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domingo, 26 de agosto de 2012

De prau até às baleias

 Ontem fomos novamente "às baleias", mas desta vez a saída teria lugar no Sul da ilha, mais precisamente em Porto Alegre. Como de manhã há uma tendência maior para o mar estar mais calmo (o que facilita o avistamento dos bichos), tivemos que acordar às 4:30 para descer a costa nas calmas e chegar às 8:00 ao ponto de encontro, a loja do senhor Vado onde se encontra também a recepção do Jalé Ecolodge. O número do senhor é o 9917802.
 Foi aí que esperámos pelo o pescador que nos levaria até às baleias. Quando ele chegou pagámos-lhe 300.000 STD (12€) para comprar gasolina e depois de gastar mais um pouco para comprar um almoço rápido ao Vado, lá fomos nós!
 O barco do senhor é um prau, uma canoa sólida com um "acrescento de lado". Tomei a posição da frente, barbatanas de mergulho aos pés (não fosse raspar uma baleia junto ao barco e podermos nadar com ela!) e a mochila por cima disso tudo. E claro que mal saímos da segurança de Porto Alegre, a primeira onda molhou logo a mochila que tinha uma série de coisas que não gostam lá muito de água por isso tive que a passar para as traseiras. À frente ficaram só coisas à prova de água: as barbatanas, a outra máquina fotográfica, e eu.
 Mais uma vez foi uma indicação de um pescador que nos colocou na direcção certa e não foi preciso esperar muito até vermos as primeiras baleias saltitonas no horizonte. Elas atiravam-se de cabeça, batiam com as barbatanas, saltavam totalmente fora de água, mas estavam tão longe... tínhamos que chegar mais perto... e assim o pequeno barco aproximava-se mais e mais. As ondas batiam na proa, as minha t-shirt já estava toda colada ao corpo, mas estávamos cada vez mais perto.

 Esta foi a minha melhor fotografia da saída. A malandra apareceu subitamente à frente do prau, só para desaparecer instantes depois. Quem tinha a máquina pronta apanhou. Quem não tinha, paciência! Ainda houve um salto bastante perto do barco mas julgo que ninguém o conseguiu apanhar... ainda assim foi absolutamente brutal! E estar a ver tudo aquilo a partir de um prau minúsculo só melhorou a experiência.

 No final cada um de nós deu 100.000 (+-4€) ao pescador que nos transportou por isso toda a aventura ficou especialmente barata em comparação com a alternativa oferecida pela Marapa.
 Preço por pessoa: Prau do pescador - 8€ Vs 30€ - Marapa.
 Claro que a aventura também foi mais molhada - se a minha máquina não fosse à prova de água não me parece que teria sobrevivido. E não havia coletes salva-vidas. E o barco abanava muito mais por isso quem sofre seriamente com os enjoos deverá considerar também este factor.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Volta à Ilha - Dia 3

E estamos quase na recta final da volta à ilha!


Dia 3

 Estava eu dentro do amoque em S. Miguel e acordei lá para as 5h00, hora normal para se acordar no campo. Os rapazes que me acolheram já estavam lá fora a comentar qualquer coisa há bastante tempo e a certa altura houve um que me disse que tinham que ir andando para o campo. Como eu ainda estava deitado a ganhar coragem para iniciar o complicado processo que é arrumar tudo, calçar as meias, e depois os botins, disse apenas para irem andando que eu já saía. Mas eles queriam dizer qualquer coisa, e queriam que eu saísse do meu ninho alienígena, por isso lá rastejei para fora e veio um rapaz dar-me o botim sem o cano e uma meia comprida. Tinham tratado de tudo e eu nem tive que pedir nada!

 Mil obrigados depois, lá me arrastei até à canoa para me ir calçar mas os pés (e as feridas) estavam cheios de areia por isso tinha mesmo que ir lavar tudo no rio mais próximo antes de me calçar. A praia tinha calhaus rolados mauzinhos e dolorosos e dar um passo que fosse era insuportavelmente doloroso por isso um dos dois rapazes que ficou para trás teve a amabilidade de ir encher um cantil com água do rio e trazer-me de propósito só para eu poder lavar os pés ali no meio do chão e assim vestir as meias e os botins por cima daquilo tudo. Num pé um botim normal, no outro um couto queimado e derretido do tamanho de um  sapato de casamento. Por cima vesti as calças e estava pronto para partir à aventura, mas não sem antes agradecer-lhes da única forma que podia. O rapaz recebeu 50.000 e um sincero muito obrigado em troca da meia e o outro rapaz recebeu uma lata de atum, um sorriso e um até à próxima em troca do charoco do jantar da noite anterior.

