musgo, nem com palha, nada servia! Tudo ardia depressa demais e morria pouco depois… até que me lembrei de ter visto uma barraca abandonada lá ao fundo junto à praia. Fui lá e arrebanhei tudo o que eram plásticos e transportei-os para junto da lenha e num piscar de olhos já tinha uma pilha de paus intercalada por sacos de plástico e garrafas e sei lá mais o quê. Escusado será dizer que num piscar de olhos também já tinha uma bela fogueira.

 Ignorando o cheiro, pus-me a cortar as coisas na tampa do tupperware e começaram a aparecer uns grilos com umas antenas gigantes que não me deixavam em paz! Malditas coisinhas saltavam para dentro de tudo sem medo nenhum! Até para dentro do arroz eles saltavam e depois tinha que os tirar todos mortos e molhados e cozidos. No final o arroz não ficou nada de especial porque ficou muito aguado.



 A primeira noite foi um pouco estranha, os pés doíam e o barulho do rio estava perto demais para o meu gosto. Também se ouvia um ou outro kitoli (uma corujinha endémica) que tem um assobio bastante triste. Como a comida estava toda lá fora acho que passei a noite em estado de alerta não fossem os porcos descobri-la e comê-la primeiro que eu...





 E pronto, amanhã (se a net o permitir) haverá a continuação!

2 comentários:

  1. Aquela baiazinha com o buraco é o cais da antiga roça de Juliana Sousa que fica um pouco mais acima num morro que dá sobre o Ilheu Coco. Perdeste o caminho que leva até lá, a seguir este homem. Nesta roça tem gente a trabalhar : criação de porcos e cultivo de algumas coizas. Pertence ao Sr Teodorico Campos. Quem quizer visitar poderão falar com ele dirigindo-se à FENAPA.

    Bela experiencia, um pouco inconsciente sem guia.. mas em fim, é da inconsciencia que nasce a verdadeira aventura, não é?.
    Bastien

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    1. Pois, eu na altura também achei que que devia ser para esses lados por o mapa que levei mostrada uma enseada assim estranha! Não sabia que havia lá pessoal a viver mas pela conversa das pessoas em Ponta Furada já suspeitava.

      E foi uma boa experiência sem dúvida! ;)

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