E estamos quase na recta final da volta à ilha!
Dia 3
Estava eu dentro do amoque em S. Miguel e acordei lá para as 5h00, hora normal para se acordar no campo. Os rapazes que me acolheram já estavam lá fora a comentar qualquer coisa há bastante tempo e a certa altura houve um que me disse que tinham que ir andando para o campo. Como eu ainda estava deitado a ganhar coragem para iniciar o complicado processo que é arrumar tudo, calçar as meias, e depois os botins, disse apenas para irem andando que eu já saía. Mas eles queriam dizer qualquer coisa, e queriam que eu saísse do meu ninho alienígena, por isso lá rastejei para fora e veio um rapaz dar-me o botim sem o cano e uma meia comprida. Tinham tratado de tudo e eu nem tive que pedir nada!
Mil obrigados depois, lá me arrastei até à canoa para me ir calçar mas os pés (e as feridas) estavam cheios de areia por isso tinha mesmo que ir lavar tudo no rio mais próximo antes de me calçar. A praia tinha calhaus rolados mauzinhos e dolorosos e dar um passo que fosse era insuportavelmente doloroso por isso um dos dois rapazes que ficou para trás teve a amabilidade de ir encher um cantil com água do rio e trazer-me de propósito só para eu poder lavar os pés ali no meio do chão e assim vestir as meias e os botins por cima daquilo tudo. Num pé um botim normal, no outro um couto queimado e derretido do tamanho de um sapato de casamento. Por cima vesti as calças e estava pronto para partir à aventura, mas não sem antes agradecer-lhes da única forma que podia. O rapaz recebeu 50.000 e um sincero muito obrigado em troca da meia e o outro rapaz recebeu uma lata de atum, um sorriso e um até à próxima em troca do charoco do jantar da noite anterior.
Mas a simpatia deles não ficou por aí e ainda me conduziram pelo caminho até chegar a um sítio onde me garantiram que não haveria mais problemas e era sempre em frente, sempre por caminho liso e fácil.
![]() |
| Descobrir isto no meio da floresta ao fim de andar várias horas a roçar mato é uma visão fantástica! |
Nunca mais voltei a ver o Takashi e claro que me perdi na primeira derrocada que vi à frente. O caminho antigo existe, mas não se pode encará-lo como uma linha contínua. Em vez disso é um conjunto de trechos separados por floresta densa. Quando se descobre o caminho (normalmente assinalado por um caos de pedras espalhadas numa ordem mais ou menos linear) convém segui-lo até ele acabar e depois há que inventar. E foi justamente isso que fiz quando o trilho desapareceu e me forçou a subir a encosta. Por essa altura a técnica com o machin já estava bem apurada. Já sabia o ângulo preciso para cortar uma folha de palmeira de uma só vez, já conhecia aqueles fetos espinhosos que se cortam como manteiga, e já identificava quais a lianas que não valia a pena tentar cortar porque parecem cabos de aço.
Mais uma paragem para beber um leitinho à moda do rio e logo a seguir reencontrei o caminho, ou assim eu pensava. Naquela zona os trilhos dos porcos e das pessoas misturam-se bem demais, as pegadas duns sobrepõem-se às dos outros e era preciso confiar cada vez mais nas pistas que o caminho me oferecia. Um feto cortado com a ponta seca, um resto de uma pegada na lama, um arranhão numa raiz saliente, tudo servia para me dar confiança que estava no caminho certo. Continuei assim até que voltei a pisar o caminho antigo e este terminou bruscamente numa levou até a uma ponte caída.
Estava ali à minha frente o rio que, a julgar pelo mapa, devia ser o Rio Mussacavú, um rio largo demais para atravessar sem molhar os pés. Andei ali às voltas indeciso. Não me apetecia mesmo nada repetir o ritual de tirar os botins e as meias e as calças só para entrar na água e sair do outro lado cheio de areia. Mas não havia escolha por isso enfiei-me por um trilho de porcos e lá teve que ser.