 Mas a simpatia deles não ficou por aí e ainda me conduziram pelo caminho até chegar a um sítio onde me garantiram que não haveria mais problemas e era sempre em frente, sempre por caminho liso e fácil. 

Descobrir isto no meio da floresta ao fim de
andar várias horas a roçar mato é uma visão
 fantástica!
 Nunca mais voltei a ver o Takashi e claro que me perdi na primeira derrocada que vi à frente. O caminho antigo existe, mas não se pode encará-lo como uma linha contínua. Em vez disso é um conjunto de trechos separados por floresta densa. Quando se descobre o caminho (normalmente assinalado por um caos de pedras espalhadas numa ordem mais ou menos linear) convém segui-lo até ele acabar e depois há que inventar. E foi justamente isso que fiz quando o trilho desapareceu e me forçou a subir a encosta. Por essa altura a técnica com o machin já estava bem apurada. Já sabia o ângulo preciso para cortar uma folha de palmeira de uma só vez, já conhecia aqueles fetos espinhosos que se cortam como manteiga, e já identificava quais a lianas que não valia a pena tentar cortar porque parecem cabos de aço.









 Mais uma paragem para beber um leitinho à moda do rio e logo a seguir reencontrei o caminho, ou assim eu pensava. Naquela zona os trilhos dos porcos e das pessoas misturam-se bem demais, as pegadas duns sobrepõem-se às dos outros e era preciso confiar cada vez mais nas pistas que o caminho me oferecia. Um feto cortado com a ponta seca, um resto de uma pegada na lama, um arranhão numa raiz saliente, tudo servia para me dar confiança que estava no caminho certo. Continuei assim até que voltei a pisar o caminho antigo e este terminou bruscamente numa levou até a uma ponte caída.

 Estava ali à minha frente o rio que, a julgar pelo mapa, devia ser o Rio Mussacavú, um rio largo demais para atravessar sem molhar os pés. Andei ali às voltas indeciso. Não me apetecia mesmo nada repetir o ritual de tirar os botins e as meias e as calças só para entrar na água e sair do outro lado cheio de areia. Mas não havia escolha por isso enfiei-me por um trilho de porcos e lá teve que ser.
 Enquanto atravessava o rio fui completamente bombardeado por tafões (umas moscas de gado - formato XXL) que poisavam no cabelo e na cara e nas orelhas e no nariz e em todo o lado. Como segurava a mochila pesadíssima em cima da cabeça não havia muito a fazer além de me sacudir que nem um gnu e atravessar o rio o mais rápido possível.
 Chegado à outra margem, começou a vingança. Enquanto estava sentado a secar (porque é que não trouxe uma toalha?) os tafões não paravam de vir, só que aqueles bichos são tão gordos que têm uma inércia enorme a descolar por isso são fáceis de apanhar se formos rápidos o suficiente. Fui picado várias vezes mas também matei tantos que lhes perdi a conta mas posso assegurar que o número tinha dois dígitos. 

 Meias calçadas, calças vestidas, botins enfiados, e lá fui eu, com todo o peso da mochila enterrado fundo nos ombros. Por aquela altura a t-shirt molhada já raspava nas costas há tanto tempo que parecia estar a fazer ferida, mas paciência, o caminho continuou.
Todos os rios são locais de paragem obrigatória para descansar, beber água e encher o cantil.
 A julgar pelo mapa, a estrada antiga devia continuar para dentro mas a verdade é que seguia em frente. Mas o mapa devia ter razão, por isso acabei por me embrenhar fundo num pântano cheio de porcos assilvestrados que me encaravam com desconfiança. E eu encarava com desconfiança aquele caminho... Aquilo não parecia um trilho usado por pessoas por isso voltei tudo atrás e seguindo o GPS e os meus instintos abri o caminho até à praia com a ajuda do infalível machin. 
 Os calhaus rolados já tinham ficado para trás e só havia areia escura e as reconfortantes pegadas de cães, porcos e pessoas que segui até chegar a Santo António. Aí encontrei uma casa jeitosa, com uma data de bananeiras e demasiados cães soltos para o meu gosto. Quando o primeiro soltou o alarme, começaram a chegar mais e mais vindos da floresta, e tal como uma alcateia que rodeia a presa, cercaram-me, por isso tive que me baixar e pegar em pedras para lhes enviar uma mensagem que percebessem (não acertei em nenhum claro, é só para os desencorajar).
 Com toda aquela barulheira claro que apareceu alguém e mais uma vez, colocou-me no caminho certo. Só que desta vez eu fiz-lhe a seguinte pergunta: 

- Quanto tempo demora para chegar a Porto Alegre?

 E ele responde-me que com passo rápido chega-se lá em duas horas! Os pés estavam todos destruídos, as feridas nas pernas insuportáveis, as alças da mochila cravadas fundo nos músculos dos ombros; não aguentava mais uma noite a dormir no mato por isso meti na cabeça que ia chegar naquele mesmo dia a Porto Alegre e assim foi! As indicações que me deram em Santo António foram as primeiras a bater certo: Continuar sempre pelo caminho e quando se chegar lá acima, junto à fruteira, não se vira à esquerda, continua-se em frente, sempre pelo mesmo caminho. “Parece simples… mas todos as outras indicações também tinham sido…”
 A subida era fácil e o caminho bom, nada comparado com o caos de pedras e cocos que já tinha atravessado, por isso liguei o piloto automático e atravessei aquilo tudo a uma velocidade impressionante. Pelo caminho vi macacos incrivelmente perto e recomecei a ouvir as amigas Céssias que tinham estado ausentes durante todo o caminho!
 A empurrar-me para a frente estavam só pensamentos idiotas como comer pizza no Jasmim ou beber um Sumol qualquer e não sei se foi disso mas quando dei por mim estava em Malanza, a comunidade antes de Ponta Furada! Era o fim da aventura, liguei ao Fábio e ele veio todo o caminho desde a cidade para me socorrer. Mas a coisa não acabou aí porque tive a grande sorte de encontrar o grupo dos Leigos para o Desenvolvimento que está baseado ali mesmo em Malanza. Depois de me fazer de difícil lá aceitei o convite deles e subi para a casa onde nos ficámos a conhecer um pouco melhor enquanto as velas ardiam, a noite caía, e esperávamos que o Fábio chegasse.

E pronto, espero que tenham gostado!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Volta à Ilha - Dia 1


 Pode-se dizer que em São Tomé existem dois percursos maiores e mais arriscados que toda a gente fala e só alguns gostavam de fazer. A subida ao Pico é um percurso conhecido que se faz com guias e envolve pelo menos uma dormida no mato sob condições extremas de temperatura. Mas depois há o outro, aquele que está lá, à vista de todos, mas que ninguém ousa falar. Como se fosse um filho mal comportado que a família tenta esconder, o percurso da volta à ilha aguarda silenciosamente pelos mais aventureiros.
 O mapa das estradas não mente: há uma fatia enorme da ilha que não tem estradas; nem comunidades. Um sítio onde existe apenas floresta e rios e pântanos. Tinha que o ir explorar!

A verde o percurso que fiz a pé. A cinzento o mapa das estradas nacionais.

 Como o post que escrevi sobre a subida ao Pico teve uma aceitação muito boa vou repetir o formato e dividir este post em informações turísticas e peripécias da aventura.


Turismo

Perguntas

Quanto tempo demora?

 Eu demorei 3 dias (e 2 noites) mas fui sem guia e não conhecia o caminho. Imagino que com guia o percurso seja mais rápido e seguro mas também é verdade que fiz para lá atalhos (cansativos e não aconselháveis) que ainda assim me devem ter poupado algum tempo, por isso a minha resposta final é:
 A andar bastante bem e com poucas paragens, sem mergulhos nem muita exploração - 3 dias (2 noites).
 Se for para ir nas calmas com direito a um mergulho na praia de S. Miguel - 4 dias (3 noites).