Enquanto atravessava o rio fui completamente bombardeado por tafões (umas moscas de gado - formato XXL) que poisavam no cabelo e na cara e nas orelhas e no nariz e em todo o lado. Como segurava a mochila pesadíssima em cima da cabeça não havia muito a fazer além de me sacudir que nem um gnu e atravessar o rio o mais rápido possível.
Chegado à outra margem, começou a vingança. Enquanto estava sentado a secar (porque é que não trouxe uma toalha?) os tafões não paravam de vir, só que aqueles bichos são tão gordos que têm uma inércia enorme a descolar por isso são fáceis de apanhar se formos rápidos o suficiente. Fui picado várias vezes mas também matei tantos que lhes perdi a conta mas posso assegurar que o número tinha dois dígitos.
Meias calçadas, calças vestidas, botins enfiados, e lá fui eu, com todo o peso da mochila enterrado fundo nos ombros. Por aquela altura a t-shirt molhada já raspava nas costas há tanto tempo que parecia estar a fazer ferida, mas paciência, o caminho continuou.
![]() |
| Todos os rios são locais de paragem obrigatória para descansar, beber água e encher o cantil. |
A julgar pelo mapa, a estrada antiga devia continuar para dentro mas a verdade é que seguia em frente. Mas o mapa devia ter razão, por isso acabei por me embrenhar fundo num pântano cheio de porcos assilvestrados que me encaravam com desconfiança. E eu encarava com desconfiança aquele caminho... Aquilo não parecia um trilho usado por pessoas por isso voltei tudo atrás e seguindo o GPS e os meus instintos abri o caminho até à praia com a ajuda do infalível machin.
Os calhaus rolados já tinham ficado para trás e só havia areia escura e as reconfortantes pegadas de cães, porcos e pessoas que segui até chegar a Santo António. Aí encontrei uma casa jeitosa, com uma data de bananeiras e demasiados cães soltos para o meu gosto. Quando o primeiro soltou o alarme, começaram a chegar mais e mais vindos da floresta, e tal como uma alcateia que rodeia a presa, cercaram-me, por isso tive que me baixar e pegar em pedras para lhes enviar uma mensagem que percebessem (não acertei em nenhum claro, é só para os desencorajar).
Com toda aquela barulheira claro que apareceu alguém e mais uma vez, colocou-me no caminho certo. Só que desta vez eu fiz-lhe a seguinte pergunta:
- Quanto tempo demora para chegar a Porto Alegre?
E ele responde-me que com passo rápido chega-se lá em duas horas! Os pés estavam todos destruídos, as feridas nas pernas insuportáveis, as alças da mochila cravadas fundo nos músculos dos ombros; não aguentava mais uma noite a dormir no mato por isso meti na cabeça que ia chegar naquele mesmo dia a Porto Alegre e assim foi! As indicações que me deram em Santo António foram as primeiras a bater certo: Continuar sempre pelo caminho e quando se chegar lá acima, junto à fruteira, não se vira à esquerda, continua-se em frente, sempre pelo mesmo caminho. “Parece simples… mas todos as outras indicações também tinham sido…”
A subida era fácil e o caminho bom, nada comparado com o caos de pedras e cocos que já tinha atravessado, por isso liguei o piloto automático e atravessei aquilo tudo a uma velocidade impressionante. Pelo caminho vi macacos incrivelmente perto e recomecei a ouvir as amigas Céssias que tinham estado ausentes durante todo o caminho!
A empurrar-me para a frente estavam só pensamentos idiotas como comer pizza no Jasmim ou beber um Sumol qualquer e não sei se foi disso mas quando dei por mim estava em Malanza, a comunidade antes de Ponta Furada! Era o fim da aventura, liguei ao Fábio e ele veio todo o caminho desde a cidade para me socorrer. Mas a coisa não acabou aí porque tive a grande sorte de encontrar o grupo dos Leigos para o Desenvolvimento que está baseado ali mesmo em Malanza. Depois de me fazer de difícil lá aceitei o convite deles e subi para a casa onde nos ficámos a conhecer um pouco melhor enquanto as velas ardiam, a noite caía, e esperávamos que o Fábio chegasse.
E pronto, espero que tenham gostado!