É difícil?
 Sim, muito difícil. Todo o caminho é uma sequência interminável de: subir ao topo da cresta, descer até ao rio no fundo do vale, subir o monte seguinte, descer até à praia, etc, etc.




É perigoso?

 Sim. Se forem sem guia diria que é até demais porque o mais provável é perderem-se e depois terem que decidir entre escalar aquela parede pendurados nas raízes ou voltar tudo para trás. Mas sempre que encontrei o caminho, ele era (relativamente) simples, embora houvessem imensas pedras e cocos caídos no meio do caminho que dificultavam o avanço. Tal como no pico, também há crestas e caminhos estreitos só que aqui uma pessoa não cai e rebola encosta abaixo. Naqueles sítios, quem cai vai dar de comer aos peixinhos.


Vale a pena?

 Sim, vale! Mas não esperem uma floresta mágica de musgos envoltos na neblina (como no Pico). O que vão ver são imensas praias de calhaus rolados que espreitam entre picos escarpados cobertos de vegetação densa e tropical. Lá mais para baixo haverão praias de areia com mangal, e mais rios. Há muitos rios mesmo e quando o Sol espreita, todas as cores da floresta ganham subitamente vida e os pássaros cantam e os macacos roncam.

Quando devo ir?

 Sem  duvida nenhuma, na época mais seca - Gravana (Junho a Setembro). O caminho já é difícil o suficiente sem chuva a encharcar as calças, as meias, os pés, a pele, os ossos. Quando chove bem, não há capa nem botim que proteja tempo suficiente.

É preciso guia?

 Sim, é. Tal como no Pico, se acontecer alguma coisa, não convém ficar para lá caído num buraco com o pé partido porque não haverá rede de telemóvel nem ninguém para te vir buscar. E neste caso diria que a necessidade ainda é maior porque a meio do percurso está-se a um dia ou dois de caminhada de qualquer comunidade, por isso o melhor é não contar muito com isso. Com guia também se tem a vantagem de  fazer o caminho verdadeiro, sem descidas perigosas nem pântanos enlameados nem mato fechado.

Por onde se vai?

 Tendo em consideração a dificuldade do percurso, eu sugeria que se fizesse Ponta Furada - Porto Alegre. A parte inicial é mais difícil que o final por isso quando as encostas íngremes surgirem será quando vão estar menos cansados para as enfrentar.


Equipamento obrigatório?

 Se forem sozinhos:

  • Mapa dentro de uma mica - para evitar subir picos mais altos e ter uma vaga noção onde ficou o caminho.
  • GPS com 2 pilhas extra - para saber para que direcção fica o Sul.
  • Almofada, amoque/tenda e saco-cama
  • Lanterna frontal - para cozinhar às escuras ou ler um livrito ao deitar.
  • Machin (catana) - para civilizar as plantas. 
  • Panela - para fazer arroz, esparguete, ou aquecer o leitinho de manhã.
  • Comida - eu levei:
    2 pacotes bolachas - muito boa ideia mesmo
    3 cenouras
    2 pimentos
    3 bananas
    2 goiabas - talvez pesadas demais
    4 dentes de alho
    4 latas de atum
    2 chouriços
    0,25kg de leite em pó
    0,1kg açúcar
    0,1kg sal
  • Mas talvez pão tivesse sido mais seguro que o arroz porque ao contrário deste, não precisa de fogo, panela, ou água para desenrascar.
  • Pasta e escova de dentes
  • Pensos rápidos - é inevitável que hajam cortes e arranhões com todas aquelas palmeiras, mas os pensos são para aquelas feridas que estão realmente a estragar a experiência.
  • Isqueiro e petróleo - para começar o fogo numa floresta tropical encharcada.
  • Máquina fotográfica leve(!) e resistente (nada de canhões, porque depois mal a tiram com o cansaço)
  • Cantil
  • Impermeável
  • Roupa básica em duplicado (meias confortáveis(!), calças, t-shirts, essas coisas, calções só para tomar banho)
  • Botim (Galochas)
  • Sandálias - para deixar os pés respirar no fim do dia.
  • Dinheiro - pode ser preciso para agradecer a generosidade de alguém.
  • Telemóvel com a bateria toda carregada - o primeiro sítio com rede será mesmo no final, já em Malanza, mas ainda assim pode dar jeito nessa altura
  • Canivete - essencial para tudo.
  • Mochila resistente (de preferência com alças para distribuir o peso para a cintura)


 Se forem com guia imagino que seja tudo bastante parecido mas o machin (catana) e o mapa podem ficar em casa.

História

  Estive a escrever detalhadamente o que se passou em cada um dos três dias e como no final ficou gigantesco e massudo, achei melhor separar esta parte em três posts que publicarei um por dia. Assim sendo, que comece a aventura!


Dia 1 

 A aventura começou lentamente. Saí de casa todo carregado, botim calçado, machim escondido e parti na direcção do mercado. Encontrei a Andreia (professora da Helpo) pelo caminho e ela lá me apontou para o sítio onde se apanham as hiaces para Santa Catarina. Eram umas 8h20 quando me sentei no meu cantinho, lá atrás, junto à janela que não queria abrir, e foram preciso passarem mais quarenta minutos até que a maldita coisa arranca-se, a rebentar de gente pelas costuras. O normal por aqui é enfiar pelo menos cinco pessoas em cada fileira de três assentos por isso dois dos passageiros terão que ir todos chegados para a frente e quase de joelhos porque não é fisicamente possível enfiar cinco costas naqueles bancos. Uma dessas pessoas fui eu, e durante a hora e meia que demora a chegar a Santa Catarina tive o tempo todo a evitar as cabeçadas da senhora da frente que não conseguia aguentar a cabeça no lugar tal devia ser o sono.

 Quando saí na minha paragem já não havia mais ninguém além do condutor e o rapaz que o ajuda com a bagagem, um miúdo entroncado usando um inapropriado gorro de neve. A viagem custou uns míseros 25.000 (1€), muito menos que os 85.000 (ou lá o que é) que se tem que pagar até Ponta Furada – é que a distância não é assim tão diferente.

 Estava fora da hiace, com a mochila às costas, liguei o GPS e comecei a atravessar a ponte sob o rio Lembá, já minha conhecida por causa das contagens de frutos que fazemos no projecto. Subindo pelo caminho em direcção a Ponta Furada ia ouvindo as pessoas que desciam a comentar que eu ia fazer a volta à ilha. Isso fez-me perceber que o caminho não devia ser tão inexplorado como eu pensava. No percurso até Bindá comecei a sentir umas dores nos pés, assim algo com feitio de bolhas na sola do pé, mas devia ser só impressão porque ainda agora tinha começado a caminhar e eu nunca tinha tido bolhas por andar com os botins. Estas mesmas bolhas transformaram-se mais tarde num pesadelo, mas essa parte da história fica para depois. Atravessei o hospital de Bindá, e depois desci até à antiga estrada (do tempo colonial) que um vinhateiro nos tinha mostrado da última vez que lá estivemos. Era altura de puxar do machin (100.000 [4€] pelo machin, 30.000 [1,2€] para afiar). O que o Nity me arranjou é da marca Crocodile e estava bem afiado de ambos os lados por isso comecei a civilizar aquelas plantas desgovernadas e assim fui abrindo o caminho até tropeçar no trilho que me deveria levar até Juliana de Sousa.

De longe o maior caranguejo terrestre que já vi!
 Acho que foi logo aí que as coisas começaram a correr mal porque perdi-me do caminho e como a praia estava tão perto, com os calhaus rolados bastante chamativos, decidi escorregar encosta abaixo e no processo perdi o parasol (aquela coisa preta saliente que protege a lente de quedas e raios do sol) da objectiva da máquina de fotografar. Ainda voltei atrás para ver se o encontrava mas descobrir uma coisa redonda e preta no meio de uma praia de calhaus pretos e redondos é como achar uma agulha num palheiro, não ia acontecer, por isso foi com alguma tristeza que o deixei para trás – se alguém o encontrar, que o trate com muito amor e carinho! 
 Continuei pela praia fora com os caranguejos eremitas a rebolar à minha passagem. Eram tantos que ao caírem faziam um som parecido com chuva. Avancei, saltando uns quantos rochedos aqui e ali, até que vi ao longe uma pequena ruína e o esqueleto de uma ponte erguida sobre o mar. 

 Quando me aproximei mais vi uma baía lindíssima com um túnel onde as ondas entravam e rebentavam por isso era o local mais do que indicado para fazer uma pausa e comer uma goiaba – as malditas coisas parece que pesam 3kg por isso naquela altura já estava desejoso de me livrar delas. Foi também aí que aproveitei para tirar os botins para examinar o que se passava lá por baixo e vi que não era uma mas sim duas bolhas enormes em cada pé. Para a coisa não ficar muito pior, cobri aquilo com dois pensos dos grandes, voltei a tapar a dor com as meias e os botins e quando me preparava para levantar passou um homem cheio de pressa num caminho mais acima! Fiquei tão admirado de ver ali alguém que nem disse nada, e como ele não me viu, também passou sem nada dizer.



 Continuei pelo trilho por onde o homem tinha vindo mas mais uma vez foi só uma questão de tempo até me perder. Por aqueles lados o trilho é tão estreito que basta uma derrocada ou uma bifurcação para estragar tudo e perdi-me novamente. A única coisa que sabia é que tinha que descer para Sul, e para isso o som das ondas tinha que vir do lado direito. Tudo o resto é conversa, por isso pus-me a subir encostas e a descer vales e como a água do cantil já tinha acabado há bastante tempo, estava um bocado à rasca. A floresta continuava, densa, palmeiras, lianas e mais outras que depressa conheciam o meu machin de perto. Foi assim até que comecei a ouvir o som de um riacho lá em baixo por isso deslizei até ao seu encontro.

 Lá em baixo vi um passaroco novo! Coisa raríssima nos dias que correm porque me posso gabar de já ter visto quase toda a avifauna da ilha. Chamam-lhe Sui-sui-de-obô (Amaurocichla bocagei) e é um gajinho assim pequenino e atrevido, com um chamamento assobiado simples. O riacho era estreito e via-se que ia dar ao mar pouco depois por isso segui-o com toda a agilidade que as minhas bolhas me permitiam e fui até á praia apreciar o pôr do Sol enquanto roía o interior de um coco. Como a capital de São Tomé está virada assim para Este não é frequente ver-se o Sol a pôr-se por cima do mar (como em Portugal) por isso foi uma visão bastante agradável.


 Entretanto começou a ficar tarde por isso voltei a mergulhar na floresta, montei o amoque entre dois coqueiros e pus-me a coleccionar troncos e raminhos, dos mais finos aos mais grossos, só que como estava quase tudo molhado, a selecção não podia ser muito criteriosa. O plano era fazer um jantar quente, com arroz, cenoura, cebola, alho e atum. Mas o que realmente aconteceu foi que tentei atear fogo àquela porcaria de todas as formas e nada, nem com petróleo, nem com papel, nem com musgo, nem com palha, nada servia! Tudo ardia depressa demais e morria pouco depois… até que me lembrei de ter visto uma barraca abandonada lá ao fundo junto à praia. Fui lá e arrebanhei tudo o que eram plásticos e transportei-os para junto da lenha e num piscar de olhos já tinha uma pilha de paus intercalada por sacos de plástico e garrafas e sei lá mais o quê. Escusado será dizer que num piscar de olhos também já tinha uma bela fogueira.

 Ignorando o cheiro, pus-me a cortar as coisas na tampa do tupperware e começaram a aparecer uns grilos com umas antenas gigantes que não me deixavam em paz! Malditas coisinhas saltavam para dentro de tudo sem medo nenhum! Até para dentro do arroz eles saltavam e depois tinha que os tirar todos mortos e molhados e cozidos. No final o arroz não ficou nada de especial porque ficou muito aguado.



 A primeira noite foi um pouco estranha, os pés doíam e o barulho do rio estava perto demais para o meu gosto. Também se ouvia um ou outro kitoli (uma corujinha endémica) que tem um assobio bastante triste. Como a comida estava toda lá fora acho que passei a noite em estado de alerta não fossem os porcos descobri-la e comê-la primeiro que eu...





 E pronto, amanhã (se a net o permitir) haverá a continuação!

domingo, 1 de abril de 2012

Descendo a costa em direcção ao Sul

 O Sul do país é um local extremamente bonito tanto pela paisagem como pelas suas praias e como já fiz umas quantas passeatas, deixo aqui umas sugestões do que se pode ver.

Hospital da Roça de Água Izé.
Virando à direita para a Roça Água Izé e subindo todo o caminho até ao topo encontra-se este magnífico hospital que agora está ocupado por pessoas da roça. Este é o hospital novo e o antigo está mais atrás (seguindo um caminho à direita) mas sinceramente achei este bem mais bonito.

Vista de dentro de uma das salas do hospital.
 Compreendo perfeitamente que haverão aqueles a quem isto não atrai minimamente mas eu adoro este tipo de cenários onde a natureza tomou posse da obra do Homem.

Imediatamente depois de sair da Roça está a Boca do Inferno.
Boca do Inferno.
Com alguma paciência e técnica dá para tirar umas fotografias bem porreiras com a água arrastada. Cuidado é para não levar banho como eu levei! Se não quiserem fotografar, o sítio também é bem jeitoso simplesmente para tirar as sandálias e descansar um pouco com os pés dentro de uma poça que lá há.






 A estrada continua e as praias vão se seguindo. Se quiserem podem fazer uma paragem para esticar os pés na Praia das Sete Ondas que, tanto quanto sei, é o único sítio na ilha onde se podem encontrar umas "conchas" fantásticas que são na verdade o que sobra de um tipo de ouriço extremamente abolachado!


Continuando o caminho e passando São João dos Angolares, eventualmente chega-se à EMOLV onde existe um autêntico mar de palmeiras plantado à custa da floresta para produzir óleo de palma. É aí que se pode ver esta fantástica vista:
O Pico do cão grande é uma visão extremamente
potente mesmo quando o seu cume está encoberto. 

 Ele vê-se facilmente ao longe mas aconselho a esperarem para o fotografar quando passarem uma ponte pequenina sobre o rio que está na fotografia. Sem sair da estrada este será o ponto mais próximo e na minha opinião, com uma melhor composição.


Piscina natural.
 Continuando em frente vai-se passar ao lado de umas quantas comunidades amorosas (e completamente dignas de visita - serão certamente mencionadas noutro post) e também por uma ou outra surpresa como é o caso desta fantástica piscina natural que está do lado esquerdo mesmo antes de chegar à comunidade de Ponta Baleia. Diria que a forma mais fácil de a encontrar é mesmo ter a janela aberta e avançar com ouvido atento porque o rio e as cascatas que se seguem ouvem-se bastante bem! A piscina propriamente dia é fantástica e no centro é funda o suficiente para se mergulhar de cabeça

Mais em frente, junto a Malanza, pode-se fazer um passeio de canoa que é organizado por uma ONG local , a MARAPA. O custo são 10€ por pessoa pagos no fim do passeio que dura cerca de uma hora. Para organizar o melhor é visitar a loja que existe na cidade. 

O passeio é muito bonito com todas as margens revestidas com mangal, um tipo de árvore com longas raízes aéreas que por vezes até partem dos ramos mais altos e viajam todo o caminho até à água. Se o percurso for feito da parte da manhã ou ao final do dia até se podem ver macacos.


 Continuando o percurso eventualmente chega-se a Porto Alegre que será a ultima paragem caso se queira comprar comida. O único sítio onde comi foi na recepção do Praia Jalé Ecolodge, que é basicamente um quiosque com uma sala onde as pessoas da casa fazem comida sob encomenda. Ainda assim, a comida era muito boa e o abacaxi simplesmente épico...

Praia piscina
 Se chegaram até aqui é provavelmente porque têm um todo-o-terreno por isso continuar não será problema. Seguindo em frente e dando a volta a Porto Alegre chega-se a um caminho que virando à esquerda no sítio certo, levará até à fantástica praia piscina.







Mais praia piscina

Ainda mais praia piscina
 O sítio é verdadeiramente paradisíaco e muito raramente tem gente. Dentro de água também é espectacular (embora a corrente possa ser forte) com todos os rochedos que partem das profundezas, todos os vales com areia branca no fundo e toda a vida marinha que neles vive. 








Se ainda não tiveram praia que chegue, podem regressar para o caminho principal e continuar em frente até chegarem à praia jalé, mas essa fica para depois...